O assédio sexual nos câmpus em 128 atos
“Ele vivia fazendo insinuações. Era nojento”, desabafou uma estudante de 16 anos sobre o então professor Pablo Polese Queiroz, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul (IFMS). As acusações vieram à tona em 2022, e essa já era a segunda vez que o docente estava sendo denunciado por constranger alunas.
Em 2020, outra estudante contou que o professor lhe enviou uma figurinha no grupo de WhatsApp da sala: “Deixa eu comer você?”. Em seguida, em conversa privada, comentou uma foto da aluna: “Linguão”.
Elogios constrangedores, piadas de duplo sentido, mensagens indiscretas, comentários inadequados, toques no corpo, investidas físicas e até estupros são condutas denunciadas por estudantes, estagiárias, professoras e funcionárias de universidades e institutos federais de todo o país.
Após analisar 128 processos administrativos disciplinares (PADs) durante os últimos nove meses, o Metrópoles fez um levantamento inédito sobre assédio e condutas de conotação sexual praticadas por professores e servidores públicos de instituições federais de ensino.
Trata-se de um dossiê sobre as violências e os constrangimentos a que as mulheres estão submetidas apenas por frequentarem ambientes de ensino no Brasil.
A investigação abrange processos instaurados nos últimos 10 anos. Optou-se por contar cada uma das histórias citando o nome dos professores e dos servidores sancionados, pois as punições de processos administrativos disciplinares são atos públicos. Todos os docentes e servidores foram procurados para apresentarem suas defesas.
Em relação às vítimas, a reportagem decidiu mantê-las no anonimato a menos que desejassem falar.
Os PADs são investigações conduzidas no âmbito da administração pública para apurar denúncias de condutas de servidores que possam ter contrariado as funções e atribuições previstas em lei. As punições decorrentes desses processos variam entre advertência, suspensão (que pode ser convertida em multa), demissão e cassação da aposentadoria.
Os casos analisados envolvem ao menos 265 vítimas e 132 acusados. Os registros foram organizados em um mapa por localidade e por instituição de ensino. Há relatos de agressões em todos os 26 estados e no Distrito Federal, o que comprova a recorrência das investidas, de norte a sul.
Os documentos revelam situações de constrangimento ou violência apuradas em 59 universidades e institutos federais. A partir deles, foi possível identificar as abordagens mais comuns, o sofrimento causado às vítimas e o perfil dos assediadores.
A investigação jornalística aponta que o desrespeito à condição feminina – 8,5% dos casos envolvem agressões sexuais a pessoas do gênero masculino – é uma lição repetida à exaustão nas instituições de ensino públicas.
E, em todos os casos, quem profere a disciplina do abuso é um homem. Nenhuma mulher aparece como acusada nos PADs analisados.
Os documentos também mostram que o sistema educacional falha na hora de responsabilizar os agressores. Até dois anos atrás, não havia parâmetros definidos para estabelecer as penas dos acusados, e a sanção ficava a critério da subjetividade dos julgadores.
A maioria das universidades não dispõe de políticas públicas para prevenção e combate ao assédio, o que aumenta a sensação de impunidade e o sentimento de insegurança das vítimas.
Para trazer à luz as informações sobre o lado mais sombrio das instituições de ensino brasileiras, a equipe do Metrópoles fez 156 pedidos com base na Lei de Acesso à Informação (LAI) e se debruçou sobre mais de 40 mil páginas de PADs e de processos judiciais.
A reportagem também percorreu 5.637 km em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Sergipe e no Distrito Federal para ouvir mulheres que se dispuseram a falar sobre a violência sofrida.
Beatriz Oliveira, Elizângela de Jesus Oliveira, Mariana Costa e Mariana Sobrinho concordaram em rememorar suas dores, na expectativa de interromper o silêncio imposto sobre o assunto nas universidades.
Além das vítimas, acusados, autoridades e especialistas foram ouvidos na tentativa de compreender o que ainda falta para que os câmpus se tornem locais mais seguros para as mulheres.
O assédio sexual é um crime definido no Código Penal como o ato de constranger alguém, com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, valendo-se de condição de superioridade hierárquica. De acordo com a Controladoria-Geral da União, mensagens, gestos, cantadas, piadas e insinuações podem caracterizar assédio.
No âmbito administrativo, são punidas “condutas de conotação sexual”, que incluem o assédio e outros atos de médio ou baixo grau de reprovabilidade, que não necessariamente exigem tipificação penal. Também são penalizadas situações graves, como os crimes de importunação sexual e estupro.
A fragilidade das vítimas
A prática de assédio sexual dentro das instituições de ensino se vale, principalmente, da inexperiência das vítimas, combinada com a posição de hierarquia dos assediadores. No geral, as vítimas são mais jovens que os agressores. Algumas são menores de idade – estão em fase de desenvolvimento, ainda aprendendo a construir relações e a se posicionar perante os outros.
Essa ingenuidade pode ser manipulada por professores e servidores, homens décadas mais velhos, que estão em outro momento da vida e da carreira. É comum que as vítimas não saibam se desvencilhar de cantadas indesejadas ou não identifiquem imediatamente as abordagens inadequadas. Também acontece de serem seduzidas por propostas românticas e idealizarem relacionamentos.
