Central de manipulação
Numa manhã de junho de 2022 os executivos brasileiros do Kwai, uma rede social de vídeos curtos, chegaram à sede da empresa em São Paulo para a primeira tarefa do dia: discutir os relatórios enviados durante a madrugada pela matriz, situada em Pequim, onze horas à frente do horário brasileiro. Naquele dia, o relatório de seis páginas, escrito em inglês e mandarim, trazia um título quase burocrático: “Riscos com os KwaiCuts e a eleição brasileira de 2022.” Mas o assunto era delicado e vinha sendo tratado em sigilo. Sua leitura mostrava o lado obscuro da rede social no Brasil.
KwaiCuts, ou cortes do Kwai, é o nome interno que designa todo material que a rede social encomenda a agências de conteúdo. Na guerra para aumentar sua audiência, o Kwai compra delas conteúdos capazes de despertar interesse e aumentar o tempo de permanência do usuário na rede. Às vezes, o Kwai diz às agências o que quer. Em 29 de dezembro de 2022, por exemplo, encomendou vídeos sobre Pelé, que acabara de morrer. Na maioria das vezes, porém, o Kwai não especifica nada, simplesmente quer conteúdo viralizante – mesmo que seja falso e mentiroso.
O relatório daquela manhã trazia uma mostra dos conteúdos produzidos pelas agências nas duas semanas anteriores e apontava 26 vídeos “problemáticos”, todos sobre a eleição presidencial que se aproximava. Os vídeos correspondiam a 22% de tudo que fora publicado como KwaiCuts na rede sobre política. O documento não detalhava o conteúdo dos vídeos. Dizia, genericamente, que continham “desinformação política”.
Uma série de medidas enérgicas para barrar posts com mentiras poderia ser tomada, mas o próprio relatório expunha a dúvida: a empresa deveria excluir os vídeos da rede e, assim, evitar penalidades e eventuais multas de autoridades brasileiras? Ou deveria ignorar deliberadamente as falsidades e, assim, aproveitar o potencial dos conteúdos para atrair mais e mais audiência?
Os executivos sabiam o que estava em jogo e tinham clareza sobre a conduta irregular que a rede vinha adotando. Um trecho do relatório, ao qual a piauí teve acesso, deixa isso evidente: “Se descobrirem que as contas KC [KwaiCuts] têm relação com a empresa, isso pode impactar severamente nossa operação no Brasil.” Em outra parte, o documento alertava que “a imprensa brasileira está fazendo mais investigações sobre aplicativos de redes sociais que espalham desinformação”.
O relatório listava cinco possíveis estratégias, que iam desde interromper a produção de “KwaiCuts sobre política até a eleição” até “manter o status quo”, o que incluía – dizia o documento – “tolerar todos os riscos”, lidar “com a cobertura negativa da imprensa” e analisar “os processos caso a caso”. A solução adotada não foi única, nem uniforme. Em alguns casos, os conteúdos foram banidos. Em grande parte deles, porém, a desinformação seguiu correndo solta na rede, sem embaraços.
O documento é um caso raro no mundo subterrâneo das gigantes da tecnologia, as chamadas Big Techs. As grandes redes sociais do planeta – Facebook, Instagram, TikTok, ex-Twitter – têm sido acusadas de divulgar mentiras e mensagens de ódio, que são turbinadas pela mão invisível do algoritmo em busca de audiência. Mas é a primeira vez que se tem prova material de que uma rede social encomendou, ela própria, conteúdos viralizantes, que vieram recheados de fake news.
“O fato de uma plataforma contratar uma agência para produzir conteúdo já é escandaloso”, surpreende-se a pesquisadora Rose Marie Santini, coordenadora do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “As plataformas alegam que não podem se submeter a leis brasileiras porque não são meios de comunicação. Alegam que são empresas de tecnologia e, portanto, não podem ser responsabilizadas pelo conteúdo. Se contratam uma agência, elas então são produtores de conteúdo, não importa se são empresas terceirizadas.”
Durante dois meses, a piauí entrevistou oito funcionários e ex-funcionários do Kwai, seis deles de nível gerencial e direção – e todos pediram para ter suas identidades preservadas por receio de receber algum tipo de retaliação da empresa. A piauí também entrevistou ex-terceirizados e outros profissionais vinculados à operação do Kwai no Brasil. O retrato que se extrai dessas conversas – e dos documentos aos quais a revista teve acesso – mostra uma política deliberada de estímulo a irregularidades em busca de audiência, seja por meio da divulgação de fake news, da clonagem deliberada de contas de usuários de outras plataformas e até do impulsionamento dos candidatos à Presidência da República, coisa que as redes sociais são proibidas de fazer.
