O contragolpe
Parte 1: O plano
Já passava das 14h do dia 11 de fevereiro do ano passado quando um Citroën C4, com películas nos vidros que impediam a visão de dentro do carro, parou na entrada do Up Barra Mais, um condomínio de classe média no Anil, Zona Oeste do Rio. Sem abrir a janela, o motorista acionou o mecanismo eletrônico que abre o portão, entrou e estacionou nos fundos da garagem. Ninguém saiu do carro. Após 1h30 de espera, enquanto o cabo da PM Anderson Gonçalves de Oliveira, o Andinho, entrava no condomínio e se dirigia ao bloco onde morava, três homens armados com fuzis desembarcaram. O trio — dois homens escondiam o rosto, um deles usava um colete com a inscrição “Polícia Civil” — conseguiu alcançar Andinho no acesso ao elevador. O policial foi executado com 29 tiros, que dilaceraram seu crânio.
A investigação do homicídio concluiu que Andinho era um dos chefes da milícia que dominava a Gardênia Azul há três décadas. Já seus executores, que fugiram em disparada para o Complexo da Penha, na Zona Norte, eram integrantes da maior facção no Rio, o Comando Vermelho (CV). Nos meses que se seguiram, os traficantes conseguiram invadir o bairro. E, segundo as forças de segurança do Rio, o crime foi apenas parte de um plano da cúpula do CV para retomar territórios no estado, após uma década de avanço da milícia.
Ao longo do último mês, o GLOBO analisou relatórios de inteligência, depoimentos de traficantes e inquéritos de homicídios, além de ter entrevistado policiais, promotores, especialistas, parentes de vítimas e moradores de áreas conflagradas, para contar o que está por trás dessa expansão do CV. A facção, que havia assistido ao crescimento da milícia no Rio e ao do PCC em âmbito nacional, decidiu recuperar o espaço perdido, promovendo uma guerra sangrenta nos redutos dos paramilitares e espalhando seus tentáculos por 21 estados do país a partir de uma série de acordos fechados dentro de presídios.
Dados do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da UFF e da Polícia Civil do Rio compilados pelo GLOBO revelam que, nos últimos dois anos, a facção financiou bandos armados e articulou dezenas de ataques coordenados que, só na Baixada de Jacarepaguá, na capital fluminense, culminaram na tomada de 19 comunidades em 14 bairros diferentes que antes eram dominadas por paramilitares. O interesse do CV na região não se restringe à implantação de bocas de fumo: os traficantes já passaram a replicar ali o modelo da milícia, com exploração da venda de gás e pacotes de internet e até do mercado imobiliário, refletindo também uma diversificação dos negócios escusos da facção.
Atualmente, ainda há quatro favelas na Grande Jacarepaguá que são alvos constantes de ataques do grupo — como Rio das Pedras, o berço da milícia carioca — e outros focos de disputas na Zona Norte, na Baixada Fluminense e em São Gonçalo, na Região Metropolitana. Um levantamento da inteligência da PM aponta que o CV domina 1.085 localidades em todo o estado — o número é maior do que a soma dos territórios dominados pela milícia e outras facções do tráfico.
O maior movimento de expansão do CV no Rio desde a criação dos grupos paramilitares, no fim dos anos 1990, é impulsionado pelo avanço da facção pelo país. O início desse processo remonta a junho de 2016, quando o traficante Jorge Rafaat Toumani, o Rei da Fronteira, foi executado numa emboscada cinematográfica na cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero, vizinha de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul. A atuação de Rafaat como intermediário das transações na fronteira com o Paraguai — principal porta de entrada de drogas produzidas em outros países do continente — desagradava tanto ao CV quanto ao PCC, que se uniram para matá-lo.
Após o crime, no entanto, as duas facções romperam um pacto de não agressão que já durava 30 anos e entraram numa guerra por rotas: a facção paulista se impôs e passou a controlar a chamada Rota Caipira, que sai do Paraguai e chega ao Porto de Santos, onde a droga é remetida à Europa. Já o CV — que, na época, não tinha uma atuação expressiva em outros estados — se viu obrigado a buscar aliados pelo país em busca de novos fornecedores e corredores de escoamento de drogas e armas.