Entrevistada pela reportagem do Metrópoles, Mariana Costa que, atualmente tem 32 anos, conta que viveu uma relação abusiva com o professor Edson Ferreira Martins, conhecido no campus da Universidade Federal de Viçosa (UFV) por seu perfil namorador.
À época do relacionamento, ela tinha 18 anos e só percebeu o grau de manipulação do professor ao conversar com outras alunas que se relacionaram com ele e também relataram comportamentos abusivos. Juntas, tiveram coragem de levar o caso à direção da universidade. Martins foi expulso por recomendação da sindicância instaurada, mas acabou readmitido por decisão judicial.
Outra estudante, do Mato Grosso do Sul, desabafou sobre o relacionamento que manteve com um professor casado. Em mensagem de texto enviada ao docente, ela expressou o quanto se sentiu usada: “Você tem noção da manipulação que é você ficar ‘brincando’ com meninas de 15, 16 anos? Quando a gente entra no IF, tudo é maravilhoso, e a admiração que temos pelos nossos professores é muito grande. Tudo muda na nossa vida, e aproveitar desse momento e da admiração que temos é muito desumano”.
Os relacionamentos amorosos entre professores e estudantes são desaconselhados e até proibidos em muitos países. A Austrália, por exemplo, possui uma política nacional que afirma que interações dessa natureza “nunca são apropriadas”.
A advogada Mayra Cotta, especialista em questões de gênero, explica que no Brasil não há uma proibição legal para o namoro entre professores e estudantes. Na opinião dela, porém, é importante que a posição de igualdade no relacionamento seja preservada, especialmente por quem tem mais poder.
Pessoas em posições hierárquicas superiores devem seguir padrões de comportamento e de responsabilidade ética. Um dos quesitos mais importantes é reconhecer que a assimetria existe e, por isso, é necessário garantir as condições necessárias para que a outra pessoa seja ouvida, para que seus sentimentos importem e sejam levados em conta” Mayra Cotta, advogada
Objetificação das estudantes
A análise dos PADs sobre assédio sexual nas universidades também mostra que as adolescentes e as mulheres são frequentemente objetificadas em salas de aula e corredores. Professores e servidores se referem aos atributos físicos delas, constrangendo-as diante de outros alunos, ou usando-as como exemplo em piadas ou explicações de duplo sentido.
Na Universidade do Mato Grosso do Sul (UFMS), um professor teria dito a um aluno: “Não dá vontade de dar um beijo na boca dessas gurias?”. Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, um professor de teatro aproveitou uma atividade acadêmica para tocar a bunda de uma estudante.
No campus Paracambi, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), um professor foi demitido após queixas de que ele passava as mãos nas costas, nos braços, no pescoço e até nas nádegas de alunas.
Na Universidade Federal do Ceará (UFC), um professor explicou o conceito de inércia empurrando as costas de uma estudante e acrescentou, de maneira jocosa: “Ela está gostando. Empurrar por trás é gostoso”. No PAD, a jovem contou que os colegas riram e que se sentiu muito envergonhada com a situação.
Uma aluna do colégio vinculado à Universidade Federal do Maranhão (UFMA) desabafou sobre constrangimentos desse tipo: “A gente percebe, quando vai entregar prova, que ele olha para nossas partes, e isso nos faz sentir mal. Sentimos medo de ficar só com ele na sala, de ser a última a entregar a prova”, relatou.
No Brasil profundo, até acusações de exploração sexual
Longe das capitais, o assédio em universidades e institutos ganha mais uma camada de perversidade: a exploração de vulnerabilidades econômicas e sociais das vítimas.
No campus Floresta, do Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IFSertaoPE), o professor Wagner Pinheiro insistia em seduzir um estudante até que foi flagrado pela mãe do menino. O município fica a 435 km de distância de Recife (PE), tem 30 mil habitantes e figura no terço mais pobre do país, considerando o PIB per capita.
Wagner oferecia recompensas, como, por exemplo, créditos em jogos de celular e lanches, para se aproximar do garoto. No PAD, foram apresentadas mensagens dele ao aluno: “Só vi vc de bombeiro aquele dia kkkkkkk. Quase chamo para apagar um ? lá em ? kkkkkkkkkk”. A defesa argumentou que as conversas teriam sido retiradas de contexto.
As propostas do servidor público chamaram a atenção da Procuradoria-Geral Federal junto ao IFSertaoPE, instância revisora dos processos administrativos. O órgão, vinculado à Advocacia-Geral da União (AGU), destacou as ofertas financeiras como uma estratégia de aliciamento.
O assédio sexual, ao contrário do que possa se imaginar, não se dá apenas por meio de ameaças de reprimendas, castigos ou imposição de prejuízos à vítima, caso não ceda ao assediador. Ele também ocorre quando há promessas de benefícios para as vítimas, que, em situação de inferioridade – social, ambiental, profissional e financeira – vê-se constrangida a ceder às investidas de cunho sexual”, assinalou a procuradora federal Letícia Cabral de Alcântara.” Letícia cabral, procuradora federal
Na Faculdade Intercultural Indígena (Faind), vinculada à Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), dois professores foram expulsos após serem investigados por assédio sexual a estudantes indígenas; uma delas ficou grávida. A sindicância concluiu que os docentes se valeram da fragilidade social das alunas para cometerem abusos sexuais. Na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), uma estudante da etnia ouviu de um professor: “Quero provar o gosto de uma indígena”.
