A bomba-relógio da abstenção
PARADA DO MONTE E CUBALHÃO
Os guarda-chuvas coloridos, pendurados à porta da igreja, denunciam o ponto de encontro de Parada do Monte. Do lado de dentro, as dezenas de pessoas que se juntaram para ouvir a homilia do padre Raul contrastam com as ruas desertas da aldeia, onde, nesta manhã de domingo, não se encontra vivalma.
As aldeias de Parada do Monte e Cubalhão casaram em 2013 e são hoje uma só freguesia, mas a fronteira entre ambas é bem definida pelos residentes. Em Parada do Monte, o dinamismo dos mais jovens é uma espécie de turbina que põe tudo a mexer: organizam celebrações religiosas, actividades desportivas, gostam do sítio a que chamam seu. Já em Cubalhão, as casas abandonadas e a população envelhecida são o reflexo da emigração e do êxodo. O café-convívio fechou há mais de um ano e o fumeiro é agora o único comércio da aldeia. Quem aqui vive não tem dúvidas: “Cubalhão é uma freguesia a desaparecer.”
Os terrenos das brandas na parte alta da freguesia, os campos de cultivo e as hortas que polvilham os quintais das casas com batatas, couves e hortaliças garantem que não falte comida à mesa. Há seis meses fechou a única mercearia da freguesia e o mercado de Melgaço, a 16 quilómetros, é o sítio mais próximo para fazer compras. Os vizinhos com carro e os vendedores ambulantes ajudam a preencher esta lacuna.
Parada do Monte e Cubalhão foi a freguesia com maior abstenção nas eleições autárquicas de 2021. Os emigrantes que aqui continuam recenseados, apesar de só voltarem à terra uma ou duas vezes por ano, são os responsáveis por este fenómeno: “Venha cá em Agosto e vai ver que há muita gente.”
“É difícil tomar decisões porque há cada vez mais partidos, e as campanhas eleitorais não são muito esclarecedoras. Há 40 anos, havia mais analfabetos, mas os debates políticos eram longos. Agora, há mais escolaridade, conseguimos perceber o que se está a passar, mas os debates são muito limitados no tempo. É difícil perceber as propostas de cada partido. Mas uma coisa é certa: se as atitudes não mudam, não podemos estar à espera de resultados diferentes. Se as coisas não estão a correr bem, é preciso procurar alguém que faça melhor.” Alexandra, 28 anos, farmacêutica
70% | Freguesia com maior abstenção nas eleições autárquicas de 2021. Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
“Costumo ir votar, mas este ano não vou. O meu voto não ganham. Enchem a carteira e uma pessoa tem de viver com 200 euros? Sou reformada, mas ainda trabalho — se quero comer, não tenho outro remédio. As despesas são muitas, o preço das coisas sobe cada vez mais. Há um ano, íamos com 50 euros à vila [Melgaço] e ainda trazíamos qualquer coisa, agora não trazemos nada para casa. Criamos frangos, coelhos e vamos trabalhando, se não morríamos à fome. Perdemos logo a vontade de ir votar. Uma pessoa que recebe um salário mínimo… para que é que dá o salário mínimo?” Pureza, 72 anos, agricultora reformada
“Vou sempre votar. É um dever. Não sei se voto bem, ou se voto mal, mas voto naquele que me agrada. Antigamente, votava sempre no mesmo partido, mas mudei. O presidente da junta era da minha família, convidou as pessoas para o partido e eu fui: era do PSD, virei para o PS.” Dorinda, 76 anos, agricultora reformada
477 | População residente em Parada do Monte e Cubalhão. Fonte: Censos 2021
893 | Número de pessoas inscritas para as eleições autárquicas de 2021 em Parada do Monte e Cubalhão. Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
“Somos uma freguesia de muita emigração. Mas as pessoas mantêm a residência principal aqui e, por isso, os cadernos eleitorais estão desactualizados. Antes do dia das eleições, metade da abstenção já está garantida.” Joel, 31 anos, engenheiro mecânico
“Eu respondo por mim, voto sempre. Mas vive aqui pouca gente, está tudo pelo mundo fora. Tenho três filhos e seis netos e não tenho cá um comigo, estão todos na França e uma neta está em Braga. Estou sozinha há 21 anos. Os meus filhos vêm no Verão e no Natal, às vezes eu também vou lá. Se estivesse a trabalhar ou soubesse falar a língua, tudo bem. Mas para estar presa em casa, prefiro ficar na minha casinha, sempre vamos conversando uns com os outros. No meu tempo havia muita mocidade no lugar de Cubalhão, rapazes e raparigas juntavam-se a pessoas com mais idade. Era uma alegria, agora é uma tristeza.” Irene, 76 anos, agricultora reformada
81% | Percentagem de pessoas que residiram em França, por pelo menos um ano, e regressaram a Portugal entre 2016 e 2021. França é o país com o maior número de emigrantes desta união de freguesias desde a década de 1970. Fonte: Censos 2021
“Diziam que Salazar não deixava o povo emigrar. Mas os antigos dizem que muita gente foi para França a pé. Depois houve mais liberdade, uma vida melhor. Nasci em Parada, mas a minha vida é lá fora, na França. A vida aqui não se ganha como lá. Votar ou não votar, é tudo igual. Agora há pouca gente: nós vamos morrendo, os novos emigraram, a maior parte está fora do país.” Manuel, 65 anos, servente de pedreiro
“Não sou emigrante, sou migrante. Trabalho em Braga, mas todos os fins-de-semana estou em Parada. São as raízes que nos chamam. A minha família, os meus amigos desde pequenina, estão aqui. Os valores que defendemos, as causas por que lutamos, as pessoas que ajudamos no dia-a-dia… Numa cidade é completamente diferente, nós fomos criados com o valor da pertença. Parada, no fundo, é nossa. E é nossa porquê? Porque Parada não é uma freguesia que tenha turismo. Não é uma freguesia onde passe uma estrada de passagem, para sair daqui é preciso voltar para trás. É aquilo que os nossos antepassados construíram e deixaram, sentimos como uma herança.” Sandra, 39 anos, educadora de infância
52% | A população com mais de 65 anos é duas vezes maior do que a média nacional (24%). Fonte: Censos 2021
“Acho que votar é um direito, por isso, temos de o exercer. Podemos ter dúvidas, estar descontentes com todos os partidos, não gostar de nenhum, não entender bem o que está a ser comunicado — acho que, muitas vezes, o que acontece é que a população mais envelhecida já desligou. É sempre a mesma coisa, já não ouvem as novas propostas e, quando vão votar, nem sabem muito bem em quem… Mas acho que devem ir na mesma.” Raquel, 30 anos, optometrista
“Ainda estou indecisa — PS ou PSD. Vou ouvindo o que eles dizem, prometem tudo e mais alguma coisa. Todos prometem. E nós vamos vivendo das pensões. A população está envelhecida e não há quem trabalhe porque os mais novos emigraram. Olhe os campos, isto era do melhor que havia, e agora…” Celeste, 72 anos, doméstica
81% | As eleições europeias são o tipo de eleição com maior abstenção na União das Freguesias de Parada do Monte e Cubalhão. Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna (Eleições de 2019)
“A Europa é uma realidade distante, os nomes são desconhecidos, as pessoas não reconhecem as caras. As eleições europeias podem ter, por isso, menos adesão. Nas autárquicas conhecem-se as pessoas, nas legislativas sabe-se quem é o candidato, associam-se as caras, os nomes, os partidos. Aquilo que os líderes fazem numa autarquia é muito mais próximo, tem um impacto directo na vida das pessoas, e ainda mais dos mais velhos.” Alexandra, 28 anos, farmacêutica
“A política desilude as pessoas. O voto deveria ser obrigatório, porque, mesmo contrariadas, as pessoas iriam votar.” Carlos António, 66 anos, empregado de balcão
1% | É uma das freguesias com menor taxa de desemprego de Portugal. Tem apenas uma pessoa desempregada. Fonte: Censos 2021
26% | A construção é o sector económico que emprega mais pessoas. Fonte: Censos 2021
“Não precisamos de sair da freguesia para construir uma casa. Temos gente competente para fazer tudo desde a fundação até à fechadura da porta. Só não temos indústria para fazer certos produtos, mas de resto…” Ricardo, presidente da junta
“Em Parada do Monte há muita gente, muitos jovens. Fazem obras, ajeitam os telhados, renovaram a igreja de Cubalhão. Há de tudo: pedreiros, carpinteiros, electricistas, todas as especialidades. Aqui em Cubalhão não é assim, mais três ou quatro anos e não vive aqui ninguém. São só casas fechadas.” Dorinda, 76 anos, agricultora reformada
MORGADE
Nos altos montes da região do Barroso, em Vila Real, onde aldeias se encostam e encobrem, os lugares de Carvalhais, Criande, Morgade e Rebordelo irrompem numa das margens da barragem do rio Rabagão.