Em penitenciárias federais, integrantes da cúpula do CV fecharam parcerias com criminosos da Região Norte para assumir a Rota do Solimões — a droga da Colômbia e do Peru entra no país pela Amazônia e é escoada pelo rio até Manaus, de onde segue para outros estados ou para fora do Brasil. Pouco a pouco, a quadrilha foi absorvendo os grupos locais com os quais havia se associado. Dessa maneira, em pouco mais de cinco anos, a facção se espalhou pelo Norte e pelo Nordeste e ganhou protagonismo maior no tráfico internacional de cocaína.
— O modelo de negócios do Comando Vermelho é mais horizontal. De forma simplificada, é como se fosse uma aliança entre donos de morro. Já o PCC tem uma estrutura mais empresarial, vertical e hierárquica. Esse traço do CV, mais personalista, favoreceu a expansão a nível nacional. O PCC ainda é o ator mais forte no tráfico internacional de cocaína do país, mas essa capacidade do CV de cooptação de novos aliados vem tornando a facção mais competitiva nesse mercado — explica Daniel Hirata, pesquisador e professor de Sociologia da UFF.
Uma das consequências da nacionalização da facção é o aumento de seu faturamento em decorrência das remessas de cocaína para o exterior a partir de portos do Norte, do Nordeste e do Rio. Operações deflagradas pela Polícia Federal entre 2022 e 2023 revelam como a cúpula do CV estendeu seus tentáculos para o mercado internacional. Inicialmente, segundo a PF, a facção se associava a “matutos” que traziam cocaína da Colômbia e da Bolívia e participava somente da armazenagem da droga, que ficava na favela da Vila Cruzeiro até ser colocada em navios de carga no Porto do Rio. Os donos da carga pagavam somente pelo serviço logístico.
Em meio à investigação, o Comando se impôs e passou a cobrar dos sócios 10% sobre o lucro da venda das drogas na Europa. Nesse novo modelo de negócio, uma carga de uma tonelada de cocaína podia render até US$ 3 milhões (cerca de R$ 15 milhões) para a facção. Já em 2023, Edgar Alves de Andrade (o Doca, chefe do tráfico local e financiador da guerra expansionista da facção) e seus comparsas decidiram deixar de ser apenas intermediários. Passaram a mandar cargas próprias à Europa, sem dividir os lucros da operação. Segundo o delegado federal Bruno Humelino, responsável pela investigação, o CV chegou até a contratar mergulhadores para ocultar a droga nos cascos de navios no porto.
A nova rede de alianças do CV também possibilitou a chegada de soldados de todo o país para atuar em invasões de territórios no Rio. Dados de polícias de 18 estados diferentes enviados ao governo fluminense no ano passado revelam que pelo menos 113 integrantes da facção, vindos de fora do Rio, estão abrigados em favelas fluminenses. Desde 2021, outros 99 “forasteiros” foram presos ou mortos em operações no Rio. Segundo a Polícia Civil, parte deles já atua na expansão do CV pelo estado em busca do reconhecimento da cúpula da facção.
O investimento da facção na tomada de territórios no Rio é evidenciado em depoimentos de traficantes que expõem os gastos com a guerra. Para aliciar novos soldados dispostos a proteger as áreas invadidas, o CV pode oferecer uma remuneração de R$ 500 semanais. Já um motorista que aceitou transportar drogas do Complexo da Penha para as novas bocas de fumo afirmou que, além do salário, ganhou da facção um apartamento mobiliado e carros para trabalhar.