No interior do Amazonas, professores do campus Manacapuru, do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), estão sendo investigados pelo Ministério Público Federal (MPF) por se envolverem com estudantes.
O município tem Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,614 e figura entre as 200 cidades com as piores taxas de escolarização do país, segundo dados compilados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Com poder aquisitivo bem acima da média dos moradores da cidade, os servidores públicos do instituto federal teriam se aproveitado de sua condição financeira e de posição social para seduzir as estudantes.
Vítimas, acusados e punições
Ao todo, 98 professores e 34 funcionários do quadro técnico de universidades e institutos foram acusados.
Desse total, 72 servidores foram demitidos ou tiveram a aposentadoria cassada, 46 foram suspensos, e 17 receberam advertências. Há professores que receberam punições mais de uma vez.
Embora a maioria das vítimas sejam estudantes do sexo feminino, também foram instaurados PADs para apurar assédios e constrangimentos contra alunos, professoras e funcionárias.
No caso dos institutos federais, as vítimas geralmente tinham menos de 18 anos, o que as deixava em uma condição de maior vulnerabilidade.
Os PADs revelam que não há um padrão de comportamento entre os assediadores. Alguns se excedem em elogios e olhares; outros apostam nas piadas de duplo sentido ou em convites despropositados. Também há os que, mesmo casados ou comprometidos, tentam enredar as estudantes em relacionamentos.
Os avanços sexuais ocorrem dentro e fora da sala de aula, durante pesquisas de campo, viagens acadêmicas, jogos estudantis e festas de alunos. Também não ficaram restritos ao horário do expediente: foram feitos no ambiente escolar, na presença de várias testemunhas ou no modo privado das redes sociais.
Os professores e os servidores investigados nos PADs tinham entre 26 e 67 anos de idade à época da punição. O grupo com faixa etária de 40 a 49 anos foi o que apresentou maior número de acusações (45 casos), seguido da faixa etária entre 30 e 39 anos (35 ocorrências).
O fato de a maioria das vítimas ser mulher, em um país que as coloca em um lugar de subordinação, evidencia a desigualdade de gênero brasileira”, explica a psicóloga Elisabete Franco Cruz, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora da Rede Não Cala!”
A Rede Não Cala!, composta por professoras e pesquisadoras da Universidade de São Paulo (USP), foi formada para combater a violência de gênero na instituição paulista.
Impactos acadêmicos e emocionais
A conduta dos assediadores produz consequências dolorosas para as vítimas. Algumas delas até desistem de seus projetos por não saberem como lidar com o assédio. Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), uma estudante largou o curso de pós-graduação em geografia após perceber o interesse romântico do orientador.
No campus Ouro Preto, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG), duas estudantes desistiram da disciplina de sociologia por causa do comportamento do professor. Uma delas contou ao Metrópoles que tomou desgosto de assistir às aulas por causa dos olhares excessivos e comentários inoportunos do professor.
Relatos assim são comuns em várias universidades e institutos. Após o assédio, as estudantes têm dificuldades para cursar a disciplina, sentem medo de ser perseguidas, acham que o professor vai dificultar a publicação de um artigo ou a obtenção de uma bolsa”, aponta a professora Elisabete Franco Cruz.
A pesquisa Causas e Efeitos Psicológicos do Assédio Sexual, de Marcia J. Weiss, publicada em 2025, afirma que os efeitos psicológicos para as vítimas de assédio sexual podem ir de leves a graves, reduzindo o rendimento profissional e/ou educacional.
As vítimas que permanecem nesses ambientes ficam assustadas, nervosas e irritáveis, podendo sofrer crises de choro. Algumas passam por colapsos nervosos, pois os sentimentos de isolamento, impotência e vulnerabilidade se tornam avassaladores”, afirma Weiss, no texto.
Problemas de sono, transtornos alimentares e outros danos à saúde podem surgir em consequência do assédio.
O sofrimento psicológico e emocional pode levar a consequências físicas, e as vítimas ficam impossibilitadas de dormir, o que aumenta a suscetibilidade a doenças. Outras apresentam ganho ou perda de peso, palpitações cardíacas, dores de cabeça e fadiga muscular, além de aumento da preocupação e da ansiedade.” Marcia Weiss, pesquisadora
É como se a vida delas estivesse seguindo uma linha reta e, após o abuso, a trajetória mudasse completamente. O ambiente que enxergavam como acolhedor e seguro se torna perigoso, um local onde podem sofrer violência. Os orientadores deixam de ser referência para se tornarem potenciais violadores.
Ser filmada enquanto tomava banho no último dia de um campeonato estudantil traumatizou Luísa (nome fictício, a pedido). O caso aconteceu em 2020, quando ela tinha 17 anos. Espiando a jovem por trás de uma janela, o auxiliar de administração Maicon Vinícius de Paula fez imagens da jovem no vestiário do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná (IFPR).