O Kwai é uma rede social discreta, mas poderosa. Hoje, reúne 48 milhões de usuários ativos no Brasil, segundo os dados da plataforma ComScore. É menos do que o Instagram, o Facebook e o TikTok, mas é o dobro do X, o antigo Twitter, cujos usuários somam 24 milhões no país.
O Kwai (pronuncia-se “cuai”, mas aqui ficou conhecido como “cauai”) chegou ao Brasil no final de junho de 2019. Naquela época, o aplicativo, fundado pela empresa chinesa Kuaishou Technology, já era um gigante no seu país de origem. Ao desembarcar por aqui, encontrou espaço entre as classes C e D, sobretudo nos estados do Norte e Nordeste. Enquanto o TikTok, outra plataforma chinesa, ficou conhecido pelas dancinhas, o Kwai tornou-se popular por suas novelinhas e dramatizações de situações amorosas, ora engraçadas, ora edificantes. Boa parte de sua audiência, no entanto, vem de material perturbador – que também é exibido, em algum grau, em outras redes sociais – mostrando, por exemplo, cenas de acidentes de trânsito (em alguns casos, com exposição do cadáver) e agressões brutais a mulheres.
Jair Bolsonaro foi o primeiro presidenciável a perceber o potencial do Kwai. Criou seu perfil em 20 de maio de 2022, a poucos meses da eleição. Na China, as equipes de conteúdo ficaram eufóricas com sua estreia. De acordo com três pessoas que trabalhavam na empresa na época, a matriz passou a impulsionar as publicações de Bolsonaro. Pelas normas do TSE, uma campanha pode impulsionar o conteúdo do seu candidato – ou seja, pagar a uma rede social para que lhe dê mais destaque. Mas a própria rede social não é autorizada a fazer isso. Tudo indica que, ao impulsionar Bolsonaro, o Kwai se movia por interesses comerciais, querendo ampliar o engajamento e aumentar sua audiência. Não havia evidência de alinhamento ideológico.
No Brasil, a equipe ficou preocupada com a medida irregular tomada pela matriz. A troca de mensagens entre dois colegas do setor responsável por conteúdo eleitoral é uma evidência do clima de apreensão. “O PYMK rodou bastante e deram três boosts da China nesse fim de mês”, diz uma mensagem, obtida pela piauí. O colega responde: “Pqp. Que maluquice.” O PYMK (People You Might Know, que, no Brasil, ficou conhecido como “encontrar amigos”) é usado para sugerir perfis aos inscritos na rede. O boost, por sua vez, aumenta o alcance de um perfil, fazendo com que chegue a mais pessoas.
Em julho de 2022, a agência de checagem Aos Fatos percebeu que o presidenciável estava tendo grande destaque no Kwai com posts de conteúdo falso. Em seu site, escreveu: “Vídeos em que o presidente Jair Bolsonaro (PL) repete alegações falsas acumulam mais de 13 milhões de visualizações no Kwai […]. O número representa quase metade (45%) do alcance do presidente na plataforma até agora. Os conteúdos desinformativos postados por Bolsonaro tiveram média de visualizações quase três vezes maior que os outros, com 435 mil visualizações por vídeo.” Em um deles, para atacar as pesquisas eleitorais, Bolsonaro dizia que os institutos não previam que ele iria para o segundo turno em 2018, o que não é verdade.
Naquele mês de julho, com atraso de dois meses em relação ao adversário, Lula estreou seu perfil. Sua chegada foi igualmente celebrada com impulsionamento promovido desde a China. Mas, uma análise feita durante dois dias, quando faltavam vinte dias para a eleição, mostrou que não havia um equilíbrio de tratamento entre Lula e Bolsonaro. A análise, à qual a piauí teve acesso, indicava que 46% do crescimento de Lula vinham das sugestões para seguir o perfil (que eram turbinadas com impulsionamento), contra 82% de Bolsonaro. Com isso, o candidato do PL conseguiu uma vantagem relevante no período da amostragem: ampliou sua presença digital no Nordeste, uma região especialmente importante porque concentrava, a um só tempo, o grosso da audiência do Kwai e o grosso do eleitorado do petista. (Hoje, Lula tem 6,8 milhões de seguidores na plataforma, contra 5,9 milhões de Bolsonaro.)