Para policiais que investigam a facção, um marco importante do início do projeto de expansão é a saída de Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha, pela porta da frente do Complexo Penitenciário de Gericinó, em junho de 2021. Sua soltura foi um erro: na ocasião, ele tinha um mandado de prisão pendente em seu nome. Logo, Abelha foi alçado pelo “conselho” — grupo de presos que cumprem pena no Rio com postos no topo da hierarquia da organização — ao cargo mais alto entre os integrantes do CV em liberdade, o de “presidente” da facção. Mesmo sem ser chefe de nenhuma favela de proeminência, Abelha virou o responsável por definir os rumos da facção e controlar seu caixa.
— Ele passou mais de duas décadas preso e conviveu com outras lideranças em presídios federais. Por isso, foi alçado à cúpula e virou a referência da facção. Todo o planejamento da expansão que aconteceria meses depois partiu dele — conta o secretário de Polícia Civil do Rio, Marcus Amim.
No ano posterior à soltura de Abelha, as guerras para anexação de territórios começaram, a partir da formação de bondes armados focados em atacar, cada um, uma região na mira da facção. O bando chefiado pelo traficante Bruno Silva Souza, o Tiriça, responsável por tomar a Praça Seca, na Zona Oeste carioca, foi o primeiro a completar a missão: todas as favelas da região foram apropriadas pelo CV no início de 2023, após um ano de confrontos com os paramilitares.
Em seguida, o foco passou para as favelas do Itanhangá e a Gardênia Azul, alvo das investidas da Equipe Sombra — pistoleiros chefiados por Juan Breno Malta Ramos Rodrigues, o BMW, responsáveis, entre outras dezenas de crimes, pelo homicídio de Andinho. Até o início de 2024, todas as localidades foram invadidas em sequência, e os esforços se voltaram para os bairros do Recreio dos Bandeirantes, das Vargens Grande e Pequena e de Guaratiba — apesar de o CV já ter tomado a maioria das favelas, até hoje há confrontos na região. Já Abelha está foragido, mas foi destituído do cargo de “presidente” ano passado por ter decidido executar comparsas sem autorização da cúpula.
A região da Grande Jacarepaguá era objeto antigo de desejo do CV: há mais de uma década, a facção planeja criar um “cinturão” no entorno da Floresta da Tijuca — o que favoreceria eventuais fugas em caso de operações e tentativas de invasão por rivais. Hoje, a única favela que falta para que o plano se concretize é Rio das Pedras, o alvo da vez da facção.
Se a guerra na Zona Oeste tem a milícia como antagonista, outras regiões que fazem parte do plano expansionista do CV são dominadas pelos traficantes do Terceiro Comando Puro (TCP): o Complexo de Israel (integrado por Parada de Lucas, Vigário Geral, Cidade Alta, Pica-Pau e Cinco Bocas); o Morro dos Macacos, em Vila Isabel; e o Complexo da Pedreira, em Costa Barros. Com o domínio da Grande Jacarepaguá, essas comunidades já registram uma escalada nos confrontos.
Parte 2: Os mortos
Amélia Maria de Araújo Tavares, de 71 anos, se mudou para a Gardênia Azul ainda adolescente, com 15 anos. O loteamento que daria origem ao bairro na Zona Oeste do Rio havia acabado de ser inaugurado pelo então governador Negrão de Lima, no fim da década de 1960. Não havia facções do tráfico, muito menos milícias. Aquela seria sua morada de uma vida inteira: foi na Gardênia que conheceu o marido, casou, teve duas filhas e abriu o próprio negócio, uma papelaria, após se formar técnica em contabilidade. Mas, no último 6 de abril, a guerra do crime chegou a sua porta. Amélia estava sentada na calçada para esperar o marido voltar com o pão para o café da tarde, como fazia há décadas. Seu cotidiano foi interrompido por homens numa moto, que entraram na rua atirando. Dois disparos atingiram a idosa, um no tornozelo e outro no peito. Parentes ainda tentaram socorrê-la. Foi em vão: ela já chegou morta ao hospital.