As quatro povoações formam a freguesia de Morgade, onde a agricultura e a pecuária são as principais actividades profissionais, agora ameaçadas pela reactivação da Mina do Romano — planeia-se, além da exploração subterrânea, cavar um buraco a céu aberto para de lá retirar lítio durante pelo menos 13 anos.
“Não aceitamos que queiram destruir as nossas aldeias e serras, e a nossa qualidade de vida.” Armando, 48 anos, morgadense de gema, é o porta-voz da associação Montalegre Com Vida, responsável pelas acções que levaram ao boicote da ida às urnas nas eleições europeias de 2019 e nas presidenciais de 2021. Um movimento que fez de Morgade a freguesia com a maior taxa de abstenção nessas eleições.
Já nas autárquicas de 2021, viveu-se uma realidade bem diferente: a forte afluência justificou-se com o retorno em massa de muitos dos emigrantes de Morgade. “Pagaram a viagem ao meu irmão, e ele veio de autocarro desde França para vir cá votar”, recorda Armindo, um reformado da camionagem e construção civil de 68 anos.
Vivem pouco mais de 190 pessoas nesta freguesia onde o eco do sino da igreja ainda marca a passagem das horas, e extensos hectares de terrenos baldios dão alimento ao gado. Durante a semana, cerca de metade da população trabalha em Montalegre, a vila mais próxima, e só regressa para dormir. Mas ao fim-de-semana não faltam motivos de convívio: o serão dançante e o canto à desgarrada no café Cerdeira, a missa matutina de domingo, ou o célebre cozido de carnes da D. Ana Rosa, no café Pinto.
Apesar de notório o fervor com que se apregoa a terra, Morgade é um território com o futuro em risco — igual a tantos outros do interior de Portugal. “Viver aqui, só para quem for como eu e quiser andar atrás das cabras e das vacas”, remata Arminda, uma pastora de 49 anos.
> 95% | Morgade foi a freguesia do país com maior abstenção nas europeias de 2019 e nas presidenciais de 2021. Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
“Foi uma abstenção de protesto, porque o Governo decidiu entregar a concessão de exploração da mina de lítio de Montalegre sem o conhecimento da população. Se não tivemos voz nessa altura, também não a quisemos ter nas eleições.” Armando, 48 anos, professor
288 | Número de pessoas inscritas nos cadernos eleitorais em 2024. Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
“Desde os 18 anos, nunca falhei uma votação — excepto quando não votámos em protesto. Não deixo que os outros decidam por mim, mas posso dizer que sou um dos indecisos. Sei que nas próximas legislativas vou votar num partido de esquerda, mas estou indeciso. Começo a não acreditar no poder político.” António, 63 anos, agricultor
“Sou pastora desde que me casei, há 19 anos. Tenho cabras e vacas. Há anos que temos de as vender a preço baixo, enquanto o preço das rações e do gasóleo continua a aumentar... Os agricultores são os mais prejudicados. Os políticos são todos farinha do mesmo saco! Só ajudam quem não precisa; quem é pobre, pobre fica. Votar para quê?” Arminda, 49 anos, pastora
33% | Morgade tem dez vezes mais trabalhadores no sector da agro-pastorícia do que a média nacional (3%). São 18 pessoas num total de 55 trabalhadores. Fonte: Censos 2021
“Não ligo nada à política, são todos uns aldrabões. Não confio neles. Só quando chega o dia e a hora de votar é que decido se vou. Aqui não entregam panfletos, nem sequer um político aqui aparece. Estamos no fim do mundo.” Ana Rosa, 69 anos, comerciante
6 idosos por cada jovem | Em Carvalhais, Criande, Morgade e Rebordelo — as quatro aldeias que compõem a freguesia —, o envelhecimento é três vezes superior à média nacional (dois idosos para cada jovem). Fonte: Censos 2021
“Éramos sete irmãos, os meus pais não tinham condições e tive de fazer-me à vida. Fui para Londres com 19 anos. Foi lá que conheci o meu marido, casei e vivi durante 24 anos. Regressámos há seis anos, mas o meu marido foi contra. Gosto do meu país, saí para orientar a vida, poder comprar uma casinha, e regressar.” Teresa, 55 anos, vigilante de autocarro infantil
“Vivi 52 anos em França — estive no bairro 78 e depois mudei-me para o 94. Fui para lá com 17 anos, regressei em 2019. Quando vivia perto de Paris, e as coisas não estavam bem, cheguei a votar no Le Pen, mas não disse a ninguém. Se votar nas próximas eleições legislativas — ainda não sei se vou —, será no Chega. Gosto de ouvir o André Ventura falar.” Armindo, 68 anos, reformado da construção civil e camionagem
12 | Número de pessoas que residiram no estrangeiro por pelo menos um ano, e regressaram a Portugal entre 2016 e 2021, corresponde a 6% da população total (195). Fonte: Censos 2021
“Aqui as pessoas dependem do poder autárquico, a sua decisão não é independente. E os emigrantes vêm votar, principalmente os que estão em França. São votos que fazem a diferença no resultado.” Armando, 48 anos, professor
“Enquanto vivi em Londres, nunca vim de propósito votar, mas cá sempre votei. Não acompanho o que se passa no país, mas vejo o que acontece na minha freguesia. As pessoas não votam pelo trabalho feito, mas pelas amizades. É preciso mudar isso. Mas como acertar? Votar em quem, para mudar a situação? Falta saber quem é a pessoa certa.” Teresa, 55 anos, vigilante de autocarro infantil
“Pense comigo: duas eleições com abstenção alta por protesto. E depois aparece gente para votar nas autárquicas que eu nem conheço… A questão do lítio agora está mais parada, até pode ser que fique assim para sempre. Aí, as pessoas vão votar.” Adérito, 48 anos, talhante
“Aqui a abstenção não é um problema, as pessoas acabam por ir votar. Somos poucos, votamos por amizade, não pela competência. Portugal tem muito pouco peso na Europa, que é dominada pelos países ricos. Aí há uma abstenção real, um desinteresse.” António, 63 anos, agricultor
“No ano em que celebramos cinco décadas de democracia, a expectativa em relação ao futuro é menor do que em Abril de 1974. Temos 20% da população em risco de pobreza e exclusão social no país, isso deveria preocupar-nos. Quiseram acabar com os ricos, quando deveriam ter procurado acabar com a pobreza.” Abel, 69 anos, reformado da banca
60% | Os trabalhadores por conta de outrem são mais de metade da força activa da freguesia.Fonte: Censos 2021
“Os maiores empregadores da região são a câmara municipal, a Santa Casa da Misericórdia e o matadouro — a única indústria no concelho. Se da primeira vaga de emigração resultou investimento no território, nos últimos 20 anos a saída de pessoas tem sido prejudicial. Não há condições para fixar a juventude. E com a exploração mineira e o despovoamento, não vemos outro futuro além do fim da freguesia.” Abel, 69 anos, reformado da banca
AGUALVA E MIRA SINTRA
A União das Freguesias de Agualva e Mira Sintra, a 45 minutos de comboio de Lisboa, avista-se ao longe como um conglomerado de prédios altos e compactos, com janelas estreitas e escassas. Na artéria central da freguesia, a Avenida dos Bons Amigos, o comércio e a circulação são intensos. É uma espécie de foz do comboio, por onde todos os dias passam milhares de pessoas em constante vaivém entre a Linha de Sintra e a capital. Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, um mesmo cenário repete-se como que passado a papel químico. Para chegar à zona alta da freguesia, de onde sobressai a vista panorâmica sobre a malha urbana da serra de Sintra, é preciso serpentear o alcatrão. Mira Sintra tem menor dinâmica comercial, mas hoje concentra infra-estruturas como o Centro Cultural e a estação ferroviária onde se faz a ligação com a Linha do Oeste.
Aos sábados e domingos, os passos apressados deixam-se tomar pelo vagar. Nestes dias, é nos espaços verdes e no campo de futebol do 1947 CD Agualva, quando há jogo, que a vida acontece. O Parque da Ribeira das Jardas é o ponto nevrálgico. Aqui não se joga às cartas ou à malha, pessoas — de todas as cores e credos — encontram-se apenas para conversar, sem tirar os olhos dos miúdos que brincam no escorrega e no baloiço.
A familiaridade com os espaços públicos e o quotidiano da freguesia é visível, ainda que esta não se traduza numa maior proximidade com o poder político local. “Não sei quem é o presidente da câmara, nem sequer o presidente da junta. Sou de Moscavide, vim para cá há mais de 30 anos, mas trabalhei sempre fora. Aqui é praticamente o dormitório”, partilha Luís, 57 anos, responsável de máquinas.
Agualva e Mira Sintra é uma das metades do município de Agualva-Cacém, em tempos um pequeno povoado agrícola regado pela ribeira das Jardas. A linha ferroviária entre Lisboa e Sintra, a chegada de pessoas oriundas de diferentes latitudes, e as políticas urbanísticas do pós-25 de Abril mudaram o panorama demográfico, social e económico desta periferia de Lisboa. Hoje, o território divide-se em duas uniões de freguesias: Agualva e Mira Sintra, e Cacém e São Marcos, com a ribeira das Jardas a demarcar a fronteira entre ambas. São territórios contíguos, e não apenas geograficamente: habitam-nos uma população de culturas diversas que, na sua maioria, passa os dias a trabalhar fora e só vem a casa para dormir.
