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Finalist

As aventuras de Ricardo Salgado da Arábia

Apoderou-se da gestão do único banco líbio exclusivamente privado, o Aman Bank. Corrompeu o governador do banco central. Criou uma brigada de operacionais que remunerou através do ‘saco azul’. Teceu uma teia de influências que se estendeu a políticos e diplomatas portugueses nos Governos de Sócrates e de Passos Coelho. Lavou e expatriou a fortuna de Kadhafi. Contornou sanções internacionais e lucrou com os dois lados da guerra. Uma investigação do Expresso, da SIC e do “Setenta e Quatro” com base na agenda de Ricardo Salgado

Project Lawrence: as aventuras de Ricardo Salgado da Arábia no país do coronel Kadhafi
(Parte 1)

De como Ricardo Salgado conheceu e fez negócios com o “banqueiro de Kadhafi”, aproveitando as boas relações dos governos de Sócrates com a Líbia. Esta é a primeira de três partes de uma investigação feita pelo Expresso, pela SIC e pelo Setenta e Quatro.

Foi um dia deveras invulgar na rotina de Ricardo Salgado, 24 de novembro de 2008. A primeira marcação na agenda do banqueiro assinalava, coisa rara, que aquela segunda-feira de trabalho principiasse apenas às 10 e meia da manhã. A hora exata que fora estabelecida para a assinatura definitiva do protocolo entre o Banco Espírito Santo e o Libya Africa Investments Portfolio.
No restrito gabinete de visitas da presidência do BES, num 15.º andar da baixa lisboeta, Ricardo Salgado e Bashir Saleh Bashir firmaram a criação de joint-ventures e o cruzamento de participações entre as duas entidades. Dependurada numa das paredes da sala, a obra-prima do mestre flamengo Pieter Bruegel, o Jovem, sugestivamente intitulada “Festa de Casamento”.
Estava, de facto, consumado o enlace entre Ricardo Salgado e a Grande Jamahiriya Árabe Líbia Popular Socialista. Era o culminar de um namoro que tinha começado três meses antes, a 19 de julho, por ocasião da inauguração oficial da embaixada de Portugal em Trípoli.
José Sócrates, Luís Amado e Manuel Pinho compuseram a deputação que se encarregou de apresentar o primeiro embaixador português na Líbia, Rui Lopes Aleixo, à elite política, económica e financeira local. Foi o próprio diplomata que nos confirmou que a criação daquela missão “visava exatamente apoiar a entrada de empresas portuguesas no mercado líbio, correspondendo, de resto, à abertura que o líder Kadhafi tinha manifestado nesse sentido ao governo português”.
Em audiência paralela, o presidente do BES assinava um “memorando de entendimento” e apertava a mão a Bashir Saleh Bashir, mais conhecido como “o banqueiro de Kadhafi”.
Foram tempos de uma euforia de proporção inversa ao que os indicadores económicos e financeiros mundiais previam após a crise do subprime.
Num mundo em transe, Mouammar Kadhafi arrogava-se o astro maior da constelação geopolítica internacional. Assumiu o pagamento de indemnizações aos familiares das vítimas do ataque terrorista de Lockerbie, renunciou ao programa líbio de armas de destruição em massa e forneceu às secretas norte-americanas dados preciosos sobre o seu arqui-inimigo, Osama bin Laden.
Em contrapartida, a Líbia passava de nação pária incorrigível ao novo eldorado petrolífero para as democracias ocidentais. Com Portugal na linha da frente na corrida ao ouro negro.
Em menos de cinco anos, entre outubro de 2005 e setembro de 2010, José Sócrates visitou a Líbia em quatro ocasiões diferentes. E até deixou que Kadhafi armasse a sua tenda de campanha no forte de São Julião da Barra, durante a segunda Cimeira União Europeia-África, que decorreu em Lisboa, em dezembro de 2007.
Mas enquanto os media e a opinião pública se entretinham com as extravagâncias do líder líbio, o Governo português tratava de “lançar a rede” aos fundos de investimento, ao gás e ao petróleo líbios.
Já Ricardo Salgado ficou com uma cifra a ressoar nos ouvidos: 180 mil milhões de dólares. O valor dos fundos soberanos que a Líbia prometia investir entre 2008 e 2010. O presidente da Comissão Executiva do BES tinha a perfeita noção que uma investida bem-sucedida num país como a Líbia carecia de uma estreita relação com a cúpula do poder executivo.
A agenda profissional do banqueiro é reveladora quanto às conexões e afinidades com o universo político português.
Antes e depois de rubricar o memorando com Bashir Saleh Bashir, com poucos dias de diferença, Ricardo Salgado jantou com José Sócrates. E estas são apenas duas de entre as 32 referências ao antigo primeiro-ministro que aparecem inscritas no seu diário de tarefas, entre 2008 e 2011.
Foi um período em que Luís Amado ganhou destaque de relevo. O ministro dos Negócios Estrangeiros de José Sócrates aparece invariavelmente ligado a Ricardo Salgado, sempre que o BES avança ou sofre retrocessos na operação líbia. Foi o elemento do governo que concebeu e dinamizou a estratégia de aproximação à Líbia, sendo inclusivamente convidado, a 1 de setembro de 2009, a participar no 40.º aniversário do golpe que levou Kadhafi ao poder.
“Nunca tive encontros de carácter pessoal com Kadhafi. Encontrei-me várias vezes com o líder líbio nos seis anos em que fui ministro, em encontros institucionais ou no âmbito de visitas oficiais”, referiu-nos o antigo ministro. No entanto, as relações entre Amado e Kadhafi conquistaram reputação internacional.

No livro de memórias dos anos passados em Washington, No Higher Honour, Condolleezza Rice, que foi a única dirigente política dos Estados Unidos da América a visitar a Líbia em mais de 50 anos, menciona os aconselhamentos prévios que recebeu do ministro português.
Secretária de Estado norte-americana entre 2005 e 2009, no segundo mandato de George W. Bush, Rice revela no seu livro ter passado por Portugal a 4 e 5 de setembro de 2008 para reunir com José Sócrates e para “aproveitar o conhecimento de Luís Amado sobre a Líbia e Kadhafi”. Foi recebida no Palácio das Necessidades numa audiência que Amado, na ocasião, classificou “de rotina”.
Um ano mais tarde, a 21 de setembro de 2009, em sentido inverso, o presidente da Líbia fez uma escala técnica em Lisboa, com pernoita, antes de participar na Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque. Em nome do governo, foi recebido por Luís Amado. “Não me lembro desse dia”, disse ao Expresso o antigo ministro socialista.
Luís Amado não nega nenhuma das 12 referências postadas em seu nome na agenda de Ricardo Salgado, mas também não revela grande memória sobre elas. A relação que mantinha com o banqueiro, assegura o ex-governante, era de “cortesia, como acontecia com a generalidade das pessoas com que me relacionava e relaciono”.
No entanto, Amado considera “natural” ter “falado algumas vezes” (“não sei quantas, francamente”) com Ricardo Salgado sobre a “situação económica e financeira internacional e a expansão do banco”. Em concreto, para a Líbia. Destino para onde o antigo ministro socialista afirma “nunca ter” acompanhado o presidente do BES, embora na entrevista que nos concedeu se contradiga ao afirmar que o banqueiro “esteve” presente numa visita oficial do governo português a Kadhafi, realizada entre 21 e 23 de março de 2010. “A ideia de me associarem ao Dr. Ricardo Salgado é uma efabulação sem nenhuma consistência”, protesta.