Seu assassinato passou a integrar uma longa lista de homicídios cometidos na guerra travada pelo Comando Vermelho (CV) para expandir o domínio de territórios no Rio. Um levantamento feito com base em registros de ocorrência, relatórios policiais e notas oficiais das polícias Civil e Militar revela que, entre janeiro de 2023 e a última sexta-feira, ao menos 238 pessoas foram assassinadas nas regiões que foram alvo da facção. Ou seja, dia sim, dia não, uma pessoa foi morta em meio aos confrontos.
Do total, 141 pessoas — ou 60% — foram assassinadas por criminosos em tentativas de invasões, em tiroteios ou em execuções. Outros 97 morreram quando o Estado tentou intervir na guerra entre bandos rivais, em operações policiais nas áreas conflagradas ou em razão dos confrontos. Assim como Amélia, outras 25 vítimas, 11% do total, não eram traficantes ou milicianos, nem tinham participação na guerra. São pessoas atingidas por balas perdidas, inocentes mortos por engano ao serem confundidos com criminosos ou até moradores de regiões sob disputa que se recusaram a aceitar regras impostas pelos invasores.
— Amélia já estava caída no portão, quando o marido dela voltou da padaria. Só deu tempo de olhar para ele uma última vez. Eles completariam 48 anos de casados. Ela queria se mudar. Mas, infelizmente, não conseguiu fazer isso antes da tragédia — conta uma familiar da idosa, que pediu para não ser identificada.
A dona de casa Martha Braz de Azevedo, de 66 anos, também teve seu dia a dia atravessado pela barbárie. Via televisão na sala de casa, na Praça Seca, na Zona Oeste, ao ser atingida por um tiro de fuzil no pescoço, e morreu, em setembro do ano passado. A região foi tomada pelo CV no início de 2023, após uma década de disputa com os paramilitares. No entanto, desde então, houve várias tentativas de retomada por parte da milícia e investidas de traficantes do Terceiro Comando Puro (TCP) que dominam o Morro do Fubá, no bairro vizinho de Campinho. Não se sabe de onde partiu o disparo.
Já a pastora evangélica Marta de Jesus Gomes, de 44 anos, chegava em casa do supermercado com a filha, quando um tiro acertou sua cabeça. Dois bandos rivais começavam um tiroteio na Gardênia Azul. Justamente devido à onda de violência, Marta estava de mudança: ela deixaria a comunidade no dia seguinte.
O bairro está no topo do ranking de assassinatos decorrentes da guerra: do total de mortes contabilizadas no levantamento, 35 aconteceram lá — 31 em tiroteios entre bandos rivais e quatro em ações da polícia. O vizinho Anil vem em seguida, com 33 homicídios. Mais da metade aconteceu em uma só rua, a Araticum, que ganhou o apelido de Rua da Morte.
Os homicídios são acompanhados ainda de um aumento na circulação de fuzis no “cinturão” de favelas invadidas pelo CV. No ano passado, 75 armas do tipo foram apreendidas pela polícia na região que vai da Praça Seca até Guaratiba. O número é um recorde absoluto: desde 2007, início da série histórica do Instituto de Segurança Pública (ISP), a maior quantidade de apreensões de fuzis na região havia sido 34, em 2018. A tendência é que a marca seja batida novamente este ano: só de janeiro a abril, 47 fuzis foram retirados de circulação na área.
À medida que o CV invade favelas e espalha mortes, a facção promove ainda uma verdadeira “caça às bruxas”, eliminando informantes da milícia e até parentes de paramilitares. Até quem se recusava a mostrar o celular quando era abordado na rua estava em risco. O gerente de churrascaria Elson Ferreira de Almeida, de 41, foi executado a tiros após ser capturado e espancado por traficantes quando voltava para casa, na Gardênia, em outubro de 2023. Após o crime, numa conversa com a filha da vítima por um aplicativo de mensagens, um dos assassinos confessou que Almeida havia sido morto após se recusar a mostrar o celular ao ser abordado. “Não queria que fosse assim. Era só ele ter colocado a senha”, justificou-se o criminoso. A facção suspeitava que ele ainda tinha contato com milicianos, mesmo após a invasão do tráfico. Em março de 2024, cinco traficantes foram denunciados à Justiça pelo homicídio.