Consultado pela piauí, o TSE informou que teve uma relação correta com os administradores do Kwai durante a campanha eleitoral. Quando solicitada, a plataforma removia os conteúdos mentirosos sem resistências. Em fevereiro de 2022, em seu esforço para combater fake news na campanha, o TSE propôs um termo de cooperação que abria um canal direto com as Big Techs de modo a agilizar a retirada de conteúdo falso de suas plataformas. O Kwai assinou o documento. Da porta para dentro, no entanto, a rede mantinha uma central de manipulação em atividade.
Em abril do ano eleitoral, o portal Tecnoblog, especializado em notícias do mercado digital, destacou a fartura de conteúdos mentirosos na plataforma ao publicar uma reportagem cujo título era: Kwai está destacando fake news sobre urna eletrônica e vacina contra Covid-19. O que não se sabia na ocasião é que a situação era ainda pior: os conteúdos falsos faziam parte do pacote encomendado pela própria plataforma. A informação consta em um relatório que circulou entre os funcionários do Kwai no mês seguinte e destrinchava a reportagem. Nele, o Kwai mostra preocupação com a notícia e, a certa altura, afirma: “Os vídeos [que continham fake news] foram publicados por contas de KwaiCut.” Ou seja: estavam entre os vídeos encomendados (e pagos) pela plataforma às agências de conteúdo.
No dia 1º de outubro de 2022, véspera do primeiro turno, o Kwai veiculou um vídeo às 16h41, no qual a jornalista Daniela Lima, à época apresentadora da CNN Brasil, aparecia no estúdio do telejornal CNN 360° sob uma chamada mentirosa: “Forças Armadas podem intervir a qualquer momento!” A publicação falsa teve ao menos 1,5 milhão de visualizações. A piauí apurou que o campo que informa a fonte do vídeo – dado que só aparece nos sistemas internos da plataforma – estava preenchido com a sigla “SC/KwaiCut”. Ou seja: era outro conteúdo do balaio das encomendas do Kwai.
Nos dias decisivos da eleição, a plataforma esteve recheada de fake news que ela própria comprou. E atraiu centenas de milhares de visualizações. Exemplos:
* 2 de outubro, dia do primeiro turno da eleição_Um post enganosamente dizia: “Neymar declara apoio a Lula.” Teve mais de 600 mil visualizações.
* 3 de outubro_A mentira da vez dizia que Bolsonaro havia desistido da eleição. Ultrapassou a barreira de 1 milhão de visualizações.
* 4 de outubro_Lula corria o risco de “perder sua candidatura presidencial”. Houve mais de 900 mil visualizações.
* 5 de outubro_Vídeo dizia que Lula estava incentivando assaltos. Passou de 500 mil visualizações.
O Kwai contrata as agências de conteúdo e autoriza que elas divulguem seu material diretamente na rede. No entanto, há evidências de que o próprio Kwai, mesmo quando alertado para um conteúdo mentiroso, finge que não vê e permite oficialmente a circulação do material. A piauí teve acesso a um vídeo que divulgava uma mentira sobre “intervenção militar” no qual constava o selo allow. O selo, que só aparece para quem tem acesso ao sistema interno da rede, indica que o vídeo passara pela equipe de moderação e fora liberado para permanecer na rede. Segundo os funcionários relataram, os moderadores eram pressionados a manter os conteúdos no ar em nome da audiência.
Na reta final da eleição, um moderador mandou a seguinte mensagem por um sistema interno: “Pessoal, outra conta kc [KwaiCuts] faz uma publicação com conteúdo que viola regras no dia da eleição.” O autor, que incluiu entre os destinatários da sua mensagem lideranças da plataforma – alguns com nomes chineses –, também alerta que o setor de moderação determinava que a publicação fosse apagada “por mostrar comportamento extremista”. A mensagem insiste no apelo: “Nós agradeceríamos se vocês pudessem dar um retorno em relação aos últimos casos enviados, já que essas contas continuam representando um risco ao nosso esforço de regular o conteúdo eleitoral.” Em nova mensagem, um colega reforçou a demanda: “Ficaríamos muito agradecidos se os KC não publicassem nada que contenha riscos no dia da eleição.” A piauí não sabe qual foi o resultado dos alertas. O autor da primeira mensagem, com receio de ser identificado, não quis dar entrevista.