Tudo bons rapazes

Ao mesmo tempo que apanhou a boleia da política externa portuguesa para a Líbia, Ricardo Salgado libertou no terreno os seus “batedores” de confiança. Em finais de 2008, após a formalização do acordo com o “banqueiro de Kadhafi”, o presidente do BES nunca mais abandonou o propósito de captar capitais frescos para as empresas do Grupo Espírito Santo através do tesouro líbio.
A 11, 12 e 18 de dezembro, o banqueiro recebeu no seu gabinete Alexandre Barreto. Um funcionário do Grupo Espírito Santo que é referido no processo BES como “uma espécie de ministro dos Negócios Estrangeiros” de Salgado.
Na ocasião, o “informador” trazia notícias do Norte de África, recolhidas por intermédio do seu “colega e amigo” Fernando Costa Freire. O antigo conselheiro diplomático de Durão Barroso, e funcionário da ONU durante os governos de Cavaco Silva, confidenciou a Alexandre Barreto ter “um contacto no fundo soberano da Líbia que poderia ter interesse como potencial investidor no GES. “Nesse sentido, quis saber a minha opinião sobre colocar essa possibilidade [de negócio] ao líder do grupo”, revelou-nos Alexandre Barreto.
A partir do primeiro encontro entre os dois, a 11 de dezembro de 2008, Ricardo Salgado anota na sua agenda 68 referências a Fernando Costa Freire, parte delas referentes a reuniões partilhadas com Alexandre Barreto, a quem o presidente do BES designava por “Alex”.
Já na conta que detinha no Banque Privée Espírito Santo, na Suíça, Barreto utilizava o nickname “Xana”. Foi por esta via que, no período de implementação do BES na Líbia, entre 2008 e 2011, beneficiou de três pagamentos na ordem dos 735 mil euros, o mais avultado dos quais, no valor 403 mil euros, recebido através do veículo offshore Balenbrook, segundo consta no despacho de acusação do processo Universo Espírito Santo.
Cruzando a “linha do tempo” da agenda profissional de Ricardo Salgado com os largos milhares de documentos que estão na origem desta investigação, a “toupeira” que Fernando Costa Freire tinha para apresentar a Ricardo Salgado era Farhat Bengdara, o próprio governador do Banco Central da Líbia e atual presidente da poderosa Libyan National Oil Corporation. De entre o complexo baralho que era a banca líbia, calhou ao banqueiro português o ás de trunfo.

Com o “banqueiro de Kadhafi” entretanto enredado em esquemas que o levarão a constar no rol de procurados pela Interpol, Ricardo Salgado estreita ligações com Farhat Bengdara. Enquanto governador do Banco Central da Líbia e, por inerência membro do conselho de Aaministração da Autoridade de Investimento da Líbia, entidade que supervisiona todos os fundos soberanos da nação, Bengdara incentiva o banqueiro português a protagonizar a missão aparentemente impossível de comprar um banco, contornando os apertados crivos protecionistas da legislação financeira líbia, que o próprio regulava.
Na mira, o Aman Bank For Commerce and Investment. Um pequeno banco detido em maioria por Mokhtar Eshili e pela família.
Junto da administração líbia, é Farhat Bengdara quem assume as rédeas do negócio e o duplo papel de “regulador” e de conselheiro “avençado” do BES, num esquema de corrupção que o Expresso pôde desmontar através da leitura de diversos documentos inéditos. Como, por exemplo, a ata N.º 1378 da Comissão Executiva do BES, de 16 de maio de 2012.
Nessa reunião, o departamento de recursos humanos do Banco Espírito Santo propôs uma prestação de serviços de consultoria à empresa Noor Consultancy JLT, “com vista ao desenvolvimento do negócio, identificação de parceiros, aconselhamento com as autoridades financeiras e instituições públicas”.
O valor da avença anual foi fixado em 300 mil euros, montante “acrescido de despesas de representação e com possibilidade de pagamento de prémios de desempenho adicionais, a validar de forma ad hoc”. A proposta foi aprovada a “título extraorçamental”. Detentor único da Noor Consultancy, que tem sede social no Dubai: Farhat Bengdara.
Pelo menos até 2013, Bengdara continuou a ser remunerado por um negócio, o do Aman Bank, que se concretizou em abril de 2010.
Noutra ata do Banco Espírito Santo, com data de 5 de fevereiro de 2013, constata-se que “o Dr. António Souto [administrador do BES] apresentou uma proposta de intenção de gasto relativa aos valores a pagar em 2013, em virtude dos contratos estabelecidos na sequência da aquisição da participação no Aman Bank, aos senhores Dr. Fernando Costa Freire, Dr. Adel Dajani e Dr. Farhat Bengdara. A comissão executiva aprovou a proposta nos termos formulados, autorizando o pagamento das respetivas faturas até ao montante global, para o total do ano, de 875.000 €”.

O meu coração é árabe

Farhat Bengdara, Adel Dajani e Fernando Costa Freire: o tridente que Ricardo Salgado preparou para arpoar a questão líbia.
Enquanto Bengdara, no governo do Banco Central, tratou de aligeirar processos, Dajani e Freire foram os “sapadores” na linha da frente. Com os seus homens posicionados no terreno, no primeiro semestre de 2009, Ricardo Salgado fechou o cerco ao principal acionista do Aman Bank, Mokhtar Eshili. Em simultâneo, na capital portuguesa, o presidente do BES recebia altas figuras da política e das finanças líbias, incluindo o primeiro-ministro e o ministro da Fazenda de Kadhafi, como confidencia a sua agenda.
Na primeira conversa que manteve em Lisboa com Eshili sobre a entrada do BES no capital do Aman Bank, reunião preparada por Costa Freire para 19 de janeiro de 2009, Ricardo Salgado mencionou a compra de apenas 20% das ações do banco.
Mas a ideia do banqueiro português passava pelo apoderamento efetivo da governança daquela instituição bancária.
Num relatório sobre os resultados de uma reunião com Mokhtar Eshili ocorrida em Túnis, a 29 de junho de 2009, Costa Freire e Dajani informaram Ricardo Salgado que o banqueiro líbio “estava visivelmente nervoso” devido à “pressão muito forte da nossa parte para ceder o controlo do banco, incluindo o controlo acionista”.
O banqueiro líbio ameaçou “interromper as negociações”, uma vez que o Aman Bank “era o seu projeto pessoal” e não se mostrava “disposto a ficar de fora”. Em declarações ao Expresso, Costa Freire foi categórico: “nunca pressionei Mokhtar Eshili”.
Naquela altura, revela-nos Adel Dajani, advogado e financeiro líbio, “houve uma iniciativa do Banco Central [da Líbia], coordenada pela McKinsey para atrair bancos estrangeiros para apoiar o sector bancário líbio e o Aman Bank fez parte desta estratégia”.
Enquanto as restantes entidades financeiras líbias detinham uma pesada participação do Estado, o Aman Bank era o único banco com capitais exclusivamente privados, o que o transformava, ainda de acordo com o relatório enviado a Salgado por Costa Freire e Dajani, num “veículo virtualmente único para alcançar o domínio no mercado líbio”. E era essa precisamente a ambição do presidente do BES.