65% | A União de freguesias de Agualva e Mira Sintra está entre as dez freguesias de Portugal com maior abstenção nas eleições autárquicas de 2021. Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
“Voto sempre nas eleições legislativas e presidenciais, nas autárquicas não tanto. Sem o primeiro-ministro e o presidente da República não vamos a lado nenhum.” Fernanda, 70 anos, doméstica reformada
“Não voto porque, na minha opinião, ainda não existe o partido ideal. Para votar em branco, prefiro não ir lá. Também já aconteceu não estar em Portugal quando aconteceram as eleições.” Mário, 69 anos, professor reformado
“O estado do país está à vista de todos: rendas altíssimas, ordenados baixíssimos, combustível caríssimo. Os políticos prometem, prometem, mas depois de lá estarem em cima… Faço questão de ir votar, mas não sou eu quem os põe no poleiro. O meu voto é sempre aleatório, faço a cruz só nos partidos de baixo, nos mais pequeninos.” Patrícia, 45 anos, servente de armazém
51% | A percentagem de pessoas a trabalharem fora do município está acima da nacional (34%). Quase 45% destes trabalhadores demoram entre 30 minutos e uma hora a deslocarem-se de casa para o trabalho. Fonte: Censos 2021
“Sou de Moscavide, mas vivo em Agualva há 30 anos. Trabalho fora, aqui é praticamente um dormitório, a vida é monótona. Nem sei quem é o presidente da junta. Depois do Álvaro Cunhal, são só bonecos. Os políticos de hoje em dia querem poleiro, já ninguém se bate por convicções. Voto para ter alguém do contra na Assembleia, para tentar evitar que aconteça o mesmo que ao CDS que ficou sem representação no Parlamento.” Luís, 57 anos, responsável de máquinas
“Nasci em Angola, vim para Portugal com os meus pais em 1975. A minha actual companheira é de Agualva, vivo aqui há dez anos. Faço a minha parte: trabalho, cumpro um horário, ando com a minha empresa para a frente, para que o país também cresça. Mas não acredito na política. Ninguém cumpre nada, há sempre uma desculpa — a guerra, a falência dos bancos, a economia… daí a minha indiferença. O país devia ser governado por gestores, não por políticos.” Fausto, 54 anos, comercial
25 778 | 62% dos residentes estão em idade activa, em linha com a percentagem nacional (60%). Fonte: Censos 2021
10% | A percentagem de desempregados é superior à taxa de desemprego nacional (8%). Fonte: Censos 2021
“Não são os que vêm de fora quem mais usufrui dos benefícios. Portugal é um trampolim, aqui não se ganha nada. As pessoas esfalfam-se a trabalhar, adquirem os documentos e vão-se embora. Deixam cá os descontos. Quem constrói Portugal são os africanos: a construção da Expo’98, os africanos; a extensão do metro, os africanos. O Ventura não vê isso! Em minha casa todos votam — a minha esposa, os meus filhos — menos eu. Respeito a decisão deles, eles têm de respeitar a minha. Os políticos são todos iguais: vira o disco e toca o mesmo.” Mário, 69 anos, professor reformado
“Acho importante para a democracia existirem partidos apelidados de radicais no Parlamento. São a voz de muitas pessoas que se escondem atrás do politicamente correcto. Esses partidos escrutinam o poder político, têm a coragem de levantar o tapete e ver o lixo que lá está debaixo. Como é que alguém que faz um mau trabalho e é despedido, assume depois funções noutra pasta do Governo? Isso choca-me! É o jobs for the boys [emprego para os amigos]. Temos de ter coragem para mudar. Se isto está mal, prefiro dar o benefício da dúvida a outro partido.” Fausto, 54 anos, comercial
“Sinto que não há opções. Não quero votar no Ventura, não quero votar no PS, nem no PSD. Não há nenhum político ou partido em quem sinta vontade de votar. Não sinto afinidade nem com os princípios, nem com as medidas. A política está uma nódoa!” Ana, 29 anos, vendedora ambulante
24% | Percentagem de cidadãos de origem estrangeira a viverem em Agualva e Mira Sintra num total de 41 mil residentes. A naturalidade cabo-verdiana é a mais representada (24%), seguindo-se a angolana (20%) e a brasileira (16%). Fonte: Censos 2021
“Cheguei de Cabo Verde em 1977. Primeiro morei na Figueira da Foz e depois mudei-me para Agualva, em 2014. Na televisão, vejo política, ouço os discursos e, aos domingos, gosto de ouvir o Luís Marques Mendes. Voto sempre, em todas as eleições.” Joaquim, 78 anos, pescador reformado
“Vim de Angola há 15 anos. Vivo num país onde posso votar, por isso voto com gosto. Não sou muito de ir a comícios, voto num partido só. As eleições são como um jogo de futebol: queremos sempre que a nossa equipa ganhe. Mudar para melhor, acho difícil, e para pior também espero que não.” José, 69 anos, pedreiro reformado
“Concordo que, se podemos, devemos ajudar os outros. Mas se não conseguimos ajudar os nossos, como vamos fazer pelos outros? Quando convido alguém para vir a minha casa, limpo-a minimamente primeiro. Não é isso o que estamos a fazer. Portugal é hoje como Inglaterra antigamente: os imigrantes vêm viver de subsídios. E isso eu não posso aceitar.” Luís, 57 anos, responsável de máquinas
39 % | O nível de desigualdade na distribuição do rendimento está em linha com a média das freguesias nacionais (37%), mas longe da freguesia menos desigual do país — o Alandroal, em Évora (30%). Fonte: Censos 2021
“Muita da população não é originária da freguesia, vem de vários pontos do país, e de outros lugares do mundo. A falta de políticas urbanísticas levou à saída da classe média para municípios como Oeiras e Mafra. Quem ocupou essas casas foram pessoas de origem maioritariamente africana, que vieram do centro de Lisboa e da Amadora — numa expressão antiga de uma rábula do [grupo de quatro humoristas] Gato Fedorento em que perguntavam “Já estiveste em África?, eles respondiam: “a Amadora conta?”. As diferenças culturais que eu vejo nas ruas não existem nas mesas de voto.” Carlos, 54 anos, presidente da junta da União das Freguesias de Agualva e Mira Sintra
CACÉM E SÃO MARCOS
A vida segue calma e, em quase todas as ruas, silenciosa, não importa a que dia da semana. As poucas lojas abertas são sobretudo minimercados, pastelarias e cafés. O Shopping Cacém é o único que parece resistir à mudanças dos hábitos de consumo, uma espécie de cápsula do tempo que faz lembrar os centros comerciais de bairro dos anos 1990: come-se cachupa no Cantinho África da Bela, há uma cabeleireira, um barbeiro e um espaço para fazer entrançados, e as crianças podem andar de eléctrico, mota ou avião, desde que tenham uma moeda.
Não sendo uma das freguesias mais populosas de Portugal, é no Cacém e São Marcos que se concentra o maior número de pessoas por quilómetro quadrado. A cada virar de esquina, nos restaurantes, nas esplanadas, à porta das escolas, são muitos os diferentes idiomas que se podem escutar: o português — com sotaque de Portugal ou do Brasil — e os crioulos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde marcam as notas mais altas desta sinfonia, que é também o reflexo das pessoas que aqui vivem.
Os bancos de cimento e de madeira espalhados pelas ruas dão colo a quem quer repousar as pernas depois das compras, ou simplesmente parar e observar jovens e adultos a jogarem à bola, enquanto os visitantes se sentam nas esplanadas para provar os travesseiros e as queijadas de Sintra na Dona Estefânia. O espaço público é partilhado com os candidatos a deputados à Assembleia da República do Bloco de Esquerda e do Chega, que também por aqui andam em forma de cartazes, estrategicamente pendurados nos sinais de trânsito e nos postes de electricidade.
Cacém e São Marcos é uma das metades do município de Agualva-Cacém, em tempos um pequeno povoado agrícola regado pela ribeira das Jardas. A linha ferroviária entre Lisboa e Sintra, a chegada de pessoas oriundas de diferentes latitudes, e as políticas urbanísticas do pós-25 de Abril mudaram o panorama demográfico, social e económico desta periferia de Lisboa. Hoje, o território divide-se em duas uniões de freguesias: Agualva e Mira Sintra, e Cacém e São Marcos, com a ribeira das Jardas a demarcar a fronteira entre ambas. São territórios contíguos, e não apenas geograficamente: habitam-nos uma população de culturas diversas que, na sua maioria, passa os dias a trabalhar fora e só vem a casa para dormir.