Na guerra, três assassinatos por engano também chocaram o país. Em outubro do ano passado, a imagem de um grupo de médicos sendo alvo de um ataque na orla da Barra da Tijuca rodou o mundo. Os criminosos desembarcaram de um Fiat Pulse branco, dispararam pelo menos 33 vezes e mataram os ortopedistas Perseu Ribeiro de Almeida, de 33, Marcos de Andrade Corsato, de 62, e Diego Ralf de Souza Bomfim, de 35, que estavam no Rio para um congresso. A investigação do crime concluiu que os atiradores confundiram Perseu com o miliciano Taillon de Alcântara Pereira Barbosa, chefe do grupo paramilitar que domina Rio das Pedras e um dos maiores rivais do CV na disputa de territórios na Zona Oeste. Uma ligação interceptada pela polícia revelou como um informante, que achou ter avistado o miliciano, deu aos atiradores a localização dos médicos: “Acho que é o Posto 2”, disse o homem.
No dia seguinte, os corpos dos quatro dos assassinos foram encontrados dentro das malas de dois carros abandonados em Jacarepaguá. Eram os integrantes da Equipe Sombra, quadrilha de pistoleiros a serviço do CV mencionada em dezenas de inquéritos de assassinatos envolvendo desafetos dos traficantes. As mortes dos médicos desagradaram a cúpula da facção, que julgou e condenou os atiradores num “tribunal do tráfico”.
Antes do ataque na Barra, porém, a Equipe Sombra já era acusada de uma série de execuções, como a do pedreiro Erinaldo Gomes da Silva, morto com vários tiros na cabeça em frente ao portão de casa, na Gardênia Azul, em fevereiro de 2023. Segundo a polícia, os traficantes suspeitaram que ele fosse informante de milicianos. No mês seguinte, o veterinário Ademilson dos Santos foi emboscado pelos integrantes do grupo após ter reclamado da invasão do terreno de sua casa pelo tráfico para instalação de uma boca de fumo.
O avanço do CV pelo Rio, no entanto, não é construído somente à base de ataques e assassinatos. Os bastidores da guerra têm traições, cooptação de rivais e até suspeitas de uma “venda” de favela. Na Gardênia Azul, uma mudança de lado abriu as portas da comunidade, que era dominada pela milícia há três décadas, para os traficantes.
No final de 2022, o grupo paramilitar local sofreu um racha: os milicianos Leandro Siqueira de Assis, o Gargalhone, e Philip Motta Pereira, o Lesk, foram expulsos da Gardênia após tentarem dar um golpe em seus antigos comparsas para assumir o controle da favela. Os dois, então, fecharam um acordo com a cúpula do CV, viraram integrantes da facção e passaram a integrar os bandos que promoviam ataques à milícia. Lesk era um dos membros da Equipe Sombra executado após o ataque aos médicos. Gargalhone também foi executado em meio à guerra. No início de 2024, o tráfico conseguiu se instalar na Gardênia.
Outro ex-miliciano cooptado pelo CV foi Marcelo de Luna Silva, o Boquinha, que chefiava o grupo paramilitar que dominava favelas no Recreio, em Guaratiba e nas Vargens. Temendo perder o controle de seu território para um grupo paramilitar rival, ele se aliou ao CV e passou a participar ativamente das incursões dos traficantes na região. Boquinha acabou baleado num confronto com policiais civis e foi preso em outubro de 2023.
Como numa batalha por tronos, Horácio Souza Carvalho, que chefiava a milícia da Praça Seca e do Jordão, também foi executado. Foi baleado dentro de um bar, em Búzios, na Região dos Lagos, em maio de 2023. Os assassinos — um ex-segurança de Horácio e três policiais — foram presos em flagrante logo depois do crime. A polícia suspeita que a morte tenha sido uma retaliação de seus ex-comparsas após Carvalho ter vendido para o CV um a das favelas sob seu comando, o Jordão, por R$ 10 milhões.