Após sucessivas reuniões em Trípoli, que estão comprovadas na troca de emails entre os “batedores” Costa Freire e Dajani e a sede do BES em Lisboa, o antigo conselheiro diplomático de Durão Barroso sugeriu finalmente, a 10 de junho de 2009, uma proposta de memorando de entendimento entre as partes.
O texto foi remetido com a chancela da Edeluc, de que Costa Freire era sócio-gerente e proprietário único. O consultor diz-nos hoje que não participou na redação daquele documento e que “toda a condução do processo legal” foi orientada por duas firmas de advogados estrangeiras. Porém, no email de Costa Freire que acompanha a proposta para a aquisição do Aman Bank pelo BES consta o seguinte: “envio em anexo um draft de um documento que discutimos nos últimos dias e que pretende ser o esqueleto com base no qual se poderá assinar um MOU [memorando de entendimento]”.
A Edeluc – Consultoria e Investimentos, após a tentativa falhada de trazer a empresa chinesa de rating Dagong para Portugal, foi extinta no final de 2021, por incorporação numa entidade que hoje se dedica à restauração e à venda de vestuário e artigos de uso doméstico, a Comportazul. A sede da empresa está associada a uma morada inexistente, como nos esclareceu a autarca local, embora sugestiva: “Rua do Feitiço, N.º 13”. Fica na Herdade da Comporta. A escassos quilómetros do controverso chalet de férias de Ricardo Salgado.
Entre março e junho de 2010, Fernando Costa Freire recebeu meio milhão de euros através do saco azul do BES, na forma de sucess fee pelo negócio do Aman Bank. Livres de impostos.
Já os pagamentos feitos a Adel Dajani para a compra do Aman Bank foram recebidos através de um veículo de investimentos tunisino offshore, a Maghreb Venture Partners. A parcela que coube a Farhat Bengdara foi canalizada para os Emirados Árabes Unidos, por via de outro instrumento offshore, a Noor Consultancy.
A 14 de julho de 2009, uma embaixada do Aman Bank liderada por Mokhtar Eshili deslocou-se a Lisboa para assinar o memorando de entendimento que atribuía a passagem de 40% — e já não apenas 20% — das ações e a gestão futura daquele banco para o BES.
O contrato de compra e venda e o acordo parassocial definitivos foram assessorados pelo gabinete de advogados líbio Zahaf & Partners Law Firm, em nome dos interesses de Mokhtar Eshili, e pela companhia britânica Dawsons-Solicitors, que representou a parte portuguesa e lhe deu o nome de Project Lawrence.
Follow the Leader
O Project Lawrence veio, uma vez mais, revelar o óbvio: a impossibilidade de o BES, segundo a lei líbia, controlar a gestão do banco ou deter a maioria do capital social. Preocupações que foram levantadas em diversas ocasiões pela estrutura interna do Banco Espírito Santo, como se observa, por exemplo, num e-mail de Rui Silveira, de 5 de novembro de 2009, onde este administrador do BES revelou ao diretor de assuntos jurídicos do banco que, em face dos dados disponíveis, “recomendaria que não se avançasse com o projeto”. Advertências que pouco ou nada afetariam as decisões futuras de Ricardo Salgado, inspirado pela odisseia de Lawrence da Arábia, o épico de entre todos os épicos.
Em fevereiro de 2010, O Banco Central da Líbia e o Banco de Portugal autorizaram a aquisição da participação estratégica no Aman Bank pelo BES. A formalização final do negócio e a comunicação à Comissão do Mercados de Valores Mobiliários decorreu dois meses depois, a 15 de abril. O BES revelava ter investido 23,3 milhões de euros na aquisição de 40% do Aman Bank, “procedendo a um aumento do capital social do banco na percentagem equivalente, o que totaliza um investimento na ordem dos 39,8 milhões de euros”.
Apesar da rapidez com que todo o processo decorreu, Ricardo Salgado deixou escapar por dias uma oportunidade de ouro para apresentar a sua nova estrutura bancária perante os principais atores políticos dos dois países.
Sócrates, Amado e Viera da Silva estiveram, entre 21 e 23 de março de 2010, de visita ao Magrebe, com passagem pela tenda de Kadhafi. Numa carta de 17 de março dirigida ao governador do Banco Central da Líbia, seu avençado, o banqueiro português desabafa que “seria lamentável que o Aman Bank e o BES não beneficiassem da visita do primeiro-ministro português ao The Leader [Kadhafi]”.
O objetivo de Salgado era apenas um. E o seu diário pessoal, a 1 de abril de 2010, revela qual: obter “informação sobre acesso aos fundos soberanos”.
Entre maio e agosto de 2010, Ricardo Salgado referenciou quatro vezes na sua agenda o nome de José Sócrates, reuniu duas vezes com Luís Amado e foi almoçar a Belém com Cavaco Silva. O BES tinha de mover influências para “beneficiar” da agressiva política externa portuguesa em relação à Líbia. E os resultados não se fizeram esperar. Em maio de 2010, segundo o relatório semestral da Autoridade Líbia de Investimentos, que consultámos, Kadhafi investiu 13, 5 milhões de dólares em obrigações do Banco Espírito Santo.
Era, ainda assim, uma ninharia em relação aos 1300 milhões de euros em depósitos que a Líbia estava a realizar em tranches na Caixa Geral de Depósitos. Os fundos financeiros nunca saíram da mira de Ricardo Salgado. A 9 de julho assenta no seu diário pessoal a seguinte nota: “Amílcar – Líbios 2 BI – CGD”. A cronologia histórica diz-nos que se trata de Amílcar Morais Pires, o responsável em Lisboa pelos assuntos do Aman Bank, que deveria estar atento aos quase dois mil milhões de dólares que Kadhafi estava a mover de Genebra para outros países, nomeadamente Portugal, em retaliação pela detenção do seu filho Annibal pelas autoridades suíças, devido a desacatos.
Mas a 1 de setembro, Sócrates estava de regresso à Líbia, naquele que seria o quinto encontro com Kadhafi. Uma visita que, na sombra, Ricardo Salgado preparou ao detalhe.
De acordo com a sua agenda de trabalho, entre 23 e 31 de agosto de 2010, o presidente do BES reuniu com a linha da frente: Costa Freire, Adel Dajani, Mokhtar Eshili e Pedro Homem, o quadro de confiança do BES que Salgado designou para a administração do Aman Bank. O objetivo único era influenciar e tirar partido (ou “benefício”) da presença do primeiro-ministro na Líbia, como o comprova a referência inscrita a 26 de agosto no seu diário: “papel para o 1.º Min Aman Bank. Enviado ao professor Vítor Escária, assessor do 1.º Ministro Economia”.
O verdadeiro ministro da Economia do governo socialista, no entanto, nunca teve assento nas sucessivas visitas governamentais a Kadhafi. Com Portugal em plena crise financeira e à beira da bancarrota, Teixeira dos Santos, na entrevista que nos concedeu, confirmou que era “evidente que havia uma aposta forte, diria mesmo estratégica, em relação à Líbia”. Já no que respeita às “relações perigosas” que entrelaçavam Ricardo Salgado aos membros do executivo e estes ao núcleo duro de Kadhafi, apenas disse: “Nós já somos suficientemente crescidos para saber que não há coincidências, não é?”.
Quanto a Vítor Escária, assessor de José Sócrates para os assuntos económicos entre 2005 e 2011 e um dos arguidos no célebre caso das viagens ilicitamente pagas pela Galp, chegou em 2020 a chefe de gabinete de António Costa. Cargo que terá utilizado para alegadamente fomentar as “relações perigosas” que fizeram de Escária uma das figuras centrais da Operação Influencer, a investigação judicial qeu levou à recente queda do Governo.
Apesar de estar duas vezes referenciado na agenda de Ricardo Salgado em momentos quentes relacionados com a Líbia e o Aman Bank (a primeira delas a 22 de março de 2010), Vítor Escária transmitiu ao Expresso não tencionar “corresponder positivamente” ao pedido de entrevista que lhe foi remetido. Mas o conteúdo do “papel” que recebeu do presidente do BES será revelado pelos factos. Em 2011, o ano da morte de Mouammar Kadhafi.