37% | Um terço da população não votou nas eleições legislativas de 2024. A abstenção desceu quase 10% face às legislativas de 2022 (46%), e o Partido Socialista manteve-se como o mais votado. Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
“Estamos no meio de corruptos. Quando há eleições, é só mais um que vemos a entrar. Só vou lá para descarregar o voto. Trabalho para manter aquilo que é meu, mas quando desço a Avenida dos Bons Amigos até à estação, só vejo pessoas encostadas, gente parada.” Nuno, 47 anos, camionista
“A política actual não é exemplar nem pedagógica, não se preocupa com a abstenção, não motiva as pessoas a cuidar do país de origem ou de acolhimento, nem a trocar o sofá e as pipocas pelas urnas eleitorais. Há pessoas que votaram toda a vida, como eu, e que se questionam se vale a pena lá ir.” Lídia, 51 anos, professora
“Vim de Cabo Verde há 20 anos. Já trabalhei nas obras, no refeitório do Hospital Amadora-Sintra, em armazéns e numa loja de sofás em Cabra Figa [Rio de Mouro], numa fábrica de papel… Hoje, estou com a minha mãe neste café [Cantinho África da Bela], das oito da manhã às oito da noite. Não tenho tempo para ver notícias e saber da política.” Ivanildo, 30 anos, empregado de balcão
8938 habitantes/km2 | É a segunda freguesia do país com maior densidade populacional. Fonte: Censos 2021
23% | Percentagem de cidadãos de origem estrangeira a viverem na freguesia do Cacém e São Marcos num total de 39 683 residentes. A maioria são brasileiros (23%), seguindo-se os cabo-verdianos (21%) e os angolanos (19%). Fonte: Censos 2021
“No Brasil já tinha dois trabalhos, aqui é igual: sou serralheiro de dia e estafeta à noite. Não tenho tempo para me manter informado sobre a política. Não voto cá, nem voto para o Brasil. Sinto que não tenho o entendimento suficiente para tomar uma decisão consciente.” Breno, 25 anos, serralheiro e estafeta
“Estou em Portugal há 20 anos, nunca consegui a nacionalidade porque tive problemas com a justiça. Agora tenho de esperar, não posso votar... Mas o meu voto ia mudar alguma coisa? Não sei… Era capaz de votar se existisse um partido e uma pessoa que me fizesse acreditar. Afinal, os políticos é que vão cuidar do nosso futuro e do dos nossos filhos.” Ivanildo, 30 anos, empregado de balcão
“Sou de Cabo Verde, cheguei há um ano. Ainda não tenho nacionalidade portuguesa, por isso, não posso votar. Se pudesse, votava. Sempre votei no meu país. Ouço dizer que em Portugal não se está bem. Antes, o custo de vida era menor; hoje, a comida e a casa estão mais caros, é ainda mais complicado para pessoas estrangeiras como eu.” Denilsa, 22 anos, empregada de balcão
76% | A percentagem de habitantes que completaram a escolaridade obrigatória está acima da mediana das freguesias nacionais (47%), e longe da freguesia com menor proporção de residentes com o 12.º ano, São Vicente, em Vila Real (7%). Fonte: Censos 2021
“Não se fomenta o espírito crítico, nem a formação e a educação no verdadeiro sentido dessas palavras. Se calhar porque convém ter pessoas com pouca opinião… Na escola onde lecciono, passámos de uma sala de aula com alunos maioritariamente portugueses para o inverso. Muitos não falam português, nem sequer o inglês dominam.” Lídia, 51 anos, professora
“Não acompanhava muito a política, mas quando cheguei à idade adulta e comecei a sentir na pele os problemas do dia-a-dia… Vejo que se deviam retirar os subsídios a quem faz menos, e beneficiar mais quem trabalha. Trabalho, há, mas não é remunerado como devia ser. Sou jovem, ainda vivo com os meus pais porque ter casa própria é caro.” Ricardo, 27 anos, comerciante
18% | Percentagem que representa o peso do comércio por grosso e a retalho e reparação de veículos automóveis e motociclos na economia local. É o sector de actividade com maior expressão na freguesia. Fonte: Censos 2021
10 658 | Número de pessoas que trabalham fora do município; correspondem a 54% do total da população empregada (19 599). Fonte: Censos 2021
“Trabalhei numa fábrica, mas há 35 anos que sou vendedora no mercado do Cacém. Não tenho tempo para ver televisão, também não ouço rádio… Vou ouvindo os comentários dos clientes sobre a política e os políticos. Por norma, voto, não sei se bem ou mal. Faço o meu dever, mas o país está perdido, está um descalabro. Todos os políticos roubam, e nós — o povo — é que temos de pagar a dívida.” Maria Isabel, 59 anos, comerciante
“Estive em Espanha, voltei no início de Fevereiro, e os transportes já aumentaram; o preço muda a cada ano. Vejo pessoas a saltar as cancelas porque têm de ir trabalhar, mas não têm dinheiro para pagar o bilhete. O problema não está só nas portagens e no combustível… O Estado tem de ajudar a população.” Alfa, 55 anos, maquinista
“Assistimos a uma guerra entre partidos, os políticos não se preocupam em apresentar um bom projecto para a saúde, a educação, a habitação… as necessidades básicas. Neste momento, o confronto é entre partidos, não entre ideais. As mordomias na política deviam acabar, porque só quando dói é que vamos ao médico.” Umilta, 72 anos, reformada da banca
64% | A União das Freguesias do Cacém e São Marcos esteve entre as dez freguesias de Portugal com maior abstenção nas eleições autárquicas de 2021. Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
MOURÃO
Na paisagem que circunda esta vila raiana. No café Retiro Azul que é ponto de encontro nas manhãs de domingo. Entre um prato de favas com chouriço e outro de bochechas de porco preto, no restaurante Chaminé. No átrio da igreja, após a homilia dominical. Em Mourão, todas as conversas desaguam na barragem de Alqueva.
O maior lago artificial da Europa Ocidental, motivo de visita para muitas das pessoas que por aqui passam, foi para os mouranenses o responsável pela declaração de óbito da freguesia: “Desde que está cá o Alqueva, Mourão morreu.”
Culpam o grande lago pela quebra da indústria local, pelo declínio da agricultura tradicional e familiar, e pelo desaparecimento da antiga aldeia da Luz, submersa há 22 anos. Só a praia fluvial, inaugurada em 2017, atenua o desalento pela falta de acesso à água, ante uma barreira artificial que prometia o desenvolvimento económico do território, mas da qual a população diz não poder tirar “nem uma gota de água”.
Quem aqui vive, deixou-se esmagar por uma visão fatalista do futuro. As benesses dadas pela câmara municipal — como as actividades gratuitas nas férias da escola ou o acesso às piscinas municipais por pouco mais de um euro — são insuficientes para trazer alento a uma população anestesiada pela falta de oportunidades. Até as chaminés mouriscas, que singularizam a traça dos telhados e saltam à vista dos que não as olham todos os dias, já só a muito custo são referidas como um motivo de orgulho da região.
Ainda que os fundos europeus sejam responsáveis pela reabilitação de infra-estruturas como o cine-teatro e a biblioteca municipal, a União Europeia é referida, uma e outra vez, como um inimigo público. É que para quem precisa de ganhar a vida, projectos e promessas não chegam.
E num cenário em que os únicos empregadores são os latifundiários locais que “ainda resistem”, a Santa Casa da Misericórdia e o município, é difícil encontrar saídas. O lamento é generalizado: “Vivemos numa terra subsídio-dependente.”