“Quando percebi, me joguei para o lado, na tentativa de me esconder. Consegui me enrolar em uma toalha e me vesti com minha roupa molhada mesmo”, relembrou em entrevista ao Metrópoles. “Passei um um mês sem conseguir tomar banho sozinha por causa do trauma e, até hoje, sinto receio e medo”, completa ela, que denunciou o caso à direção do instituto.
A professora Elisabete Franco Cruz destaca que os danos psicológicos muitas vezes são somatizados, por isso é comum que as vítimas desenvolvam gastrite e doenças de pele. “A maior crueldade está em expô-las a um episódio traumático que nunca sairá da memória delas”, afirma.
Silêncio institucional
Os 128 processos administrativos disciplinares (PADs) aos quais o Metrópoles teve acesso integram um conjunto de 473 procedimentos instaurados nos últimos 10 anos para apurar “condutas de conotação sexual”. Desse total, 183 resultaram em sanções; 146 foram arquivados, anulados ou resultaram na absolvição do servidor público; e outros 143 ainda estão em andamento.
Esses números, no entanto, são apenas a superfície, a parte mais visível, de um problema muito maior. Sabe-se que o assédio sexual, assim como outros crimes dessa natureza, são subnotificados devido a fatores como falta de informação, vergonha, medo de represálias ou estigmatização das vítimas.
Obrigadas a viver na mesma comunidade que os assediadores, muitas mulheres optam pelo silêncio. E, nesses casos, o caminho fica aberto para que os agressores mantenham comportamentos inadequados por um longo período de tempo.
Entre os PADs obtidos pela reportagem, chamaram a atenção casos de professores cujas abordagens já eram alvo de queixas de alunas há pelo menos uma década.
No artigo Assédio Sexual no Ensino Superior Brasileiro: uma análise sociogendrada das emoções e das subjetividades na transferência entre alunas assediadas e professores assediadores (2022), a professora de psicologia Valeska Zanello e a doutora na mesma área Iara Flor Richwin, ambas pela Universidade de Brasília (UnB), denunciam o silenciamento das vítimas:
O assédio ainda é um grande tabu a ser problematizado e enfrentado nas instituições de ensino superior no Brasil. Ele transita em meio a um processo de silenciamento, no qual várias cumplicidades são interpeladas de modos distintos, que podem ser, em maior ou menor medida, emocionais ou corporativistas.” Valeska Zanello e Iara Flor Richwin, pesquisadoras
Segundo Zanello e Richwin, “diferentes atores institucionais participam, consciente ou inconscientemente, da manutenção do silêncio e da invisibilização desse tipo de violência”. “Em geral, o propósito é evitar escândalos, confusões, mas, sobretudo, proteger a reputação acadêmica e profissional do assediador”, ressaltam.
A advogada Mayra Cotta alerta para a gravidade da situação. “Por que as mulheres ainda não denunciam? Se uma mulher hoje prefere aguentar um assédio sexual a denunciar, isso é uma falha institucional. Sempre que uma mulher deixa de denunciar, evidencia-se uma falha da instituição no dever de acolhê-la e protegê-la”, afirma a advogada especialista em gênero.
Falhas no combate à violência de gênero
Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) publicada em março deste ano identificou que 41 das 69 universidades federais do país não têm uma política institucionalizada de prevenção e de combate aos assédios sexual e moral.
O mesmo relatório mostrou que 55 instituições não têm protocolos ou diretrizes específicas para a investigação de casos de assédio. Além disso, em 52 universidades federais, não há evidências de que os processos sejam conduzidos com uma abordagem de gênero.
A inexistência de uma política pública de prevenção e combate ao assédio contraria as orientações da Convenção OIT 190, bem como a Lei nº 14.540/2023, que institui o Programa de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio Sexual e demais Crimes contra a Dignidade Sexual e à Violência Sexual na administração pública; a Lei nº 14.457/2022, que implementa o Programa Emprega + Mulheres; e o Decreto nº 12.122/2024, que cria o Programa Federal de Prevenção e Enfrentamento do Assédio e da Discriminação.
Essa limitação compromete a efetividade das atividades de enfrentamento ao assédio no ambiente universitário, aumentando a sensação de impunidade, o sentimento de insegurança de integrantes da comunidade universitária, em especial mulheres e pessoas LGBTQIAPN+”, descreve o Relatório do TCU.”
O relatório aponta ainda para a necessidade de capacitações voltadas à comunidade acadêmica – professores, servidores e estudantes – para que o combate ao assédio avance nas instituições.
Sem respostas oficiais
Desde 19 de maio, o Metrópoles solicitou entrevistas ao ministro da Educação, Camilo Santana, e ao secretário de Educação Superior da pasta, Marcus Vinicius David, mas nenhum dos dois atendeu à reportagem.
A assessoria de comunicação do Ministério da Educação (MEC) também foi procurada por e-mail, telefone e mensagem, mas não respondeu aos questionamentos encaminhados. As perguntas eram sobre as políticas públicas do MEC para coibir o assédio sexual dentro de universidades e institutos federais e que medidas a pasta tomaria diante do cenário apresentado neste texto.