Project Lawrence: as aventuras de Ricardo Salgado da Arábia no país do coronel Kadhafi
(parte II)

https://expresso.pt/sociedade/2023-11-25-Project-Lawrence-as-aventuras-de-Ricardo-Salgado-da-Arabia-no-pais-do-coronel-Kadhafi---parte-II-00441aa1


De como Ricardo Salgado se interessou por um banco sem valor e com uma organização completamente caótica para ocultar grandes movimentações de dinheiro para o exterior da Líbia. Esta é a segunda de três partes de uma investigação feita pelo Expresso, pela SIC e pelo Setenta e Quatro


O Aman Bank era um banco insignificante. Não apenas no contexto financeiro líbio, mas sobretudo na operação global do Grupo Espírito Santo. Daí que vários quadros do BES, à margem de Ricardo Salgado, tenham criticado a concretização do negócio.
No início de 2011, após a eclosão da primeira guerra civil na Líbia, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) pediu “esclarecimentos adicionais ao mercado sobre os potenciais impactos na situação patrimonial do banco”.
Em resposta, Elsa Ramalho, responsável do BES pelas relações com os investidores, esclareceu por email que, “no final de 2010, o Aman Bank tinha 478 milhões de euros de ativo líquido”. O correspondente a 0,6% do ativo total consolidado do BES, “um valor imaterial” para as contas do grupo àquela data.
A somar à “ausência de valor”, a desorganização interna e operacional do Aman Bank era “assustadora”. Ou, como alertaria igualmente por correio eletrónico Rui Silveira, as “deficiências” funcionais e operativas detetadas no banco líbio eram “potenciadoras de sérios riscos legais, reputacionais e para toda a atividade”. O administrador do BES reagia aos resultados da primeira auditoria interna ao Aman Bank, em agosto de 2010, cujo relatório final concluía que aquela instituição apresentava uma “falta geral de cultura de controlo”.
A situação não parecia inquietar ou desagradar Ricardo Salgado. Antes pelo contrário. O banqueiro ignorou os alertas emitidos por uma auditoria externa “completa” ao Aman Bank realizada pela KPMG, entre janeiro e fevereiro de 2011, e que custou ao BES meio milhão de euros, de acordo com uma ata do banco de 26 de outubro de 2012.
Em vez de dar um passo atrás, Ricardo Salgado seguiu o seu instinto. Integrou na estrutura do Aman Bank um dos supostos “auditores externos independentes”, Sérgio Alves Martinho, que fora gestor da KPMG Portugal para as questões líbias e angolanas entre 2004 e 2013. E que, em ato contínuo, viria a incorporar e a permanecer nos quadros do banco líbio até junho de 2014. Altura em que o universo Espírito Santo enfrentava a sua própria “primavera”.
Sérgio Martinho considerou “muito julgamentais” as questões que lhe remetemos por email, após contacto prévio. E que, no essencial, versavam sobre eventuais incompatibilidades “morais e deontológicas” na sua passagem direta da KPMG — logo após ter “apoiado a aquisição” e ter participado na “implementação” do “negócio” — para o Aman Bank, onde começou a dar “suporte” e a “avaliar” o controlo interno do departamento de tesouraria e finanças. Funções que estiveram expostas na sua página na rede social LinkedIn, entretanto apagada.
O aparente amadorismo e uma gestão caótica foram as marcas identitárias do Aman Bank durante a presença do BES. Desde o primeiro ao último momento.
Num parecer datado de 30 de julho de 2014, a KPMG refere, enquanto revisor oficial de contas do Espírito Santo Financial Group (ESFG), que se tinha deparado com “uma limitação” no âmbito do seu “trabalho normal sobre o processo de relato financeiro do ESFG, por impossibilidade absoluta de concretização do mesmo no Aman Bank”.
Para Ricardo Salgado, a inexistência de escrutínio era o maior ativo do banco, como adiante se verificará.
A banca líbia era um poço de obscuridade, sem freio nem controlo, e o banqueiro português sabia-o. Na perfeição. “A maioria das empresas líbias atrasa a publicação das suas demonstrações financeiras ou, se forem publicadas, não são auditadas”, resume Ali Elfadli numa tese de doutoramento sobre o funcionamento da banca comercial naquele país defendida em 2018 na Universidade de Reading, em Inglaterra. O Aman Bank encontra-se no rol de bancos sinalizados por este investigador líbio.

Já a máquina comercial do BES anunciava aos mercados a sua nova “joia africana” como um “banco comercial moderno”, conforme se lê em diferentes prospetos de promoção internacional do grupo. Líbia, Cabo Verde, Angola, Moçambique.
Navegando à bolina desde as margens do Mediterrâneo até ao oceano Índico, percorrendo a costa atlântica, Ricardo Salgado tinha traçado, entretanto, à sua imagem e semelhança, um “mapa cor-de-rosa” no continente africano.