“Aqui à volta é só água. Desde que construíram a barragem do Alqueva, Mourão morreu; a Portucel fechou, as pessoas emigraram… Voto sempre e nunca votei em branco. Menos nas europeias, com essas não perco o meu tempo.” José Alberto, 47 anos, pedreiro
94% | Foi a segunda maior taxa de abstenção do país nas europeias de 2019. Dos 1389 eleitores recenseados, 1299 não votaram. Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
“Com o que vemos acontecer — os desvios de dinheiro, a corrupção —, vamos acreditar em quem? Neste momento, não vejo nenhum político capaz. Mas ainda bem que há oposição, não sou a favor de maiorias absolutas.” Hugo, 33 anos, técnico do Programa Escolhas
96% | É a proporção de água do Sistema Global de Alqueva usados para rega — aumentou 33% face a 2021. Fonte: Relatório de caracterização dos clientes da EDIA 2022
“A exploração agrícola no concelho não foi contemplada no plano de rega. Só temos acesso à luz, e não à água. Isso tirou-nos capacidade competitiva… Moura vai ter um bloco de rega, Reguengos também… pode ser que Mourão também venha a ter.” João, presidente da câmara
“Nós não temos projectos agrícolas, temos pesadelos agrícolas. Negar uma coisa destas a uma população que tem falta de água… Tenho 200 hectares de terra que fazem fronteira com o Alqueva e não posso de lá tirar uma gota de água. Tinha mais 200 hectares, mas ficaram submersos com a barragem.” José, 68 anos, geógrafo
“A única coisa que esta barragem nos trouxe foi a obrigação de mudar uma aldeia inteira de sítio. As memórias de uma vida ficaram submersas. Aqui temos obra feita, mas não há gente. Não tenho nenhum partido político, decido votar em quem acho que é melhor para o país. Os meus pais não querem votar, mas digo-lhes sempre que não podemos exigir mudanças se não votarmos.” Fábio, 34 anos, bombeiro
“Os programas de apoio chegam aqui, mas não de forma simples. É muita burocracia, é preciso sabermo-nos mexer. Tenho um filho que se dedica à produção de ovelhas, sei bem do que falo. Dão subsídios pela terra, por cada ovelha, por cada sobreiro. Aqui vive-se de subsídios, e não são só as pessoas ciganas. Eu não vivo aqui, só venho de passagem. Sou ideologicamente do PSD, mas sou pessoa para votar num partido de esquerda se for alguém com quem me identifique intelectualmente.” Natércia, 66 anos, administradora hospitalar reformada
220 | Número de pessoas empregadas pelo município de Mourão. Representam um terço dos trabalhadores por conta de outrem no concelho (696). Fonte: Câmara Municipal de Mourão e Censos 2021
47% | Quase metade dos habitantes tem entre 20 e 60 anos. Destas 722 pessoas, mais de metade tem acima de 40 anos (27%). Fonte: Censos 2021
“Sou de Castro Verde, em Beja. Há 15 anos, mudei-me para Mourão para acompanhar a implementação do projecto do Alqueva — todos os projectos agrícolas precisam de acompanhamento arqueológico. Com as contas para pagar, tive de encontrar uma ocupação alternativa. O turismo começou a aumentar, eu via o sobe e desce de pessoas na rua de acesso ao castelo, e pensei que uma loja de artesanato local seria uma boa oportunidade de negócio. Felizmente tem corrido bem, é a única loja de souvenirs em Mourão. Também tenho este café, um espaço da câmara que estava vazio há muitos anos, e a renda não é muito alta.” Cláudia, 44 anos, arqueóloga
7% | A percentagem de mouranenses com formação académica é três vezes inferior à realidade nacional (21%). Fonte: Censos 2021
“O afastamento do associativismo — uma das grandes armas que tínhamos — talvez se deva às dificuldades das famílias. Vive-se mal num concelho que é pouco rico, que perdeu território para a barragem do Alqueva, onde há pouco emprego. Os que tinham mais expectativas de vida abalaram daqui, ficámos mais isolados. São poucos os professores que querem cá ficar, a comunidade escolar é cada vez mais reduzida, só não se nota tanto porque neste momento temos muitos alunos de etnia cigana. Tenho amigos que dizem: Mourão é o desembargo dos coxos. É triste, porque Mourão é uma terra bonita e com muitas potencialidades.” José, professor
“A falta de formação e de informação talvez afaste as pessoas da política. Venho de uma família com tradição comunista. Nas autárquicas, voto pela pessoa — quem resolve os nossos problemas são os presidentes da junta e da câmara. Em todas as outras eleições, voto no partido que trago de família… Só não votei PCP quando o Sampaio da Nóvoa foi candidato às presidenciais de 2016.” Cláudia, 44 anos, arqueóloga
65% | A freguesia de Mourão concentra o maior número de casas vagas no concelho — para venda, arrendamento ou outros motivos. São 154 num universo de 238 alojamentos desocupados no concelho. Fonte: Censos 2021
“Trabalhei dois anos em Évora, numa fábrica de peças para automóveis. Em Maio de 2020, depois de terem despedido muitas pessoas, regressei para a casa dos meus pais e estive no desemprego até Janeiro de 2022. Actualmente trabalho na Associação ADEREM [Associação de Desenvolvimento de Mourão], e continuo a viver com os meus pais. Com os preços a oscilar, a escassez de emprego, a alimentação e o vestuário mais caros, quem é que quer arriscar-se num empréstimo para comprar casa?” Hugo, 33 anos, técnico do Programa Escolhas
“Vemo-los na televisão e aquilo que dizem nada tem a ver com aquilo que a gente precisa. O que sabemos é que chega o final do mês e temos de pagar a água, a luz, a renda... Tenho de me governar com 555 euros, e eles têm milhões! Pedi dinheiro ao banco, construí a minha casa, paguei e, como se diz no Alentejo, não devo nada a cabrão nenhum; já eles, não sei se conseguem gerir bem os seus milhões.” Florêncio, 64 anos, pedreiro e pintor
35% | Nas legislativas de 2024, Mourão registou uma abstenção em linha com o resultado no país (34%). O Chega foi o partido mais votado (32,5%), pouco à frente do Partido Socialista (32,3%). Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
BORBA
O colapso da Estrada Municipal 255, depois do deslizamento de uma pedreira de mármore em 2018, é a espinha na garganta de quem vive na cidade alentejana de Borba. Uma cratera a céu aberto que aumentou distâncias e isolou, ainda mais, uma população que se diz há muito abandonada pelo poder central.
A viagem em linha recta até Vila Viçosa, que permitia em pouco mais de cinco minutos escoar produtos e “ir ver as vistas”, é hoje feita em círculo e demora quase meia hora.
“Com as máquinas que o Estado tem, não podiam ter lá ido já tapar o buraco? Falava-se na construção de uma ponte, mas, até agora, nada… Passaram Borba a cidade, mas isto não tem condições nem para ser vila. Os serviços estão todos a ir embora daqui. Construíram aí o pavilhão multiusos que ninguém usa, e o mercado que só serve no Inverno porque os mais velhos custam a subir ao 1.º andar.” O raio-X é feito por José Panasco, 64 anos, reformado da construção civil, mas são muitos os moradores a repetirem as mesmas queixas.
Especados à entrada do mercado municipal, do pavilhão multiusos, da escola primária… os cartazes com os logótipos dos fundos europeus são mais agradecidos à Europa do que as pessoas que aqui vivem. Para os habitantes de Borba, a União Europeia é uma espécie de primo afastado a quem dizem nada dever e de quem só se lembram de vez em quando, nem sempre pelos melhores motivos.
Matriz, corresponde ao centro histórico da cidade, e é a maior freguesia das quatro que compõem o município. É também uma das cinco onde, a nível nacional, menos se votou nas eleições europeias de 2019.
3387 | A população de Matriz representa 52% do total dos habitantes da cidade de Borba. Fonte: Censos 2021
65% | A maioria dos residentes tem mais de 40 anos. Apenas 15% da população tem menos de 18 anos. Fonte: Censos 2021
“Voto em todas as eleições sempre no mesmo partido, mas não digo qual é! Só nas autárquicas e nas legislativas… as outras não acho importantes.” José, 64 anos, reformado da construção civil.
“Há 30 anos isto estava no auge. Depois veio o euro, os supermercados, as pessoas deixaram de ir aos mercados… Depois da entrada para a União Europeia, tudo está pior. Digo aos meus filhos para se irem embora, o que é que eles ficam aqui a fazer? Voto sempre, menos nas europeias.” Carla, 51 anos, técnica de acção educativa.
90% | A abstenção nas europeias está entre as cinco mais altas de Portugal. Nove em cada dez habitantes não votaram nas eleições de 2019. Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
< 35% | A abstenção nas eleições legislativas de 2024 (31%) e autárquicas de 2021 (34,9%) está abaixo da média nacional (34% e 46% respectivamente). Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
“A mim tanto se me dá quem ganha, só vou lá quando me apetece. Voto sempre no Partido Socialista, quando era nova diziam que era o partido para as pessoas do campo… Sabia lá a gente o que é que era bom.” Olímpia, 90 anos, camponesa reformada
11% | Matriz tem três vezes mais trabalhadores no sector da agricultura e das pescas do que a média nacional (3%). Fonte: Censos 2021
“Os políticos fazem leis de gabinetes, mas não sabem como a coisa se processa, estão distantes dos territórios que vão ser sujeitos a essas mesmas leis. Temos uma população envelhecida e sempre vivemos da agricultura. Hoje, os jovens formam-se e não têm para onde ir trabalhar. Precisamos de medidas que dinamizem a região, que incentivem as pessoas a quererem viver cá.” Paulo, 53 anos, técnico agrícola
“Já votei em todos os partidos, mas não me tenho dado bem com nenhum. Os políticos falam de tudo, lembram-se de tudo, menos dos combatentes do Ultramar. De ano para ano, o nosso suplemento de reforma, como ex-combatente, só diminui. Ainda hoje, às vezes, vou dormir e fico a pensar em coisas de Angola.” José, 79 anos, reformado
54 | O número de estrangeiros residentes representa apenas 2% da população total, que conta 3387 pessoas.Fonte: Censos 2021
“Estou cá há dez meses. Não há nada para fazer e é desse nada que estou precisando. É uma terra pacata, de velhotes, mas eu gosto, tem qualidade de vida. Não tem o que fazer, não tem onde gastar, aquilo que ganho, consigo poupar. Sinto falta da balada, adoro ir à discoteca e aqui não há. Às vezes, tem um amigo meu que toca e faz shows de música ao vivo, e aí eu vou.” Silvana, 59 anos, empregada de café
“Vivo em Borba há 23 anos e tenho um filho que vive com o pai porque a minha casa não tem condições para uma criança. Quando não tenho trabalho no campo, fico a receber o Rendimento Social de Inserção. A última vez que votei foi no presidente da câmara, mas ele não me deu trabalho, não voto mais nele. Entrevistas para ir fazer cursos há muitas, agora, trabalho, nada. O que eu gostava era de trabalhar para a junta de freguesia a varrer as ruas.” Susana, 47 anos, trabalhadora agrícola sazonal
5% | A taxa de desemprego está abaixo da média nacional (8%). Fonte: Censos 2021
53% | A percentagem de habitantes que completaram a escolaridade obrigatória está acima da mediana das freguesias nacionais (47%). Fonte: Censos 2021
“Costumo ir votar, mas para as europeias nem tanto. Sei que é uma parvoíce. As promessas políticas desmotivam-me, tenho sempre esperança, mas depois vejo que não fazem nada. Os caminhos que vão de Borba para as aldeias são uma miséria, e a estrada da pedreira?! Antigamente levávamos cinco minutos para chegar a Vila Viçosa, agora a viagem dura mais de 15. Os preços subiram, as pessoas não têm dinheiro para gastar e, por isso, já não querem saber da qualidade. Deixaram de comprar no mercado, fazem tudo nos supermercados.” Laureta, 54 anos, vendedora
“Não me imagino a viver aqui, a vida é monótona. Alguns dos meus colegas de escola foram para Évora, outros para Lisboa, também para o Algarve… A maioria saiu de Borba. Alguns até querem voltar, mas não há nada nem ninguém a promover iniciativas que levem os jovens a ficar.” Pedro, 20 anos, estudante universitário
ALMANCIL
Almancil é um simulacro a céu aberto das desigualdades do mundo.