Com o alto volume de postagens – cerca de 2 milhões de vídeos diários –, o Kwai contratou terceirizados para ampliar a equipe de moderadores. No contrato, eles eram registrados como operadores de telemarketing. Julio Cesar Nogueira, de 23 anos, era um deles. Durante sete meses, passou mais de seis horas diárias assistindo coisas repulsivas, como cenas de violência explícita e pornografia infantil. De pronto, barrava. Mas, quando se tratava de conteúdo mentiroso, nem perdia seu tempo. “Qualquer tipo de fake news era liberado”, diz ele. “Tinha coisa que eu barrava, mas aí quando chegava na China [referência à equipe de moderação baseada em Pequim] era liberado. Só removiam os conteúdos quando recebiam muita reclamação.”
Nogueira não guardou cópias de tela, mas afirma que viu fake news que chegavam a ponto de acusar o agora presidente Lula de “estuprador” e “assassino”. De fato, um dos vídeos traz em letras maiúsculas a frase “LULA É ASSASSINO!”, acompanhada de uma reportagem a respeito da morte do ex-prefeito Celso Daniel que em nenhum momento levanta essa suspeita. Em outubro, Nogueira e outros cinco colegas foram demitidos porque chacoalharam uma máquina de doces que engoliu o dinheiro mas não entregou o produto. Ele entrou com uma ação trabalhista contra a Teleperformance Brasil, a empresa terceirizada contratada pelo Kwai. Procurada, a empresa não se manifestou.
As agências de conteúdo são remuneradas diretamente pela matriz do Kwai, em Pequim. A plataforma não esconde que tem relação com as agências, as quais chama de “parceiras”, mas não conta a história toda. A piauí teve acesso a uma planilha de pagamento, correspondente ao mês de junho de 2022. Havia 21 agências. Os pagamentos eram feitos por meio da financeira americana Payoneer, uma concorrente do PayPal. A IMP Digital – que antes se chamava Imperium – foi a mais bem paga no período, recebendo um total de 35 353 dólares, cerca de 175 mil reais, além de uma bonificação de 1 580 dólares, ou quase 8 mil reais.
Entrei em contato com algumas agências como se estivesse interessado em trabalhar nos KwaiCuts. Na IMP Digital, fui direcionado para uma produtora da Agência Realeza. Ela se encarregaria de me treinar. Eu aprenderia a baixar vídeos do YouTube, a partir do aplicativo Snaptube, e editá-los com o CapCut. A ideia, basicamente, é que o editor pegue vídeos do YouTube, extraia um pequeno trecho e adicione uma tarja “criativa” para chamar a atenção da audiência e gerar engajamento. Quando perguntei se o procedimento não violava direitos autorais, a produtora me tranquilizou. Assim que concluísse minha inscrição no KwaiCut, a Agência Realeza me passaria um número de telefone no estrangeiro. “Desse país que a gente passa a conta, lá não tem tantas leis sobre direitos autorais como aqui no Brasil”, explicou. Ela não identificou o país.
Da Let’s Go, outra agência da lista, que recebeu 28 mil dólares naquele mês de junho de 2022, recebi um arquivo que listava as categorias de vídeos que deveriam ser produzidos, entre elas, “notícias estranhas” e “lutas”. Minha obrigação seria postar pelo menos cem vídeos por mês. Quando chegasse a hora, a agência me daria um número de telefone a partir do qual eu me logaria no Kwai. Havia um alerta em letras maiúsculas: “LEMBRANDO QUE O DDI NÃO É O DO BRASIL E SIM DA ZÂMBIA +260.” O aviso indicava que, a exemplo da IMP Digital e da Realeza, a Let’s Go Agency também operava via exterior.
Em todas as agências, o pagamento depende do número de visualizações mensais obtido pelos vídeos editados. Na Amirah, que recebeu 19 mil dólares na planilha acessada pela piauí, os valores variavam de 30 dólares (para contas entre 1 e 2 milhões de visualizações) até 2 mil dólares (para contas com mais de 50 milhões de visualizações). Quem somasse menos de 1 milhão por mês não recebia nada. Na Blue Pink, contemplada com 5,6 mil dólares na planilha, ganhava mais pontos quem postasse vídeos de “apostas”, de “esportes” e de “crianças e bebês”. Se um vídeo de “crianças e bebês” ou “de humor” tivesse 500 mil visualizações, a agência contabilizava o dobro para fins de remuneração, como se tivesse tido 1 milhão. No caso de vídeos de “esportes” e “apostas”, o total triplicava. Esses assuntos estão entre os que rendem mais audiência.