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Link: https://www.metropoles.com/materias-especiais/assedio-sexual-universidades
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Na voz das vítimas
"Ele estava na minha cidade, me procurando, perguntando às pessoas onde era a casa da minha família”
A estudante Beatriz Oliveira, de 24 anos, descreve como apavorantes os momentos em que foi assediada pelo professor Gustavo Perez Alvarez, do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Sergipe (UFS). O ápice do terror ocorreu quando o docente apareceu de surpresa na cidade natal dela, a 75 quilômetros de Sergipe, para lhe entregar um bolo de aniversário.
"Quando liguei meu celular à noite, havia várias mensagens, cerca de 20 mensagens dele reclamando porque eu não estava respondendo. Ele disse que estava na minha cidade, me procurando, que estava no banco perguntando às pessoas onde era a casa da minha família”, lembra.
A visita inesperada foi decisiva para que Beatriz denunciasse o professor à polícia e à administração da UFS. Àquela altura, as investidas indesejadas já duravam meses, e a estudante se sentia completamente invadida e desrespeitada pela insistência do docente.
Antes do episódio do bolo, Alvarez descobriu o endereço da casa da estudante em Sergipe e foi entregar um lanche na residência. Também fez várias declarações de amor via WhatsApp, desconsiderando a rejeição da aluna e o fato de ele próprio ser casado.
Passados mais de cinco anos da situação, Beatriz tenta entender por que o assédio aconteceu com ela e, numa atitude comum às vítimas, sentiu-se culpada. “Ainda é difícil para mim. Pensar que houve tantos sinais de alerta e não consegui perceber. Ao menos já internalizei que, por estar dentro, não conseguia ver muitas coisas. Mas precisei fazer terapia, voltar a fazer pesquisa com outra equipe e retomar a minha rotina para perceber que não era culpa minha”, desabafa.
Beatriz, que hoje é doutoranda em biotecnologia industrial pela UFS, considera que foi prejudicada pelo professor em sua carreira acadêmica. De acordo com ela, o docente chegou a excluí-la de um projeto de extensão devido às negativas.
As investidas de Alvarez começaram no segundo semestre de 2018, com mensagens invasivas e ligações telefônicas. Com o tempo, a fixação foi aumentando e as abordagens passaram a ter cunho sexual.
Um dos movimentos do professor para conquistá-la foi alterar a nota de uma prova de 8,5 para 10. Ele também comprou um celular para presenteá-la. Uma das mensagens juntadas ao Processo Administrativo Disciplinar (PAD) mostra a insistência dele. “Olha para teu redor. Verás que está faltando alguém. Esse sou eu.”
O comportamento padrão da estudante era ignorar as mensagens do professor, mas ele não desistia. “Estou aqui esperando que surjam tua bondade, teu bom coração, tua compreensão, teu entendimento, teu bom discernimento, tua generosidade, tua amabilidade e tua extraordinária e louvável sensibilidade”, escreveu Alvarez em uma mensagem de texto.
Quando Beatriz começou a namorar e trocou a foto de perfil de um aplicativo de mensagens por uma imagem de casal, Alvarez mandou mensagens ofendendo a jovem e ridicularizando o então namorado dela, hoje marido: “Estou furioso. Não vou aceitar isso”.
“A gente estava conversando sobre a pesquisa tranquilamente e, do nada, ele mudou completamente comigo. Ele falou que eu estava querendo atingir ele, porque tinha trocado a foto de perfil. Perguntei o que estava acontecendo, aí ele falou que queria ser mais do que meu amigo, que queria casar comigo”.
A comissão responsável pelo PAD considerou as infrações graves. Em sua defesa, Alvarez negou as acusações, afirmando que eram apenas conversas cordiais entre amigos. Também disse que não tinha feito a alteração na nota da estudante.
A comissão sugeriu a demissão de Alvarez, que foi efetivada pela reitoria em março de 2022. Após a expulsão, o docente entrou na Justiça, que negou pedido para que ele retomasse ao cargo.
Procurado pelo Metrópoles para se manifestar sobre o PAD, Alvarez não respondeu.
Denúncias anteriores
Em 2018, comportamentos semelhantes de Gustavo Perez Alvarez já tinham motivado denúncias de alunas. Duas estudantes do curso de engenharia elétrica relataram que ele as tratava com elogios exagerados e lhes lançava olhares constrangedores.
Em depoimento, as alunas disseram que o docente fazia comentários sobre a aparência delas no meio das aulas, na frente de todos os colegas, e as abordava nos corredores. As jovens descreveram, inclusive, situações em que houve toques inapropriados no corpo.
Além de assédio sexual, Alvarez foi acusado por outros alunos de faltar e se atrasar com frequência, demorar a liberar as provas e fraudar os diários de classe. No mesmo PAD, o professor respondeu por um suposto caso de nepotismo, ao ter concedido uma bolsa de pesquisa para o filho, estudante da universidade.
Nesse primeiro PAD, a pena aplicada consistiu em uma suspensão de 15 dias. As denúncias de assédio sexual foram desconsideradas, no entanto. Segundo o entendimento à época, faltaram provas “aptas à condenação”.
Combate ao assédio
Ao Metrópoles, a UFS destacou a realização de palestras, jornadas de capacitação, mesas redondas e campanhas educativas voltadas à prevenção do assédio; a produção e a divulgação de materiais como a cartilha “Assédio moral e sexual no trabalho”; a implementação do Grupo de Trabalho contra violência e o assédio na universidade; e a aprovação do Plano Setorial de Prevenção ao Assédio, em 2025.