De costas viradas para o Atlântico, nos limites da Estrada Nacional 125, acontece aquilo a que se pode chamar “a vida normal”: há escolas, parques, mercearias, cafés e restaurantes para diferentes gostos. Circulam pessoas de uma classe trabalhadora que por aqui vai ganhando a vida, e que acusa o Governo de só se lembrar do Algarve quando faz sol. Queixam-se de serem postos à margem: “É como a comida de que não gostamos e deixamos à borda do prato”, descreve Silvana, 59 anos, técnica de serviço educativo.
À medida que nos afastamos do centro da vila, em direcção às praias, a paisagem muda: os prédios são substituídos por vivendas de luxo com piscina, homens de viseira com pala polvilham extensos relvados de golfe, as estradas e passeios mal pavimentados dão lugar a um chão de pedra que, de tão impecavelmente calcetado, custa a crer ser real. Estamos na Quinta do Lago e em Vale do Lobo, dois dos resorts mais luxuosos de Portugal, onde a língua franca é o inglês e o acesso é restrito.
Pede-se a quem vive no Algarve, a região do país mais afectada pela falta de água, um esforço individual para reduzir o consumo. Mas é na Quinta do Lago e em Vale do Lobo que se regista o consumo doméstico mais alto de Portugal continental. As equipas de marketing destes resorts vendem-nos como “dos mais eficientes”, mas os números divulgados pela Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos dizem que os seus consumos ultrapassam centenas de litros outras regiões de Portugal.
“Para perceber Almancil é preciso compreender as duas realidades tão diferentes que nos rodeiam: a de quem tem muito dinheiro e não precisa de sair da Quinta do Lago para fazer nada e a dos imigrantes mais pobres que partilham o espaço público com as pessoas daqui”, esclarece o presidente da junta de freguesia, Joaquim Pinto.
“Neste momento, não me identifico com nada. Quem está no Governo acaba por criar maus hábitos na utilização do dinheiro público. O que se vê é má gestão.” Ana, 51 anos, arquitecta
“Voto sempre, menos nas europeias. Voto só nas eleições mais importantes... pelo menos, é o que uma pessoa pensa: que as outras são mais importantes. Mas, se calhar, nem é assim, não é?” Beta, 49 anos, talhante
“Votar para quê? Vale de alguma coisa ir votar? Ganho 700 euros, pago 500 de casa, se não fosse o salário da minha mulher…” Luís, 54 anos, técnico de acção educativa
> 50% | Mais de metade da população de Almancil não votou nas eleições autárquicas e nas presidenciais de 2021, nem nas europeias de 2019. Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
“Voto no Chega porque uma amiga me explicou o programa deles e eu concordo que o Estado não pode contribuir para quem não trabalha. Já me disseram que o André Ventura é racista, mas pronto…” Alex, 23 anos, pintor
“Vivo em Almancil desde que vim de Bissau, em 1995. É um sítio sossegado, gosto de morar aqui. Depois de o PS entrar para o Governo, vi melhorias: os patrões passaram a pagar as horas extra, consegui a nacionalidade… Desde que sou portuguesa, voto sempre. Acho que devemos expressar o que pensamos. Ficar calado é que não.” Ermelinda, 61 anos, vendedora de produtos alimentares
“Deixei de votar nos anos 1990. Percebi que nestes anos de democracia não mudou nada. Já não temos estadistas. Os putos estudam, mas não sabem o que é o trabalho, a teoria é diferente da prática. Fazem-se leis alienadas, as pequenas e médias empresas não são ajudadas.” Victor Jorge, 68 anos, empresário
29% | A população a trabalhar por conta própria em Almancil está acima da média nacional (20%). Fonte: Censos 2021
“Quem consegue comprar apartamentos novos, aqui, são portugueses com pais que podem ajudar, pessoas que compraram casa há anos e agora querem trocar. Ou, então, estrangeiros com dinheiro.” Ana, 51 anos, arquitecta
“Não sei bem o que se passa na política cá. Nasci em Portugal, mas a minha nacionalidade é romena. Lá em casa, vemos o telejornal romeno, na Roménia também vai haver eleições em 2024.” Diana, 21 anos, estudante universitária
22% | Percentagem de população estrangeira a residir em Almancil. A maioria dos estrangeiros são romenos (24%) e britânicos (20%). Fonte: Censos 2021
30 | Na Escola Básica Dr. António de Sousa Agostinho há alunos de 30 nacionalidades diferentes. Fonte: Junta de Freguesia de Almancil
“A ideologia comunista é muito poética não fossem os pecados do ser humano. Não sou nada a favor de dar tudo igual a todos: uma pessoa que fica a dormir até tarde não merece o mesmo que aquela que se levanta cedo para ir trabalhar.” Ana, 51 anos, arquitecta
“Trabalhamos para sobreviver. Só conheço os partidos principais: o PSD, o PS e, agora, o Chega. Não sei o nome de nenhum político, só do André Ventura, de quem toda a gente fala. Ele diz o que as pessoas querem ouvir, mas é só fogo de vista.” Ricardo, 27 anos, comerciante
45% | Percentagem de residentes que votaram nas eleições legislativas de 2024. A abstenção baixou mais de 10% face às legislativas de 2022. O Chega foi o partido mais votado (30%). Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
QUARTEIRA
De modesta aldeia piscatória até aos anos 1970, Quarteira passou a sede de um dos maiores empreendimentos turísticos privados da Europa: Vilamoura. É uma freguesia faccionada e isso vê-se: nos prédios com muitos andares e fachadas por pintar que contrastam com reluzentes moradias geminadas; nos diferentes idiomas — do inglês ao bengali, as misturas podem ser muitas — que ecoam pelas ruas; na diversidade de negócios locais, com mercados em que os preços ainda se regateiam e lojas onde um perfume pode custar centenas de euros; e nos diferentes sentimentos de pertença de quem a habita.
“Não sou de Quarteira, sou de Vilamoura”, apressa-se a sublinhar quem vive contíguo aos campos de golfe, aos hotéis e residências de luxo, à marina e ao casino. Apartados desta realidade, no centro da freguesia, há o porto de pesca onde se vêem — ainda que cada vez menos — rostos queimados pela faina, o mercado de peixe que lá vai sobrevivendo apesar dos poucos fregueses, a rodoviária num constante vaivém de pessoas e pequenas mercadorias e uma classe de imigrantes a quem depois de pagas as contas pouco sobra para comer. Quem faz de Quarteira efectivamente casa, anseia por habitação própria e acessível. Quem vem de fora, de passagem ou para ficar, enleva-se pelo mar e pelo sol.
Quase metade dos estrangeiros que vivem no concelho de Loulé concentram-se nesta freguesia algarvia. A par com os que aqui nascem e os migrantes vindos do Alentejo, Centro e Norte do país, compõem a mancha humana que faz mover um território onde a economia sazonal do turismo dita a cadência da vida: “Amealha-se no Verão para gastar no Inverno.”