Procuradas pela revista, nenhuma das agências quis dar entrevista para explicar seu negócio. Na Let’s Go, quando me apresentei como repórter da piauí, um jovem de 20 anos, produtor da agência, me atendeu e confirmou que estava autorizado a falar em nome da empresa. Perguntei por que a agência usava um número no estrangeiro. Ele disse: “O DDI da Zâmbia até hoje também é um mistério pra mim. É a China [a equipe do Kwai em Pequim] que cria as contas e envia o número pra gente.” No dia seguinte à entrevista, o rapaz disse que se confundira e não podia falar em nome da Let’s Go. (Por isso, a piauí decidiu não publicar seu nome.)
No mesmo dia, a dona da Let’s Go, Letícia Brandão Silva, entrou em contato com a revista e desautorizou o jovem. “Ele é um colaborador que trabalha com CNPJ. Cada pessoa jurídica responde pelas suas atitudes.” Brandão Silva, no entanto, não quis nem ouvir minhas perguntas sobre a atividade de sua agência. “Não use o nome da nossa empresa. Nós trabalhamos com amor e fazemos o que é correto. Nós somos abençoadores de vidas”, disse.
Em 2018, veio à tona um dos piores escândalos envolvendo o Facebook. Dois ex-funcionários da britânica SCL, dona da consultoria Cambridge Analytica, revelaram que, por meio de um jogo de perguntas e respostas, aplicado durante dois anos, a empresa capturou dados de 87 milhões de usuários do Facebook nos Estados Unidos – e assim mapeou potenciais eleitores indecisos. No período de campanha, esses eleitores foram bombardeados com propagandas favoráveis a Donald Trump, que acabou superando sua adversária democrata, Hillary Clinton, na disputa pela Casa Branca.
Diante da repercussão da denúncia, Mark Zuckerberg, o fundador e presidente do Facebook, agora Meta, em depoimento ao Senado americano, admitiu o erro da plataforma e terceirizou a responsabilidade. “Quando descobrimos, em 2015, que a Cambridge Analytica comprou dados de um aplicativo desenvolvido no Facebook, nós tomamos medidas. Derrubamos o aplicativo e ordenamos que tanto os desenvolvedores do aplicativo, quanto a Cambridge Analytica, parassem de usar e eliminassem qualquer dado que tivessem. Eles nos disseram que tinham feito isso. E, claramente, foi um erro ter acreditado”, disse Zuckerberg. Brittany Kaiser, ex-diretora da consultoria e uma das denunciantes do caso, apresentou outra versão da história. No documentário Privacidade hackeada, da Netflix, ela afirma que o Facebook sabia que os dados roubados estavam sendo usados para fins eleitorais durante a campanha.
O Facebook, que ultrapassou 3 bilhões de usuários ativos – 40% da população global –, já foi acusado de toda sorte de problemas. Em caso gravíssimo, contribuiu para a perseguição da minoria islâmica em Mianmar ao não controlar a disseminação de mentiras e mensagens de ódio contra essa população – o que resultou em 25 mil assassinatos e 700 mil refugiados. No Brasil, permitiu a disseminação dos mais diversos rumores, incluindo a mentira de que a zika era causada por vacinas, o que afetou a imunização das crianças. Zuckerberg, diante desses casos, sempre minimizou a responsabilidade de sua empresa, enquanto, nos bastidores, o conteúdo radioativo ajuda a colocar fogo nas caldeiras do engajamento.
Mas, nem mesmo a rede de Zuckerberg chegou a ser acusada de encomendar conteúdos viralizantes, que chegam repletos de notícias falsas, para agências de conteúdo. Também nunca foi acusada de criar contas falsas – outra irregularidade do Kwai que a piauí descobriu por meio de entrevistas e documentos.
Em uma tarde de novembro, tive acesso aos bastidores ocultos do Kwai ao entrar num apartamento em São Paulo. Uma profissional do Kwai abriu a porta com uma condição: eu não poderia usar nenhum tipo de aparelho com conexão de internet. Ela me levou ao fundo do apartamento, onde ficava seu escritório. Para evitar qualquer vazamento de imagem, as câmeras acopladas aos dois computadores estavam cobertas com adesivos. Antes de iniciarmos a conversa, uma música ambiente começou a tocar na sala, para driblar uma eventual escuta. “Já são muitos anos trabalhando em empresas de tecnologia”, disse a funcionária, com um sorriso no rosto.
Ali, por meio do Noah, o sistema interno usado pelo Kwai, a profissional me mostrou na tela um filtro de busca com todos os conteúdos produzidos pelas agências. Havia mais de 100 mil vídeos de KwaiCuts. Todos eles estavam catalogados com o nome da agência que os produziu, a categoria do vídeo – se série de tevê ou filme, por exemplo – e um selo em que se lia vertical pirating account (conta pirata vertical), o que já deixava claro que o próprio Kwai classifica o conteúdo das agências como “pirata”. Mas a novidade estava por vir: ao se aplicar um filtro no sistema, aparecia uma lista com a sigla CC-0 – cê, cê, zero –, com o selo pirating account (conta pirata).