Sim, senhores embaixadores

De rosa se pintava também o cenário da política externa portuguesa no início de 2011. A 5 de janeiro, Portugal tomava assento, como membro não-permanente, no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) para o biénio 2011-2012, assumindo a presidência de três dos seus órgãos subsidiários, entre eles o Comité de Sanções à Líbia.
A eleição de Portugal foi unânime e “aclamada” pela Assembleia Geral da ONU, devido “à noção” de que o país “poderia guiar os trabalhos com imparcialidade” e “sem agendas escondidas nas suas ações”, segundo consta na dissertação de mestrado sobre a presidência portuguesa, defendida por João Caleiras em fevereiro de 2014, na Universidade Nova de Lisboa.
O embaixador Moraes Cabral, antigo chefe de gabinete de Jorge Sampaio, foi o diplomata escolhido por José Sócrates e Luís Amado para a presidência do Conselho de Segurança, em Nova Iorque.
Já para a capital dos Estados Unidos da América, o Governo socialista enviou, quase em simultâneo, o atual embaixador em Londres, Nuno Brito, o “obreiro” da Cimeira dos Açores que antecedeu a invasão do Iraque e que chegou a estar na calha para substituir Paulo Portas, durante a crise do “irrevogável” em 2013.
Ricardo Salgado manteve-se atento às movimentações da diplomacia portuguesa. E à geopolítica internacional, no seu todo. A Primavera Árabe ainda não tinha chegado à Líbia (a guerra civil estalou em Bengasi a 17 de fevereiro), mas adivinhava-se a cada instante.
A 21 de janeiro de 2011, como primeira tarefa do dia, o presidente executivo do BES reuniu com Fernando Costa Freire e com o “embaixador Nuno Brito, futuro em Washington” (tomou posse a 23 de fevereiro). A Líbia de Kadhafi, o posicionamento americano face a um presumível conflito e o futuro do Aman Bank passaram inevitavelmente pela mesa do pequeno-almoço.
Até ao final de fevereiro de 2011, primeiro os Estados Unidos, de forma unilateral, depois a União Europeia e por fim a ONU impuseram sanções à Líbia, bloqueando o sistema bancário e congelando os bens de Kadhafi e dos seus mais próximos.
Tal como o mundo do excêntrico ditador líbio estava à beira do colapso, também o Projeto Lawrence, que Ricardo Salgado tinha idealizado com minúcia, aparentava estar em vias de implosão.
Durante os “dias de chumbo” da revolução líbia, Fernando Costa Freire foi o mais próximo de entre os mais chegados homens de confiança do banqueiro, como testemunha o diário do presidente do BES. Esteve inclusive quando Ricardo Salgado tornou a “chamar Nuno Brito, embaixador nos EUA”, a meio da tarde de 10 de março de 2011, numa altura em que era imperativo preservar o Aman Bank a salvo das sanções internacionais.
O embaixador Nuno Brito, que não quis responder às questões que lhe colocámos, estaria no local exato e na altura ideal para interceder a favor da salvaguarda do Aman Bank. Da mesma forma que Allan Katz se encontrava numa posição determinante para a persecução dos interesses do banqueiro quando o mundo ocidental virou as costas a Kadhafi. O presidente do BES assentou na sua agenda a 30 de abril: “New ambassador into Portugal, Alan Katz”. [Novo embaixador em Portugal, Alan Katz]
Entre 21 de julho de 2010 e 15 de janeiro de 2014 existem pelo menos 15 referências ao diplomata norte-americano no diário de Ricardo Salgado. Duas delas, 4 e 7 de março de 2011, coincidentes com o período em que todos os bancos líbios ficaram sob sequestro das autoridades internacionais. Todos à exceção do Aman Bank.
Ricardo Salgado soube movimentar as suas peças nos diferentes tabuleiros do conflito. Num telefonema intercetado pela Polícia Judiciária a 30 de janeiro de 2012, a cujo relatório o Expresso teve acesso, o presidente do BES garantia ao chairman do Aman Bank, Mokhtar Eshili, que “através do Governo português poderá conseguir neutralizar as sanções das Nações Unidas”, concluindo que “a pessoa que está à frente” do Comité das Sanções à Líbia “era português”.
Apesar das várias tentativas de contacto, o embaixador Moraes Cabral, confrontado com o conteúdo desta escuta, acabou por não exercer o contraditório.

Quase morto no deserto

Allan Katz também não o fez, até ao momento. Mas de entre o vasto leque de documentos inéditos que possuímos e recorrendo a notas trocadas com jornalistas do jornal “The Wall Street Journal”, é fundado concluir que, a pedido do Departamento de Estado dos EUA, o diplomata americano destacado em Lisboa terá contactado Ricardo Salgado, solicitando-lhe que os pagamentos aos funcionários da embaixada norte-americana em Trípoli passassem a ser processados através do Aman Bank. A única instituição bancária que continuava a funcionar numa Líbia em transe e sob apertado escrutínio externo.
Há uma comunicação de Pedro Homem que ficou em ata da Comissão Executiva do BES, a 1 de junho de 2011, que atesta as estreitas relações entre o banqueiro e o corpo diplomático norte-americano. O vice-presidente do Aman Bank dava conta do agradecimento feito pela Secretária de Estado [Hillary Clinton] e do próprio Presidente dos EUA [Barack Obama]” que lhe foi “transmitido pela senhora ministra conselheira mrs. Lucy Tamlyn [na época vice-chefe da missão diplomática norte-americana em Portugal], à ajuda prestada pelo BES e pelo Aman Bank” no pagamento aos funcionários norte-americanos expatriados na Líbia.
A administração americana estendia a mão a Ricardo Salgado, salvando um projeto que, de outra forma, estaria condenado a morrer na praia. E fazendo do Aman Bank o epicentro de toda a atividade bancária num país cujas finanças e fundos permaneciam encobertos sob o manto de Muammar Kadhafi, da sua família e dos seus partidários mais chegados.
É neste quadro de instabilidade que o líder líbio, cada vez mais isolado interna e externamente, dá indicações para movimentar verbas para fora do país. Mais de 200 mil milhões de dólares, segundo uma investigação do jornal “Los Angeles Times” publicada em outubro de 2011. “Cerca de 30 mil dólares por cada cidadão líbio”, pressupunha então o jornal norte-americano.
Muito desse dinheiro terá passado pelo Aman Bank. Segundo pudemos apurar junto de um elemento do SIRP (Sistema de Informações da República), perfeitamente identificado, o banco líbio sob gestão do Grupo Espírito Santo foi um dos principais veículos que Kadhafi utilizou para, de forma ilegítima, extrair verbas do país, antes dos rebeldes tomarem Trípoli. Esta informação, obtida através de um “espião líbio”, foi reportada às hierarquias competentes como muito relevante, mas “não teve desenvolvimentos”.
De acordo com o “Wall Street Jornal”, houve inclusivamente uma agência federal norte-americana que “alertou as autoridades portuguesas para o facto de estar a investigar transferências de dinheiro do Aman Bank para fora da Líbia”. Conseguimos aclarar que foi o departamento da Florida da Federal Deposit Insurance Corporation, divisão de investigação que reporta ao Congresso dos EUA, que deu conhecimento ao Banco de Portugal (BdP) de uma inquirição que estava a desenvolver sobre a passagem ilegal de fundos entre o Aman Bank e o Espírito Santo Bank Miami.
Quando o império Espírito Santo derrocou e o Aman Bank foi vendido ao desbarato enquanto ativo tóxico, o BdP, ao contrário da posição que tomou na alienação do Banco Internacional de Cabo Verde, decidiu não interferir no negócio porque, segundo nos transmitiu, “não havia conhecimento de que decorressem investigações relacionadas com a venda, ou com as partes envolvidas”. O processo terá sido, entretanto, arquivado. E não é difícil perceber porquê.
O Aman Bank “servia” em simultâneo, sem reservas nem escrutínio, as duas partes do conflito líbio, o que era visto como “natural” pelo Governo português – tal como se depreende na audição de Paulo Portas na comissão parlamentar de inquérito ao BES/GES, ao mesmo tempo que se impunha no terreno como o único veículo bancário para as missões internacionais operarem na Líbia.
Na reunião do conselho de administração do BES, de 28 de maio de 2011, é deixado em ata que “o estrito cumprimento das normas internacionais (...) levou o grupo a solicitar, e a obter, a aprovação da ONU para a continuação da atividade do Aman Bank na Líbia”.