24 420 | Número de habitantes de Quarteira, a freguesia mais populosa do concelho de Loulé. Fonte: Censos 2021
22% | Um quinto dos residentes veio de outras regiões de Portugal. Os 5412 migrantes são maioritariamente do Alentejo (1486) e da Área Metropolitana de Lisboa (1465). Fonte: Censos 2021
“Saí de Mombeja, no Alentejo, em 2004, vim atrás da minha filha. Comecei por trabalhar na restauração, como ajudante de cozinha, mas depois mudei-me para as limpezas. Nos meses de Inverno limpo escadas, nos meses de Verão limpo as casas de férias. Ganho o ordenado mínimo. X Quando vivia no Alentejo, ia votar, mas desde que me mudei para o Algarve nunca mais votei. Não sei porquê.” Mariana, 63 anos, empregada de limpeza
19 015 | Número de casas em Quarteira que são segunda habitação, correspondem a mais de metade das casas disponíveis na freguesia (59%). Fonte: Censos 2021
“Meu esposo sempre diz que estamos trocando seis por meia dúzia. Aqui a educação tem mais qualidade, há menos violência, mas o salário… é à conta. Viemos achando que conseguiríamos juntar dinheiro, mas infelizmente não dá. Sobrevivemos com o básico. Moramos em um T1 e pagamos 700 euros de renda. Ganhamos para a casa, para fazer a feira e sair — porque também somos filhos de Deus. A gente almoça fora uma vez por mês.” Benedita, 54 anos, empregada de limpeza
21% | A proporção de residentes estrangeiros é quatro vezes maior do que em todo o país (5%). O Brasil é o país de origem da maior comunidade imigrante (32%), em linha com o que acontece no resto do país (37% dos imigrantes são brasileiros). Fonte: Censos 2021
“Sou trabalhadora temporária, trabalho em vários hotéis — no Tivoli, no Grande Real de Santa Eulália, no Hilton — e vou mudando conforme a necessidade. Normalmente são contratos de sete meses — desde Abril até acabar a época do golfe, no início de Novembro. O resto do ano é passado em casa, no fundo de desemprego, ou vivo do que juntei no trabalho sazonal.” Maria João, 54 anos, cozinheira
43% | O concelho de Loulé é o sexto do país com maior desigualdade na distribuição do rendimento (41,4% em Portugal). E o segundo do Algarve com maior poder de compra per capita, 15,4% acima da média nacional. Fonte: Estatísticas do Rendimento e Estudo sobre o Poder de Compra Concelhio 2021 (INE)
“Houve uma altura em que deixei de acreditar no voto, estava zangada com o mundo. Agora também não acredito, as minhas filhas é que me lembram: ‘Mãe, o voto é um dever, é um direito.’ Há já uns anos que vamos as três votar. Mas estou descontente. Sinceramente, quem não está? O que é que os políticos fazem por nós? A questão é: votar em quem?” Maria, 55 anos, assistente operacional
“Votei pela primeira vez nas legislativas de 2022, porque a vida está difícil para os jovens. Queremos evoluir, construir uma vida, e não estamos a conseguir. Neste momento vivo em casa da minha sogra, não conseguimos ter uma casa sequer.” André, 25 anos, vendedor ambulante
66% | Percentagem de eleitores que não votaram nas eleições autárquicas em 2021. Foi a sexta taxa de abstenção mais alta do país. Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
“Sou sul-africana, filha de pais angolanos. Vim para o Algarve com 12 anos. Não sou de Quarteira, sou de Vilamoura, onde tenho casa própria. Já não passei tantas dificuldades como os meus pais, mas ainda há quem passe. São muitas promessas, mas pouca concretização. As pessoas estão indecisas sobre em quem votar, queixam-se do aumento do preço da comida. Eu cheguei a votar, mas agora já não voto.” Estela, 48 anos, vendedora de loja
“Tudo aumenta, tiram-nos tudo. Trabalhei 30 anos como empregada de limpeza num hotel. Há seis anos e meio fui para as piscinas municipais de Quarteira e ainda não me passaram a efectiva. O meu marido teve um problema nos rins e teve de ser operado, toda a vida trabalhou e agora recebe um subsídio de 300 euros.” Fátima, 56 anos, funcionária pública
22% | O sector do alojamento e restauração é a actividade económica que mais pessoas emprega em Quarteira, 2183 trabalhadores. Fonte: Censos 2021
“Sou romena, estou aqui há 13 anos, mas nunca fui votar. O meu marido é português e também não vota. Os políticos são todos iguais — no final o que fazem? Nada! Devia haver um corte no Parlamento: para quê tantos deputados?” Angela, 40 anos, empregada de limpeza
“Tenho duas filhas que regressaram à base; cada uma tem uma filha, vivem todas comigo. Tinham casa própria, mas hoje não conseguem pagar a prestação. Pedem-me dinheiro para o combustível, para umas sapatilhas, para ir ao médico. Setenta euros por uma consulta é muito para mim, mas para elas é ainda mais. Quando era miúdo, passei muito. Entristece-me ver que as minhas filhas e netas podem vir a passar pelas mesmas dificuldades.” Carlos, 60 anos, peixeiro
“Nasci em Angola, vim para Portugal em 1975, depois fui viver para o Rio de Janeiro e regressei em 2000. Votei pela primeira vez há dois anos, no Chega. Não sei se o André Ventura é um bom político, mas é um grande benfiquista.” Carlos, 67 anos, reformado
RABO DE PEIXE
Quando um imaginário citadino olha de esguelha para Rabo de Peixe só encontra estranheza: na forma de vestir, de falar, de estar na rua, até de olhar. “Estão sempre a dizer que somos pobres, vê alguma pobreza aqui?” A pobreza depende muito das lentes de quem a observa. E, sim, num primeiro encontro, víamos pobreza. Mas haverá melhor antídoto para um olhar contaminado do que a proximidade, o toque, a conversa?
Não foram precisos muitos dias para que crianças ao deus-dará se tornassem miúdos que brincam livres, sem medo de rasgar a roupa, atentos “àquele peixe muito bonito que salta alto lá ao longe”. Para que homens ociosos encostados à parede se passassem a chamar Inácio, António, Leonardo, Aurélio… Pescadores de cara e mãos vincadas, símbolos do trabalho árduo de quem, dependendo das marés, pode ir para o mar às cinco da manhã e só regressar na madrugada seguinte. Para que mulheres de olhar desconfiado sorrissem enquanto detalhavam o orgulho nas tradições e o porquê de Rabo de Peixe ser “o melhor sítio onde uma pessoa pode viver”.
A repulsa visceral do rótulo de “pobrezinhos” não nega a vida difícil, nem a existência de famílias que precisam de ajuda — vivem numa ilha, há poucas oportunidades de emprego e os salários são baixos. Mas quando a estatística os atira para a cauda do país, quem vive em Rabo de Peixe não gosta. E aponta o dedo a dois alvos: aos políticos do continente que nunca vieram cá ouvi-los mais de cinco minutos e aos jornalistas que os retratam como se fossem “animais selvagens”.