A profissional me explicou que as CC-0 são perfis de usuários que foram clonados pelo Kwai de outras redes sociais, especialmente do TikTok. Ou seja: um cidadão abre uma conta no TikTok, ou outra rede qualquer, e o Kwai copia sua conta e insere em sua própria plataforma, ampliando assim o volume de usuários. O monitor mostrava um universo imenso: mais de 3,5 milhões de contas piratas, entre ativas e inativas, banidas da rede em parte por reclamação dos usuários. Assim, se o Kwai registra 48 milhões de usuários no Brasil, talvez o número real seja um pouco abaixo disso.
A prova de que a profissional do Kwai falava a verdade sobre as CC-0 veio semanas depois, quando tive acesso a uma mensagem enviada no dia 19 de novembro de 2021, às 2h12, no horário de Brasília. Na mensagem, Kaiyun Qian, diretora jurídica internacional baseada em Pequim, fazia um alerta urgente: o Kwai acabara de ser notificado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo de que havia clonado uma conta em nome de “Patricia Shiman”. O tribunal pedia a exclusão da conta, o endereço IP e o localizador da máquina, para identificar o responsável pela fraude.
Um minuto mais tarde, Kaiyun Qian enviou outra mensagem, também escrita em inglês. Dizia: “A equipe de TNS [referência à equipe de moderação] confirmou que essa é uma conta CC-0. Portanto, não temos nenhuma chance de vencer [a ação].” Em seguida, a diretora discorria sobre consequências e providências: “Não apenas arcaremos com os custos e danos, mas também podemos ser responsabilizados criminalmente se nos recusarmos a fornecer as informações sobre a conta. A sentença também será publicada e usada como um precedente para casos futuros, a menos que cheguemos a um acordo para manter a reclamação confidencial.”
E assim foi feito. Ao ser procurada, Patricia Shimano (como seu sobrenome é grafado) disse que não poderia falar sobre o caso porque o acordo que selara com o Kwai exigia sigilo. Não era o único caso, como mostra um relatório interno cujo título é autoexplicativo: “Litígio ou queixa administrativa em andamento no Brasil – CONTAS FALSAS.” O documento, ao qual a piauí também teve acesso, traz seis casos, incluindo o de Shimano. A tabela indica em qual tribunal o processo está correndo, o nome do autor da ação, o tipo de reclamação, o estágio em que se encontra. Além de outros detalhes, há um campo, “status”, onde consta o valor pago ao reclamante. Ali, aparece que Shimano recebeu 19 925 reais pelo acordo sigiloso que assinou.
Outro caso é da empresa Sora e Nogra, de Goiânia, que vende livros virtuais sobre a relação de sogras e noras. Em petição ao TJ paulista, a empresa alega que o Kwai copiava seu conteúdo por meio de uma conta falsa e apresenta dezenas de exemplos. A Justiça deu cinco dias para que o Kwai levantasse os dados da conta falsa, a fim de identificar o responsável, mas a plataforma alegou que as informações pedidas haviam sido eliminadas havia mais de seis meses. (O Marco Civil da Internet determina que os dados não podem ficar armazenados por período superior a seis meses.)
A Sora e Nogra alegou que o Kwai estava agindo de má-fé, mas não adiantou. No dia 31 de julho passado, o juiz Rodrigo Galvão Medina, da 9ª Vara Cível do Foro Central, deu ganho de causa à rede social e a empresa goiana ainda teve que arcar com as custas processuais. O documento obtido pela piauí, porém, mostra que o Kwai não jogou limpo. Na coluna “status” do caso da Sora e Nogra, constam as seguintes informações: “Coletando informações agora; quantia não disponível; sem penalidade por não fornecer informações; conta CC-0.” Ou seja: no sistema interno do Kwai consta que a conta era efetivamente clonada do perfil da Sora e Nogra.
Apesar dos processos, o Kwai mantém a clonagem de contas em atividade. O advogado João Raposo, cuja página no TikTok tem mais de 200 mil seguidores, é uma das vítimas. A pedido da piauí, Raposo fez um teste. No dia 25 de novembro, ele publicou um vídeo em sua conta regular no TikTok para verificar se o conteúdo seria sugado por sua conta falsa no Kwai. Uma hora e meia depois de fazer a publicação, o vídeo estava replicado no Kwai. “É uma sensação de impotência”, diz ele, que planeja recorrer à Justiça. “Já denunciei duas vezes para a plataforma e nada acontece.”
No Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, tramita uma ação movida por uma executiva brasileira que ocupou um alto cargo de liderança no Kwai. A ação está sob sigilo, mas a piauí teve acesso ao seu conteúdo e decidiu preservar o nome da autora da ação. O documento que abriu o processo descreve o funcionamento da plataforma e sua relação com as agências de conteúdo e as contas clonadas. A certa altura, diz: “O Kwai operava (e opera) uma verdadeira fábrica de contas fakes, cujo conteúdo era PIRATEADO […] Diversos produtores de conteúdo se queixavam da situação de encontrarem contas copiadas, achando que isso era prática de hackers ou criminosos digitais. NUNCA IMAGINARAM que a autoria de tais contas era do próprio KWAI.”
A ação afirma que o Kwai pagava por conteúdos falsos e ignorava os alertas dos moderadores, e descreve o espanto da ex-executiva ao tomar contato com os métodos internos de uma plataforma tão grande. “Ao contrário do que ela [a ex-executiva] esperava de uma empresa listada em Bolsa de Valores, com faturamento global anual na ordem dos 13 bilhões de dólares e que deveria ter excelente governança, a liderança estrangeira da empresa [refere-se à dirigente da China] não apenas ignorou e rejeitou os alertas da reclamante, como também a rotulou de ‘louca’.”
No processo, aparece um caso que dá uma ideia do ambiente de secretismo dentro da plataforma. A autora da ação relata o tratamento humilhante que recebeu durante uma reunião da parte de Ian Lee, diretor baseado em Pequim e responsável pela operação no Brasil – que, descobriu-se depois, não era o seu nome verdadeiro. Em uma troca de mensagem, obtida pela piauí, uma pessoa que trabalhava na empresa pergunta a “Ian Lee” qual era seu nome no LinkedIn, pois queria adicioná-lo e não encontrava o perfil. “Você não me encontrou porque estou usando um pseudônimo”, respondeu o diretor. “Lee não é meu nome verdadeiro. Minha antiga empresa [o TikTok, ele contou depois] me obrigou a assinar uma cláusula que me impede de trabalhar em concorrentes. Eu posso revelar meu nome verdadeiro e viver como uma pessoa honesta outra vez depois do próximo verão.” A piauí não conseguiu descobrir a identidade verdadeira de “Ian Lee”.
A diretora-geral do Kwai no Brasil, Claudine Bayma, não quis dar entrevista. A piauí então enviou, por escrito, uma lista de 24 perguntas à assessoria de imprensa da plataforma, versando sobre a postagem de conteúdos sabidamente falsos, sobre a criação de contas piratas e o impulsionamento irregular de presidenciáveis.
Em resposta, a rede social mandou a seguinte nota:
O Kwai não recebeu nenhuma evidência das informações levantadas pela reportagem e não comenta processos ou decisões judiciais, mas reforça que coíbe a criação e publicação de conteúdos impróprios.
A plataforma utiliza mecanismos de segurança que atuam 24 horas por dia, combinando inteligência artificial e análise humana para identificar e remover o mais rápido possível conteúdos que violem ou infrinjam as políticas da comunidade. O Kwai conta também com canais de denúncia nos quais os usuários podem relatar comportamentos impróprios dentro do app.
Aplicativo de criação e compartilhamento de vídeos curtos, o Kwai chegou ao Brasil em 2019 e hoje conta com mais de 48 milhões de usuários ativos no país, de acordo com dados da ComScore de 2023.
O Kwai tem como premissa construir uma comunidade respeitosa, saudável e harmoniosa, que esteja de acordo com seus Termos de Serviço. O aplicativo possui um mecanismo de recomendação personalizada, que fornece aos usuários uma gama diversificada de criadores de conteúdo com sugestões de vídeos de maior interesse de acordo com o perfil do usuário.
Proteger a liberdade de expressão é uma das premissas do Kwai, mas a plataforma não tolera conteúdos que tenham o potencial de distribuição de informações falsas, enganosas, manipuladas ou prejudiciais a indivíduos e instituições. Por “desinformação”, o aplicativo compreende tanto informações falsas espalhadas sem intenção de causar danos quanto disseminação intencional de informações conhecidas como falsas pelo usuário que posta ou compartilha o conteúdo. Para direcionar os usuários, o Kwai possui uma página com as Diretrizes da Comunidade.