É um conjunto coordenado de ações que, segundo relatório de inteligência ao que o GLOBO teve acesso, tem uma movimentação dentro da cadeia como crucial para que o plano de expansão fosse colocado em prática. Luís Cláudio Machado, o Marreta, é apontado pela polícia como o homem de guerra da facção: antes de ser preso, no Paraguai, em 2014, era ele o responsável por chefiar bondes armados que, à época, tentavam expulsar a milícia da Praça Seca. Após a prisão, por ser considerado “de alta periculosidade”, ele foi transferido para penitenciárias federais. Mas, desde outubro passado, ele está de volta ao Rio: uma decisão judicial determinou o retorno do traficante ao Complexo de Gericinó, onde permanece.
Uma vez no Rio, segundo o relatório, Marreta recebeu uma incumbência da cúpula da facção: “dominar por completo a região da Grande Jacarepaguá”. E mesmo após o CV ter tomado a maior parte da região em meados de 2023, o topo da hierarquia da facção estaria “insatisfeita” com a instabilidade do domínio, pois tiroteios com milicianos ainda são constantes.
Parte 3: A rotina
Após seis anos vivendo na Praça Seca, na Zona Oeste do Rio, Gustavo (nome fictício) decidiu que é hora de se mudar. No fim do ano passado, ele já precisou fazer um acordo com o chefe: os seguidos tiroteios durante as investidas do Comando Vermelho (CV) na região, que até então era dominada pela milícia, forçaram o designer a trabalhar de casa, usando sua própria rede de internet. No entanto, desde o início do ano, quando a facção se estabilizou no controle do bairro, o trabalho remoto deixou de ser uma opção. Traficantes constantemente arrancam caixas de transmissão de sua operadora do alto dos postes, e ele já chegou a ficar mais de 20 dias seguidos sem conexão. A alternativa seria contratar o serviço de “gatonet” fornecido pelos próprios criminosos, mas o designer preferiu deixar a Praça Seca.
O caso de Gustavo não é isolado. A vida dos quase um milhão de moradores dos bairros da Zona Oeste do Rio que entraram na rota da guerra expansionista do CV virou de cabeça para baixo. Voltar para casa à noite, receber uma visita, pedir um carro de aplicativo, andar de moto de capacete e até receber uma encomenda pelo correio: todas essas atividades deixaram de ser triviais e passaram a seguir a cartilha do crime. Ao longo das últimas semanas, o GLOBO percorreu Rio das Pedras, Gardênia Azul, Terreirão, Guaratiba e Praça Seca — bairros que tiveram áreas invadidas pelos traficantes nos últimos anos — para colher relatos de moradores e detalhar como a guerra do crime impacta a rotina da população.
Na Gardênia Azul, os moradores da comunidade e do seu entorno foram obrigados a conviver com as imposições da milícia por três décadas. Ao longo de 2023, passaram a conviver com as investidas do tráfico: tiroteios e a circulação ostensiva de fuzis, raros nos tempos da hegemonia dos paramilitares, passaram a ser corriqueiros. Hoje, a população ainda se habitua ao domínio do CV, que se estabeleceu na região no início deste ano.
— Até mesmo nas vias principais do bairro não dá mais para pedir carro por aplicativo de noite. Hoje, estamos vendo acontecer em todo o bairro o que há alguns anos só acontecia lá dentro da comunidade. Na minha esquina, tinha um bar e uma mercearia antigos que ficavam abertos até de madrugada, agora às 18h não tem mais nem criança brincando na rua — relata uma moradora, de 31 anos, todos vividos no bairro.
Dados do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni), da UFF, compilados pelo GLOBO, escancaram como o crime foi se espraiando nos últimos dois anos pela região invadida pelo CV, que vai da Praça Seca até Guaratiba, passando por toda a Grande Jacarepaguá. Ao todo, 89 localidades diferentes, que ocupam 23km² — uma área três vezes maior que Copacabana — e onde vivem mais de 60 mil pessoas, foram “colonizadas” pelo crime em seis anos. São regiões que não apresentaram nenhuma denúncia de atuação de criminosos em 2017, assistiram ao avanço de facções do tráfico ou milícias e, em 2023, já registraram casos de violência, cobranças de paramilitares ou a implantação de bocas de fumo.