75% | Freguesia com maior abstenção nas legislativas de 2024. Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
8799 | Número de habitantes de Rabo de Peixe, a freguesia mais populosa da Região Autónoma dos Açores. Fonte: Censos 2021
“Estão sempre a dizer que somos pobres, vê alguma pobreza aqui? Trabalha-se muito, mas a vida está melhor: gosto de ver os pescadores da minha terra bem vestidos, com bons ténis… Para os jovens é tudo mais difícil, os meus filhos só têm uma casa porque lhes dei um terreno. Vivi o 25 de Abril, sei o que é a ditadura e, por isso, voto sempre. Acho que os políticos não são todos iguais, mas não gosto de lá ver sempre as mesmas caras. Devia ser proibido ser-se deputado toda a vida, ser político não é profissão.” Preferiu o anonimato, 69 anos
25% | Um quarto dos habitantes tem menos de 20 anos, uma população mais jovem do que a média nacional (18%). Fonte: Censos 2021
“Nunca votei, não gosto. Os políticos mudam, vêm novos e continua tudo igual, não fazem nada. Se chegasse alguma pessoa melhorzinha, que apoiasse os pescadores e os lavradores, eu até pensava em ir votar.” Inácio, 20 anos, pescador e armador
“Não fui votar, porque acho que não muda nada. PS ou PSD estão há anos no poder e a vida das pessoas não melhora. O RSI é um problema aqui em Rabo de Peixe; acha bem quem não trabalha ter mais regalias do que quem se esforça? Chateia-me ver as pessoas por aí que não fazem nada. Não sou revoltada, mas trabalho para ter o meu.” Gabi, 40 anos, cabeleireira
44% | A percentagem de habitantes que completaram a escolaridade obrigatória está em linha com a mediana das freguesias nacionais (47%), mas longe da freguesia com maior proporção de residentes com o 12.º ano, as Avenidas Novas, em Lisboa (87%). Fonte: Censos 2021
“Quando me casei, morei quatro anos com a minha sogra. Depois comprámos a nossa casa, mas o dinheiro não chegava para pagar a renda e tive de ir trabalhar. Ainda me candidatei ao RSI, mas não me deram nada. Tenho o que tenho porque trabalho; estou há 21 anos na salsicharia Carreiro Sousa. Os políticos não fazem nada. Ir votar não me acrescenta nada na vida, por isso não vou.” Idalta, 47 anos, trabalhadora fabril
8% | Nona freguesia de Portugal com maior percentagem de habitantes a receber o Rendimento Social de Inserção (RSI) — 489 pessoas de um total de 6280 residentes maiores de 18 anos. Monforte da Beira, em Castelo Branco, é a freguesia com a maior proporção de pessoas (20%) beneficiárias de RSI. Fonte: Censos 2021
“Tenho uma embarcação própria e vou para o mar sozinho. O que um pescador ganha dá para viver à rasca — o peixe é que manda na gente, não é a gente que manda no peixe. Os políticos prometem, mas, depois de eleitos, dizem que não têm dinheiro. Não voto mais naquela gente! Os pobres é que pagam impostos, é o povo quem sustenta o país.” Pedro, 47 anos, pescador
17% | Quinhentas e cinquenta pessoas trabalham no sector da agricultura e das pescas. Um número seis vezes superior à média nacional. Fonte: Censos 2021
“Quando não havia mais nada para alimentar os meus oito filhos, aquecia um litro de leite com uma lata de atum. Hoje vive-se muito melhor em Rabo de Peixe. A minha casa foi o Governo que me deu. O presidente da junta incentiva muito ao voto, mas, ultimamente, não tenho ido votar. Aqui, um dos grandes problemas é que os donos dos barcos recebem os subsídios da pesca e não dão nada aos pescadores, que são quem se arrisca no mar.” Cidália, 67 anos, reformada
“Só votei duas vezes na vida, e sempre para a junta de freguesia. Conheço o presidente desde o tempo em que jogava futebol no Clube Desportivo de Rabo de Peixe, não é má pessoa. Nas outras eleições nunca voto, nem conheço quem são os políticos. Esses placares grandes nas ruas servem para quê? É só para tapar a vista… Perder o meu tempo a ir votar? Eu não! Fica sempre tudo igual. Por exemplo, o ordenado subiu, mas os preços também subiram, com que dinheiro limpo é que ficamos?” Mauro, 36 anos, empregado de balcão
“Sem menosprezar a importância do assunto, quando temos alunos com problemas de violência doméstica, de consumo de drogas, não estamos preocupados em dizer-lhes que é importante ir votar. Existem aqui famílias problemáticas, como em outras regiões — não é porque a escola está em Rabo de Peixe, mas por ser uma das maiores da região. Como a vila é numerosa, os problemas do dia-a-dia sentem-se de uma forma muito presente. Mas temos muitos médicos a saírem daqui, muitos engenheiros, advogados, muitos professores também. Os alunos da vila servem-se da escola como elevador social.” Artur, 44 anos, professor
FETEIRAS
Durante a semana, o silêncio das ruas desertas só é interrompido, muito de vez em quando, pelo rebuliço das crianças no recreio da escola, pela passagem do tractor agrícola e pelos passos de alguém a caminho da farmácia ou do centro de saúde. Os cafés estão vazios, e são poucos os carros que se vêem a circular. A maioria das pessoas que faz de Feteiras casa, trabalha em Ponta Delgada, a capital da ilha de São Miguel, e só regressa ao fim da tarde.
Mas, quando os sábados amanhecem e o fim-de-semana começa, a freguesia parece outra: abrem-se os portões e as janelas das casas, aspiram-se e lavam-se os carros, os miúdos andam de bicicleta na rua e o burburinho das conversas passa a ser a banda sonora que se impõe.
A pobreza de que muitos falam, mas que não se vê, esconde-se na vergonha de quem não tem meios para pôr comida na mesa e, ainda assim, se recusa a pedir ajuda. A falta de trabalho é um problema latente e quando se trata de encontrar culpados, são muitos os que apontam o dedo às “ajudas externas” do continente e da Europa: “Aqui, nos Açores, há subsídios para tudo e isso só nos prejudica. Quando é preciso alguém para trabalhar, não se encontra. Dantes, produzíamos de tudo, agora, estamos dependentes. Compensa mais estar parado, sem fazer nada”, critica Sérgio, 56 anos, um “homem anti-sistema”, nas palavras do próprio.
Num território insular, onde a maioria da população está em idade activa, a direcção do futuro aponta para o lado oeste do Atlântico, sobretudo para os Estados Unidos e o Canadá, onde vivem muitos dos emigrantes de Feteiras. Para trás, deixaram casas há anos fechadas, que os residentes garantem ser a chave para “resolver o grande problema da falta de habitação” — se em vez de serem transformadas em alojamentos locais, fossem alugadas a preços que se pudessem pagar.
92% | Feteiras foi a terceira freguesia com maior abstenção nas eleições europeias de 2019. Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
“O meu único partido é a Frente de Libertação dos Açores, já não temos condições para ser independentes, mas dantes tínhamos… Vivi muitos anos no Canadá, quando voltei, fui às finanças e pedi para riscarem de lá o meu nome. Desisti de ser português, está tudo em nome da minha mulher. Só tenho cartão de cidadão porque sou obrigado. Só não votei no André Ventura porque não voto, mas ele pelo menos é um homem corajoso. Se fizesse 50% do que diz... Para que é que a nossa Assembleia precisa de tanta gente ali se depois o povo está sempre na mesma?” Sérgio, 56 anos
905€ | Rendimento médio mensal de quem vive na freguesia, após os descontos, um valor abaixo da média nacional (1002 euros). Fonte: Censos 2021
“Até casar, só ia votar porque o meu pai era fanático pelo PS e me obrigava. Depois disso, só votei uma vez para a junta de freguesia. O candidato era meu vizinho, mas nem foi por isso… Olho à volta e não temos campo de futebol, a piscina está destruída, os mais pobres têm casas a cair. Não quero saber da política para nada. Nem sequer vejo notícias, magoam muito! Prefiro pôr a passar um filme.” Filomena, 60 anos, comerciante
4% | A percentagem de habitantes que recebem o Rendimento Social de Inserção (RSI) está distante da freguesia com mais beneficiários per capita — Monforte da Beira, em Castelo Branco (20%). Fonte: Censos 2021
“As pessoas estão fartas, querem uma mudança. O que o Ventura diz é o que a maioria das pessoas pensa sobre o rendimento mínimo… Vemos pessoas novas que não trabalham, mas têm uma boa vida, um bom telemóvel, uma boa casa. Tenho 62 anos, acho que já devia ter ido para a reforma. Sou um exemplo de trabalho, isso sou: comecei com 16 anos, trabalhei 12 anos numa fábrica de papel, estive seis anos no laboratório da fábrica da cerveja em Ponta Delgada, trabalhei 12 anos na freguesia de Mosteiros, sempre com contrato. E, há 24 anos, voltei para a minha freguesia, já estou nos quadros do Centro de Saúde de Feteiras.” Helena, 62 anos, empregada de limpeza
66% | Mais de metade dos habitantes trabalham noutra freguesia do município (452). Fonte: Censos 2021
“Pelos alunos e pais com quem lidamos, vemos que há muitas famílias dependentes do RSI [Rendimento Social de Inserção]. Os jovens não estão formatados psicologicamente para trabalhar... Tive uma aluna de 4.º ano que me disse: ‘A minha mãe não trabalha e eu também não quero.’ Voto porque é o meu dever, mas não tenho expectativa de que haja uma mudança. Perdemos a fé perante o aumento da corrupção. É preciso mais fiscalização, mais supervisão às famílias, uma mudança nos maus hábitos do povo português.” Maria José, 62 anos, professora
23% | Os Açores são a região com a mais alta taxa de abandono escolar precoce da União Europeia. Representa um em cada quatro jovens, entre os 18 e os 24 anos, o triplo da média nacional (7%). Fonte: Inquérito ao emprego do Instituto Nacional de Estatística e Eurostat (2021)
“O Chega só ganha onde há gente que trabalha. O André Ventura, pelo menos, é directo, há que dar-lhe o benefício da dúvida. Em 50 anos de democracia, andámos a saltar entre o PS e o PSD e o que é que mudou? Eu sou do PSD, mas é sempre a mesma coisa, as pessoas ficam desiludidas…” Pedro, 30 anos, agricultor
68% | Mais de metade da população não votou nas eleições legislativas de 2024. Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
987 | Número de eleitores que não votaram nas legislativas de 2024. A abstenção desceu 10% e o Chega foi, pela primeira vez, o partido mais votado (30,6%). Fonte: Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna
“Sou de Torres Novas, distrito de Santarém. Mudei-me para os Açores há 28 anos. Já estou habituada a viver aqui, mas não gosto. O terreno foi-nos cedido pelo meu sogro que é natural da freguesia… Ainda procurámos casa em Ponta Delgada, mas o meu marido não queria viver num apartamento, por isso construímos aqui. A minha filha está em Lisboa há dez anos, viveu sempre num quarto. Só agora vai comprar um apartamento, mas com a ajuda dos pais e dos sogros, porque não tem dinheiro para a entrada.” Maria José, 62 anos, professora
82% | A maioria dos residentes tem casa própria. Fonte: Censos 2021
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