Desde 2022, o Kwai tem uma parceria com a agência de checagem de informações Aos Fatos, que ajuda na identificação de materiais passíveis de banimento. Os conteúdos poderão ser retirados da plataforma ou rotulados como desinformativos. Vídeos não verificados têm a exposição diminuída e violações contínuas podem levar ao banimento da conta. Também em 2022, o Tribunal Superior Eleitoral (tse) e o Kwai firmaram um memorando de entendimento para a coordenação de esforços no combate à disseminação de desinformação no processo eleitoral.
No mesmo ano, o aplicativo lançou a primeira edição de seu Relatório de Transparência, que representa mais um passo para garantir uma troca aberta de informações por meio da transparência contínua. E fortalecendo essa responsabilidade, a plataforma publicou, em 2023, a quarta edição do documento, destacando as ações e esforços da empresa para proteger a integridade da plataforma e de seus usuários, como a remoção de mais de 5 milhões de vídeos que violavam as políticas e termos de uso. Também foram banidas, temporária ou permanentemente, quase 700 mil contas que violaram as Diretrizes da Comunidade apenas no primeiro semestre do ano. No mesmo período, foram recebidas 73 solicitações de autoridades para restrições de conteúdo e 1 202 denúncias de violação de propriedade intelectual. Todas foram atendidas.
Como a nota nada mencionava sobre as agências de conteúdo contratadas pelo Kwai, nem sobre as contas piratas e o impulsionamento de presidenciáveis, a piauí voltou a insistir nas perguntas, mas a empresa não enviou novas informações. Consultada pela revista, a agência de checagem Aos Fatos disse que seu trabalho para o Kwai “consiste em checar vídeos encaminhados pelo time de moderação da plataforma” e esclareceu: “Não participamos de decisões de moderação. Ou seja, quem determina se uma publicação fica ou sai do ar é o Kwai.” Aos Fatos faz o mesmo tipo de trabalho para a Meta e o Telegram.
A Kuaishou Technology, dona do Kwai, foi fundada em 2011. No ano seguinte, a empresa entrou no mercado de vídeos curtos e, ao longo do tempo, tornou-se a segunda maior rede desse tipo na China, atrás apenas do Douyin, nome chinês para o TikTok. O público-alvo da Kuaishou eram os moradores das zonas rurais da China.
Entre o final dos anos 2010 e início dos 2020, a empresa começou a expandir seu negócio para outros países. Nesse contexto, chegou ao Brasil e Indonésia, hoje o terceiro maior mercado do aplicativo, atrás da China e do Brasil. Na Indonésia, assim como na Índia, leva o nome de SnackVideo. A expansão internacional, porém, só engrenou a partir de 2021, quando a empresa abriu ações na Bolsa de Valores de Hong Kong e captou 5 bilhões de dólares.
Antes disso, ainda em maio de 2020, a Kuaishou Technology tentou ganhar o mercado dos Estados Unidos. Em vez de Kwai, o aplicativo adotou o nome de Zynn, mas suas práticas agressivas logo chamaram a atenção da imprensa americana. No dia 9 de junho de 2020, a revista Wired publicou uma reportagem em que acusava o Zynn de publicar conteúdo surrupiado de outras plataformas – o mesmo que tem feito no Brasil. Zynn, o aplicativo de vídeos do momento, é cheio de conteúdo roubado, dizia o título.
Depois da publicação da denúncia, as lojas da Apple e do Google deixaram de oferecer o aplicativo da empresa chinesa aos usuários. (No Brasil, continua sendo possível baixar o app do Kwai nas duas lojas.) Com sua imagem pública arranhada pelas contas falsas e baixa demanda do público, o Zynn desistiu dos Estados Unidos e fechou suas portas em agosto de 2021, pouco mais de um ano depois de sua estreia.
No Brasil, no entanto, suas ações de marketing só avançam. Em 2021, o Kwai fechou uma parceria comercial com a Band para lançar o concurso Microfone Aberto, que selecionou um participante para se tornar o novo comentarista no Jogo aberto, um programa esportivo vespertino diário no formato de mesa-redonda. No segundo semestre de 2023 a marca foi estampada na camisa do Fortaleza, equipe que disputou a série A do Campeonato Brasileiro e chegou à final da Copa Sul-Americana. O Kwai também virou patrocinador oficial de A fazenda, o reality show da Record. Em outubro passado, a Globo anunciou o Kwai como patrocinador do Big Brother Brasil.