E é Pedro Homem, sempre ele, que na mesma reunião esclarece os administradores do BES sobre o facto de se manterem em curso “contactos” com “autoridades norte-americanas” com vista à prestação de serviços” pelo Aman Bank, nomeadamente para o “processamento de salários e outras transferências para colaboradores da embaixada dos EUA em Trípoli”. O BES estava “em fase de expansão para a Líbia” e a captar “elevados volumes de recursos locais”, referiu.

No despacho de acusação do processo-crime sobre o universo BES/GES, excluindo uma leve alusão biográfica a Amílcar Morais Pires que o identifica como responsável em Lisboa pelo acompanhamento do banco líbio, não há qualquer referência nem averiguação sobre o Aman Bank. E na comissão parlamentar de inquérito ao BES, apenas o deputado Miguel Tiago levantou a questão dos investimentos na Líbia, apanhando de surpresa Paulo Portas, conforme transmitiu ao Expresso o deputado comunista.
A teia diplomática que Ricardo Salgado teceu para defender os seus interesses na Líbia funcionou. Na perfeição. Até que, em meados de 2011, uma vertiginosa espiral de acontecimentos voltou a sacudir o empreendimento Aman Bank. O Governo de José Sócrates implode (fica em modo de gestão até 21 de junho). Portugal está à beira da banca rota e pede assistência financeira.
Os rebeldes do autoproclamado Conselho de Transição Nacional ocupavam Trípoli com o apoio de forças da NATO. Kadhafi realizava uma retirada estratégica da capital Líbia. Seria encontrado e assassinado na sua cidade natal, Sirte, a 20 de outubro. Farhat Bengdara, o hábil peão que Ricardo Salgado movia a seu favor no Banco Central da Líbia, caiu momentaneamente em desgraça. Na atmosfera financeira líbia pairava uma nuvem carregada de novas sanções à banca, agora internas.

Rei morto, rei posto

Muammar Kadhafi não se encontrava em Trípoli quando os rebeldes, que já controlavam parte significativa do país, entraram na capital, a 21 de agosto de 2011. Mesmo em local incerto, o carismático líder continuava a manter o controlo sobre o tesouro e a fazenda líbias. Daí se explique, porventura, a demora que alguns países do Ocidente evidenciaram em reconhecer a autoridade do Conselho Nacional de Transição (CNT). Entre eles, Portugal.
A 21 de junho de 2011, Paulo Portas sucedeu a Luís Amado na pasta dos Negócios Estrangeiros. Passada apenas uma semana, a 29 de junho, o ministro recém-empossado legitimou as novas autoridades líbias: “Portugal foi, tanto quanto pude reconstituir, o 14.º país da União Europeia a reconhecer o CNT”, revelou Paulo Portas na entrevista que concedeu ao Expresso. Foi “uma decisão inevitável. Se Portugal não o fizesse”, conclui o ex-líder do CDS-PP, “ficaria de fora de futuras etapas daquele país”.
Era, de facto, ruidoso, o silêncio do Governo português em relação às mudanças impostas pela Primavera Árabe na Líbia. No preciso dia em que os EUA ditaram as primeiras sanções ao regime de Kadhafi, 25 de fevereiro de 2011, o embaixador líbio em Lisboa, Ali Ibrahim Emdored, anunciou a sua demissão. “Não quero representar a gente que está a matar o meu povo”, declarou o diplomata à agência Associated Press.
Só a 9 de março de 2011, após visita a Lisboa do vice-secretário do CNT para a cooperação internacional, é que Luís Amado se viu forçado a afirmar que “o regime de Kadhafi acabou”. Contudo, nesse mesmo dia, manteve “uma conversa informal, num hotel” com um emissário de Kadhafi que conhecia há alguns anos, conforme foi noticiado em diferentes órgãos de comunicação. Era importante pesar “as consequências da mudança descontrolada do regime”, defendeu Luís Amado em entrevista ao Expresso.
Também era essa a maior preocupação de Ricardo Salgado: manter simultaneamente em aberto a cooperação com as duas fações em conflito.
A sede do Aman Bank em Trípoli foi encerrada por questões de segurança, conforme comunicação confidencial do BES à CMVM, e os quadros do Banco Espírito Santo que “estavam expatriados na Líbia com as suas famílias regressaram ontem [21 de fevereiro] a Portugal”.
No terreno, permaneceram os funcionários locais do Aman Bank, dirigidos por Mokhtar Eshili. A operação bancária manteve-se em funcionamento, com canais abertos para os dois lados da guerra, conforme nos assegurou Paulo Portas.
Sem controlo por parte dos gestores portugueses, as fraudes e a corrupção tomaram conta do Aman Bank.
Na reunião da comissão executiva do BES de 18 de maio de 2011, Pedro Homem informou que existiam “movimentos suspeitos de cheques nas contas de três clientes”, num montante total de 2,5 milhões de dinares líbios (meio milhão de dólares). Não conseguimos apurar o valor em causa, mas através de uma denuncia anónima relatada num email de Rui Silveira, administrador do BES, dirigido a Pedro Homem, vice-presidente do Aman Bank, conseguimos descodificar que o próprio Mokhtar Eshili estaria relacionado com um caso de fraude de grandeza tal que levou Silveira a ponderar: “devemos ou não sair do capital social do Aman Bank?”.