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“São e-mails aterrorizantes, com alto teor sexual. Fiquei com muito medo dele”
Quatro e-mails enviados em menos de 24 horas, nos quais o remetente cita trechos da Bíblia, fala da família, do casamento, do tamanho do próprio órgão sexual, das posições na cama que mais lhe agradam e das partes que considera mais desejáveis no corpo feminino, deixaram a professora Elizângela de Jesus Oliveira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), perplexa.
O autor era o professor Carlos Alberto da Costa Barata, colega de departamento dela no Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia (Icet), do campus Itacoatiara da Ufam, na Região Metropolitana de Manaus. Elizângela mal falava com ele e, portanto, não tinha lhe dado abertura para tanta intimidade.
Assustada com a ousadia de Barata – os emails alternavam versículos religiosos com descrições sexuais explícitas e tinham como anexos vídeos pornográficos –, Elizângela solicitou que ele parasse. O professor reagiu pedindo desculpas e dizendo estar envergonhado.
“Ele cita algumas passagens bíblicas. Provavelmente, sondou informações sobre mim, pois sou protestante, daí usa palavras da Bíblia, falando que Deus não ia negar nada para ele. Isso é uma intimidação – usar a Bíblia e dizer que está pedindo a Deus por mim, que ele era um homem bom e que Deus não negaria isso a ele”, conta a professora, que tem 38 anos.
Impactada pelos e-mails, Elizângela conversou com o então diretor do departamento sobre o ocorrido e ouviu dele que seria necessário iniciar um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar os fatos. Segundo ela, seu interesse era apenas que o diretor conversasse com Barata para que ele não voltasse a importuná-la.
Após a reunião, temendo pela própria segurança, a professora compartilhou, no grupo de professores, os e-mails eróticos enviados por Barata.
Quando o PAD foi instaurado, o clima pesou no instituto e, como é comum nesses casos, o comportamento da vítima também passou a ser julgado. Novata no departamento e sem família no Amazonas, Elizângela se viu em uma posição de grande vulnerabilidade.
“Ele me assediava com olhares. Passei a trabalhar de porta fechada. Ficava o tempo todo de porta fechada, não atendia a nenhum aluno ou aluna sozinha, e cheguei ao ponto de comprar um balde. Eu fazia xixi em um balde, porque tinha medo de encontrá-lo no corredor”, relatou em entrevista ao Metrópoles.
A maneira como o processo foi conduzido na universidade não contribuiu para que a professora se sentisse segura. A comissão que apurou o caso foi destituída logo após recomendar a expulsão de Barata. Segundo a Procuradoria Federal, o enquadramento determinado pela comissão – “conduta escandalosa” – não era compatível com os fatos; a classificação adequada ao caso seria “falta de urbanidade” e “manter conduta incompatível com a moralidade administrativa”.
Uma nova comissão foi montada. A defesa de Barata pediu o arquivamento do caso, argumentando que a vítima não queria a abertura do PAD. Também disse que acreditava no perdão dela e que o processo só existia porque a história se espalhou.
Em sua defesa, o professor disse que conhecia a vítima e mantinha uma relação de proximidade com ela. Acrescentou que a professora o adicionou numa rede social e que os dois iniciaram uma amizade virtual.
A nova comissão considerou o conteúdo dos emails de Barata como ofensivo e estarrecedor. Entendeu que os textos provocaram “constrangimento” e “vergonha” para Elizângela, mas recomendou que o professor fosse apenas suspenso. O grupo avaliou que o perdão que Barata pediu à colega funcionou como um atenuante.
A reitoria determinou uma suspensão de 90 dias, que foi convertida em multa com desconto de 50% do salário.
Procurado pelo Metrópoles, Barata informou que a multa já foi paga e que não gostaria de comentar a reportagem.
Medo constante
Toda a situação e a consequente exposição provocaram abalos psicológicos à professora Elizângela. Ela passou a achar insuportável permanecer no mesmo ambiente de trabalho que Barata e pediu transferência para o campus de Manaus, da Ufam, onde, atualmente leciona.
Entre o início do assédio e a transferência, foram dois anos sem que ela saísse de casa para se divertir ou fazer as atividades físicas de que tanto gostava.
“Fiquei enclausurada. Ele deu indícios de que sabia os horários em que eu ia no supermercado, na igreja, e o que eu fazia nos meus fins de semana... Fui me tornando uma pessoa reclusa, isso me fez muito mal”, desabafa.
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"Não conseguia nomear o que passei, só depois entendi que tinha nome”
Mariana Costa é uma das vítimas de um caso rumoroso que movimenta a Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, há pelo menos seis anos. Um coletivo feminista denunciou o professor de letras Edson Ferreira Martins à administração da instituição por abuso de poder, violência física, assédio moral e sexual, e estupro.
De acordo com os depoimentos que constam do Processo Administrativo Disciplinar (PAD) instaurado em 2019, o professor mantinha um comportamento de predador sexual, aproveitando-se do cargo para se relacionar afetivamente com várias estudantes, especialmente quando elas eram calouras e estavam chegando à universidade, ainda sem rede de apoio.