É o caso, por exemplo, da Cascatinha, comunidade de Vargem Grande hoje dominada pelo CV. Em 2017, não havia denúncias da presença de grupos criminosos no local. De lá para cá, a milícia chegou a se instalar na favela, em meados de 2020, mas não conseguiu conter o avanço da facção nos anos seguintes. Em outubro do ano passado, no auge da ofensiva dos traficantes, o local foi alvo de uma operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) que terminou com as mortes de seis homens apontados como integrantes da facção.
No Piraquê, em Guaratiba, que ainda é foco de disputa entre traficantes e milicianos, uma moradora reclama que, de um ano para cá, não consegue mais receber encomendas pelo correio nem pedir comida pelo aplicativo. Já um estudante que vive em Rio das Pedras — último reduto da milícia na região, alvo de ataques frequentes do CV — conta que, em meio à disputa, os moradores que continuam pagando as taxas para os paramilitares são cobrados pelos traficantes que tentam invadir a favela.
— Quem fica no meio dessa situação é o morador. Se a gente não paga taxa da milícia, corre risco. Mas se paga também corre porque os traficantes abordam e questionam por que estamos pagando — conta.
Relatos dos moradores e investigações recentes da polícia mostram que o CV replicou o modelo da milícia e já atua na exploração da venda de gás, água mineral, pacotes de internet e até no mercado imobiliário nas regiões que tomou dos rivais. Muitas vezes esse controle extrapola os limites das favelas.
— Jacarepaguá é a região em que a população mais cresceu no Rio, tem uma atividade imobiliária intensa e décadas de imposição de taxas e exploração dos mais diversos serviços pela milícia. O CV não busca somente um território para vender drogas, mas também disputar essa forma de atuação miliciana e aumentar seus lucros — afirma Carolina Grillo, professora de Sociologia da UFF.
Homicídios cometidos em meio à guerra pelo controle da Gardênia Azul expõem a entrada do tráfico nos mercados explorados anteriormente pela milícia. Em 13 de março do ano passado, Miqueias Gomes foi capturado por traficantes e levado até o interior da Cidade de Deus, onde foi executado. Gomes teria sido morto, segundo a polícia, porque vendia gás na favela e teria deixado de repassar para os traficantes todo o valor acordado.
Nove dias depois, Ironaldo Salvador de Alcântara, dono de um depósito de água, foi assassinado dentro da favela. Parentes contaram à polícia que ele havia se recusado a vender água fornecida pelos traficantes. Já no dia 30 do mesmo mês, foi a vez de Victor Paiva Borges, apontado como o responsável pelo esquema de exploração de “gatonet” do tráfico, ser morto a tiros.
— Com a adoção de práticas milicianas, o tráfico de drogas se tornou apenas uma das várias atividades ilícitas exploradas pelo grupo. Atualmente, o controle territorial é fundamental para o crime organizado, permitindo a exploração econômica coercitiva dos moradores, que vai da venda de botijões de gás até o transporte alternativo — explica o promotor Fabio Corrêa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio.
Não é só na Zona Oeste que o plano expansionista do CV tem mudado as rotinas dos moradores. Desde dezembro de 2023, o dono de um bar perto do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na Zona Norte, coloca o aparelho de som no volume mais alto para abafar o barulho dos tiros. Segundo ele, dessa maneira, os frequentes tiroteios na favela não espantam os clientes. A comunidade, dominada pelo Terceiro Comando Puro (TCP), também é objeto de desejo do CV e registra uma escalada de confrontos após a facção ter se estabilizado no domínio da Grande Jacarepaguá.
— É um jeito que arrumei. Às vezes não dá nem para conversar direito, mas ajuda a não assustar a clientela — afirma o comerciante.