A demonstração financeira de 2011 revela que no final do ano o Aman Bank tinha uma imparidade de mais de oito milhões de euros. Uma insignificância que em nada inquietou Ricardo Salgado. Já depois de ter tomado conhecimento da grave ocorrência, o presidente do BES reiterou a sua confiança no sócio líbio, como se depreende numa escuta entre os dois banqueiros que a Polícia Judiciária intercetou. Quem mandava no grupo era ele, ditou Ricardo Salgado.
Os protagonistas eram agora outros, em Portugal e na Líbia. Muammar Kadhafi foi assassinado e exposto em público a 20 de outubro de 2011. Para manter o Aman Bank em pleno funcionamento, Ricardo Salgado contratou uma firma de advogados britânica, a Clyde & Co, tendo em vista “as questões da atividade do Aman Bank no contexto do embargo internacional imposto a várias entidades líbias” e, sobretudo, para tratar dos “assuntos relacionados com a atividade de trade finance”. Ou seja, para facilitar as transações internacionais de produtos e serviços financeiros.
A operação regular do banco líbio pouco ou nada parecia interessar a Ricardo Salgado. O fundamental, como se constata numa ata da CE do BES de 20 de julho de 2021, era “obter as licenças específicas que permitissem ao Aman Bank concretizar importantes operações de trade finance”.
Para esse efeito, Pedro Homem propôs a contratação de verdadeiros especialistas em “processos que envolvam sanções internacionais”: os advogados londrinos da DLA Piper. Um escritório que se apresentava como possuindo “considerável experiência” em lidar com “questões bancárias confidenciais”, muito em concreto no que dizia respeito a sanções internacionais.
Ricardo Salgado tinha encontrado o parceiro perfeito para enfrentar os embates que se anteviam na era pós-Kadhafi. Ainda que fosse alto o preço a pagar pelas consultas: 550 libras [630 euros] por hora, segundo a proposta de orçamento que consultámos.
Este terá sido o último serviço prestado por Pedro Fernandes Homem em favor do banco líbio. A 26 de outubro, de acordo com a respetiva ata do BES, pediu a reforma e “o pagamento da distribuição dos resultados de 2010 do Aman Bank”.
Ficou estabelecido e registado na agenda de Ricardo Salgado a 22 de fevereiro de 2010 que Fernando Homem e Adel Dajani ficariam com quatro por cento das ações do Aman Bank e, naturalmente, com direito à respetiva parcela dos lucros distribuídos aos acionistas [Adele + P.FH – 4% equity (50/50) – dividendos x 4% - 4% resultado].
Nas respostas que nos enviou por escrito, Fernando Homem afirma não ter “conhecimento desta nota” e refere que a mesma não lhe “faz sentido”: “nunca a vi ou ouvi abordada, direta ou indiretamente”. De qualquer forma, recebeu pelo menos 437 mil euros através do saco azul do BES.
Entretanto, em Lisboa, Ricardo Salgado tratava de redirecionar a sua agenda política. Nos primeiros quatro meses que se seguiram à tomada de posse do Governo de Pedro Passos Coelho, que ocorreu a 21 de junho de 2011, o presidente do BES chamou ao seu gabinete sete dos 12 ministros que compunham o executivo. A luta estava para continuar.


Project Lawrence: as aventuras de Ricardo Salgado da Arábia no país do coronel Kadhafi
(parte III) - A debandada do Aman Bank)

https://expresso.pt/sociedade/2023-11-27-Project-Lawrence-as-aventuras-de-Ricardo-Salgado-da-Arabia-no-pais-do-coronel-Kadhafi-parte-III--a-debandada-do-Aman-Bank--710cced5

De como a mudança de governo em Portugal não afetou os negócios de Ricardo Salgado na Líbia e de como o banqueiro se reinstalou no regime pós-Kadhafi. Última de três partes de uma investigação feita pelo Expresso, pela SIC e pelo Setenta e Quatro


Se é verdade que a governação de José Sócrates e Luís Amado foi um verdadeiro maná para os intentos líbios de Ricardo Salgado, a de Passos Coelho e Paulo Portas não lhe ficou atrás. A 7 de setembro de 2011, o novo ministro dos Negócios Estrangeiros fez uma visita surpresa à Líbia. Portas reuniu em Bengasi com Mustafa Abdel-Jalil, tendo obtido a garantia do presidente do Conselho Nacional de Transição (CNT) que todos “os contratos e acordos” estabelecidos com Kadhafi se manteriam “inalterados”, segundo realça Raúl Braga Pires num artigo publicado no Observatório Político.
Há um memorando do BES/Aman Bank que enquadra a visita Paulo Portas à Líbia e através do qual é possível constatar a forma como Ricardo Salgado tenta desde logo aliciar os rebeldes, colocando “à disposição das novas autoridades (...) uma linha de crédito sem garantia de 10 milhões de dólares para a CNT comprar gasolina”.