Apesar de os relacionamentos serem consensuais, as vítimas relataram que Edson as agredia quando era contrariado e que costumava submetê-las a estupros.
Mariana tinha 18 anos quando começou a namorar com o professor. Ela relata que quis firmar o compromisso, pois, na mesma época, ele estava ficando com outras mulheres da universidade. A relação dos dois durou cerca de um ano e, segundo ela, teve episódios traumáticos.
Depois do término e de conversar com outras mulheres, Mariana chegou à conclusão de que tinha vivido um relacionamento abusivo com ele. “Eu não conseguia nomear o que passei, mas consegui enxergar o que elas passaram e, assim, entendi que o que vivi tinha nome”, contou à reportagem do Metrópoles. Perguntada sobre como nomearia a situação, ela respondeu:
Violência, misoginia, violência de gênero, violência psicológica, violência física, humilhação, ameaça, chantagem emocional, cárcere privado, stalking”.
Após o namoro com Edson, Mariana achou melhor sair de Viçosa e ir para o Rio de Janeiro, onde continuou sua carreira acadêmica. “Tive que migrar. Para eu seguir na UFV, teria que passar por uma banca na qual ele estava, teria que passar pelas disciplinas obrigatórias que ele ministrava, teria que continuar circulando na cidade onde ele me perseguia”, afirma a professora de português que, atualmente, faz doutorado no Rio de Janeiro e tem 32 anos.
Comportamento repetido
Ao todo 11 estudantes encaminharam a denúncia coletiva contra o professor de letras.
Em seus depoimentos, as mulheres disseram que o docente passava a imagem de “homem desconstruído” e compreensivo para se aproximar. De acordo com elas, as abordagens românticas eram precedidas por propostas de projetos de pesquisa a serem discutidas e reuniões particulares.
A reportagem do Metrópoles conversou com outra aluna da UFV que se relacionou com Edson. Laura contou sua história sob a condição de anonimato.
Era o início do primeiro semestre de 2017. A jovem, que morava longe do campus à época, estava na parada de ônibus quando o professor passou de carro e lhe ofereceu carona. No caminho, pararam em um estabelecimento e compraram duas cervejas. O professor a convidou para a casa dele e, então, tiveram o primeiro encontro.
Os dois se viram novamente, tudo fluía bem, ela achou que estavam iniciando um relacionamento, até que ela discordou dele por “uma coisa boba” durante um encontro sexual.
Segundo ela, Edson, então, teria se enfurecido, gritado e tentado colocá-la para fora da casa dele, que ficava na zona rural da cidade. Laura conta que tentou acalmá-lo, sem sucesso, e estava chorando na cama, quando o professor teria a estuprado. “Ele viu o que estava fazendo. Eu, chorando, tremendo, ali, de medo e ele fez”, contou Laura.
Fiquei muito confusa em relação ao que tinha acontecido, porque já sabia muito bem o que estava acontecendo ali, mas, ao mesmo tempo, não conseguia acreditar que aquilo aconteceu”.
O caso diminuiu o rendimento dela nas disciplinas da UFV e a empurrou para um quadro de depressão, o que demandou tratamento psiquiátrico a partir do segundo semestre de 2017. Até hoje, Laura conta que fica vulnerável ao relembrar o episódio. Ela chorou em ao menos três momentos da entrevista.
“[A sensação é que] qualquer um pode fazer qualquer coisa com a gente. Nada é grave demais, sabe? Nada é grave demais para derrubá-lo. Não é a minha história que é ruim, são todas”, declarou, em meio às lágrimas.
Edson Ferreira Martins foi demitido da UFV em julho de 2023. A Comissão do PAD concluiu que o docente usou o cargo em proveito próprio, ou seja, para se aproximar e se relacionar com as alunas.
“Conforme comprovado e demonstrado nos autos, o servidor se valeu de seu cargo público, ferindo a dignidade da função pública, para obter vantagens pessoais, que se consubstanciaram na ocorrência de múltiplos e reiterados relacionamentos afetivos e sexuais entre o servidor e suas estudantes e ex-estudantes do curso de letras da UFV, relacionamentos esses de caráter público e, inclusive, confessados pelo acusado”. Diz trecho do relatório final do PAD.
A comissão considerou que os relacionamentos foram iniciados por conta da posição do professor, demonstrando a utilização da função pública para a obtenção de propósitos particulares.
Decisão judicial favorável
Indignado com a decisão da UFV, Edson ingressou com ação na Justiça Federal para tentar reaver o cargo – e conseguiu. O Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6) reverteu a demissão dele, pois não identificou o nexo causal entre o cargo e a obtenção de vantagem indevida. Em outras palavras, segundo esse entendimento, o docente não teria se valido de sua função de professor para se relacionar com as jovens.
Em nota, a defesa de Edson Martins afirmou ao Metrópoles que as denúncias e os depoimentos reunidos no PAD eram inverídicos. A advogada não desmentiu que o professor se relacionava com alunas, apenas ponderou que a UFV não dispunha de qualquer legislação interna que normatizasse esse tipo de envolvimento.
Em apenas uma semana, o pedido liminar foi deferido e a UFV obrigada a, de imediato, readmiti-lo em seu quadro. A liminar foi mantida em grau recursal e a sentença de mérito confirmou a liminar. O professor foi injustamente apenado”, afirma a advogada Marinês Alchieri, que representa Edson Martins. A defesa acrescentou que o docente está acionando judicialmente aqueles que entende terem responsabilidade pelas falsas denúncias.
Atualmente, Martins leciona na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), para onde foi transferido em 7 de maio, após decisão judicial do TRF-6. Antes disso, o professor já não participava presencialmente das atividades na UFV.
Combate ao assédio na UFV
A UFV informou ao Metrópoles que não pode aplicar qualquer tipo de penalidade a Edson Martins após a decisão de reintegração. Também não tem respaldo para inclui-lo, de forma obrigatória, em cursos e palestras contra assédio sexual.
A universidade destacou que implementou uma iniciativa denominada Política de Promoção dos Direitos Humanos e Combate às Opressões, por meio da criação de um código de ética e da campanha “UFV Contra o Assédio” (2024). A instituição também informou que veicula conteúdos informativos, além de promover eventos, rodas de conversa, cursos livres e capacitações destinadas aos professores, técnicos administrativos e estudantes.
Hoje, parte das vítimas forma um grupo de apoio. São mulheres que, segundo Mariana, trocam mensagens e conversam sobre memórias que só vão compreender entre si. Em meio à dor, nasceu uma amizade. Além disso, elas também se ajudam academicamente, ao revisarem trabalhos umas das outras. “É parte do processo de cura, que não há de terminar”, pontua Mariana.
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"É uma história importante de ser contada. A gente não pode admitir que isso siga acontecendo”
A musicista Mariana Sobrinho se dirigia ao Departamento de Música da Universidade de Brasília (UnB) para agendar um horário de ensaio no local, quando se deparou com o servidor Ivo Regazi Filho. Ele a convidou para tomar um café recém-passado. A estudante aceitou.
Era por volta das 18h45 e Mariana entraria em uma aula às 19h. Quando a estudante avisou que iria embora, Regazi perguntou se ela não lhe daria um abraço. Mariana não teve nem tempo de reagir. No segundo seguinte, o servidor a agarrou.
“Ele me puxou contra o corpo dele e tentou me beijar. Lembro que fiquei muito assustada. Foi tudo muito repentino. Não estava esperando e, com certeza, não dei sinal de interesse num contato físico”, relatou, descrevendo que se sentiu “frágil, vulnerável e fraca”. O caso aconteceu em 2022.
A estudante se desvencilhou de Regazi o mais rápido possível e saiu correndo do local onde estavam. No caminho para a sala onde seria a aula, ela já não controlava o choro. Quando chegou, agradeceu internamente que o professor da disciplina estava passando slides – assim, ninguém a veria aos prantos.
Mariana conta que, somente depois de conversar com amigas, soube nomear esse tipo de abordagem indesejada.
Falando com elas, entendi que tinha sofrido um assédio e, até então, não tinha interpretado direito, não tinha entendido, só estava com medo dele”
Posteriormente, a aluna ouviu vários casos semelhantes envolvendo Regazi. No entanto, além dela, apenas mais uma estudante denunciou o servidor por assédio sexual. Havia outra queixa contra ele, mas era de assédio moral. Com base na reclamação desses três alunos, foi aberto um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) que resultou na demissão do servidor, em agosto de 2023.
Mariana recorda que um dos momentos mais difíceis ocorreu quando ela precisou ficar de frente com Regazi durante o depoimento necessário para a apuração do PAD. Os dois estavam numa sala pequena, separados apenas por uma mesa.
“Senti como um tipo de terrorismo mental. Estava frente a frente com o meu assediador, contando uma situação traumática. Às vezes, ele interrompia, conversando com os advogados dele, e eu me sentia ainda mais nervosa e insegura”, declarou.
Anos se passaram, mas a história ainda não cicatrizou completamente. “Confesso que é um tema sensível para mim. Fazia tempo que não lembrava disso. Mas considero que é uma história importante de ser contada. A gente não pode admitir que isso siga acontecendo”, desabafa.
Outra estudante contou, no Processo Administrativo Disciplinar (PAD), que o ex-servidor tentou beijá-la e, diante da recusa, deu um beijo de língua na bochecha dela. Antes, tocou-a nos braços e nas pernas.
Regazi negou as acusações no PAD e alegou cerceamento de defesa. A demissão dele da UnB foi publicada no Diário Oficial em 7 de agosto de 2023.
O ex-servidor acionou o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) para reaver o cargo. Ainda não houve decisão sobre o caso. O Metrópoles tentou contato com Regazi para se manifestar sobre a demissão, mas ele não respondeu.
Reincidência
Regazi já tinha sido demitido, em 2017, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG). O ex-servidor também responde a uma acusação de violência doméstica no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT). O processo ainda não foi julgado.
Em resposta ao Metrópoles, a UnB destacou a produção de materiais educativos, a capacitação de gestores e a reedição do curso “Maria da Penha vai à universidade” como ações desenvolvidas contra o assédio sexual e a violência de gênero. “Reiteramos nosso compromisso institucional com a construção permanente de uma comunidade universitária que repudia veementemente todas as formas de violência e discriminação”, informou a instituição, em nota.