Neste documento está igualmente plasmado o à-vontade nas relações entre o banqueiro e o governante: “Para reiterar o nosso mais forte apoio ao CNT, um dos administradores da Aman Bank nomeado pelo BES foi o único membro não oficial da delegação que acompanhou o ministro dos Negócios Estrangeiros português na sua primeira visita a Bengasi”.
Fernando Costa Freire confirmou-nos que foi ele o conselheiro que Ricardo Salgado conseguiu intrometer no séquito diplomático português. “No seguimento da guerra civil e da situação de segurança extraordinariamente complicada que se vivia, acompanhei o ministro dos Negócios Estrangeiros numa sua deslocação a Bengasi, julgo que em Setembro de 2011 onde foi entregue um memorando do BES ao chairman do CNT sobre o Aman Bank”.
“Não me recordo de ter participado nesse encontro que ocorreu há 12 anos", contradiz-se Costa Freire, na entrevista que nos proporcionou por escrito.
Mal Paulo Portas regressou a Portugal, o banqueiro instou o ministro a comparecer numa reunião na sede do BES, a 13 de setembro de 2011, e Portas não recusou o convite. “Acho natural que me tenha perguntado a opinião sobre a evolução da Líbia”, disse ao Expresso. “O BES tinha lá um ativo relevante e a situação político-militar era delicada.”
A situação não era apenas “delicada”, era melindrosa em demasia para as movimentações do BES na Líbia. Tão espinhosa que, a 19 de setembro, Ricardo Salgado beneficiou de uma audiência privada com o primeiro-ministro. “A minha agenda”, revelou ao Expresso Pedro Passos Coelho, “confirma esta reunião. Neste caso, como em várias das seguintes, não recordo em particular qualquer assunto específico que tenha sido abordado”. O líder do governo discursou na ONU sobre a situação líbia uma semana após o encontro com o banqueiro.
No preciso dia em que reuniu com Passos Coelho, Ricardo Salgado enviou para o terreno uma brigada de combate composta por gente da sua confiança. Era “fundamental irem já para Trípoli”, assentou Ricardo Salgado na sua agenda.
Integraram a missão, entre outros, Pedro Homem, Rui Guerra, Eduardo Pinto e Rui Cupertino. Este último, uma das figuras mais indecifráveis na campanha líbia do BES. Fez parte da equipa inaugural do Aman Bank enquanto diretor de risco (CRO) e foi promovido a diretor-executivo (CEO) quando se deu o colapso do Grupo Espírito Santo, cargo que exerceu até 2018, altura em que assumiu a vice-presidência do banco. Em abril deste ano, 2023, regressou a Portugal, abandonando, de um dia para o outro, a cadeira de conselheiro sénior na presidência do Aman Bank.
Rui Cupertino não aceitou falar connosco de viva-voz. Mas o seu nome emergiu a meio de uma conversa que mantivemos recentemente em Lisboa com um elemento de uma agência baseada em Trípoli que investiga o paradeiro dos ativos líbios ilegalmente desviados para fora do país.
No início de 2023 foi realizada uma ação de inspeção ao Aman Bank, onde se encontrava Rui Cupertino. Segundo o inspetor, que quis preservar o anonimato, o antigo quadro do BES, quando interpelado, mostrou-se “incomodado” e “muito nervoso”. Pouco tempo depois da vistoria, estava de regresso a Portugal. Hoje apresenta-se como consultor independente para a conformidade e controlo de risco bancário.
As sucessivas cisões, golpes-de-estado e guerras civis, estimuladas por governos estrangeiros e exponenciadas pela tribalização do território, não têm deixado grande espaço de manobra para perseguir os mais de 200 mil milhões de dólares que a elite próxima de Mouammar Kadhafi terá irradiado para fora da Líbia. Nomeadamente através do Aman Bank.
Em 2013, o governo líbio chefiado por Ali Zeidan contratou uma empresa norte-americana de recuperação de ativos financeiros, a Command Global Services. Da investigação nada resultou em concreto. Zeidan foi entretanto raptado, demitido e forçado ao exílio. E as informações recolhidas ficaram igualmente condenadas ao esquecimento. Ou talvez não.
Haig Melkessetian foi um dos operacionais da Command Global Services que, em 2013, tentou seguir o rasto do tesouro financeiro de Kadhafi. Uma fortuna que, aos dias de hoje, superaria a riqueza acumulada pelo atual homem mais rico do mundo, Elon Musk.
Enquanto diretor-adjunto de investigação para a recuperação dos ativos da Líbia, Melkessetian confessou ter sido informado por funcionários do banco e por outras individualidades locais que o Aman Bank “tinha desempenhado esse papel [movimentações financeiras ilícitas e lavagem de dinheiro] para membros da família de Kadhafi, com o conhecimento dos executivos do Banco Espírito Santo em Portugal”.
Estas palavras do ex-agente da CIA foram recolhidas por jornalistas do The Wall Street Journal, com quem partilhámos dados e informações. Não conseguimos, no entanto, estabelecer novo contacto com Haig Melkessetian, que atualmente é diretor-geral de uma empresa especializada em fraude financeira, a Lazarus Brothers.
Já o jornal norte-americano apurou junto de um antigo funcionário do BES que “os executivos do Banco Espírito Santo facilitavam transferências bancárias para retirar dinheiro do país para clientes do Aman Bank e para outros credores”. Parte desse dinheiro terá sido encaminhado para bancos da família Espírito Santo na Suíça e no Dubai, perdendo-se-lhe aí o rasto.
O valor mínimo para entrar na lavandaria do Aman Bank estaria situado nos 10 milhões de euros e as comissões recebidas pelo BES seriam “altíssimas”, de acordo com uma fonte nos serviços de informação portugueses.
Contactámos o advogado de Ricardo Salgado, solicitando-lhe que nos falasse sobre os protagonistas e os acontecimentos que a agenda do ex-banqueiro expõem. Francisco Proença de Carvalho esclareceu-nos que não poderia participar numa reportagem “que parece assentar em devassa e especulação em torno do conteúdo das agendas pessoais do meu cliente."

Vira o disco e toca aos mesmos

Foi um ano de acerto de contas na Líbia, 2012, e de reviralho. O então governador do Banco Central da Líbia, Farhat Bengdara, previu com estimável antecedência que o regime de Kadhafi não resistiria aos avanços dos rebeldes e que os seus mais próximos, onde ele se incluía, ficariam na mira das novas autoridades.
Bengdara, o principal agente de Ricardo Salgado na Líbia, avençado do BES pelo menos até 2013, viajou para a Turquia quatro dias após o início da guerra civil, a 21 de fevereiro de 2011. E por lá ficou o tempo necessário para se converter ao islamismo, fazendo promessas de amor às milícias que se insurgiam contra o seu falecido amigo Kadhafi.
De acordo com a agência noticiosa Reuters, Farhat Bengdara “esteve formalmente no cargo até 6 de março, altura em que o governo [de Kadhafi] percebeu que não regressaria.
Menos de cinco meses após desertar, a 3 de julho de 2011, a toupeira do BES estava reabilitada e já movia as suas influências em nome do novo regime, como se deduz pelo conteúdo de um post-it que a secretária de Ricardo Salgado, Teresa Amorim, colou na sua agenda de serviço: “Bengdara: Conselho de Transição Nacional da Líbia gostava de se encontrar com o governo brasileiro”.
Hoje, Farhat Bengdara preside à Libyan Nation Oil Corporation (NOC) e mantém a Noor Consultancy, a companhia offshore por onde recebeu os pagamentos do BES. Contactámos repetidas vezes as duas empresas. Sem êxito.
“É tudo uma questão cultural”, afirmou em entrevista ao Expresso Iman Bughaighis. “Os oportunistas agora estão em toda a parte.” De acordo com a primeira porta-voz do Conselho Nacional de Transição, a esperança na revolução líbia morreu à nascença porque “ele [Kadhafi] destruiu tudo e encorajou sempre as pessoas a serem corruptas”. Hoje, prossegue, “a corrupção é a mesma, mas mais caótica e oportunista. Ou estamos numa guerra civil ou estamos à beira de uma guerra civil”.
Iman Bughaighis, professora universitária, acredita que a Líbia só mudará com uma arma chamada educação. Até lá, os regimes podem mudar, mas vão perpetuando nas instâncias do poder as famílias e os protagonistas de sempre.
Na segunda vez que visitou a Líbia, a 19 de março de 2012, Paulo Portas teve um encontro com o sucessor de Farhat Bengdara no Banco Central da Líbia, o intrigante Siddiq Kabir. Num perfil publicado pela New Lines Magazine lê-se que Kabir “reflete muitas das contradições da Líbia pós-Kadhafi: o financiamento estatal das fações beligerantes, as alianças em constante mudança e o conluio entre adversários políticos”.

Foi a este banqueiro que o ministro dos Negócios Estrangeiros português solicitou “que desse proteção de segurança” ao banco de Ricardo Salgado e aos cidadãos portugueses que lá trabalhavam.
Segundo nos assegurou Paulo Portas, “não foi difícil fazê-lo, porque o Aman Bank seria uma das poucas instituições financeiras locais que processava salários de funcionários dos dois lados da guerra civil”.
Paulo Portas nega que tivesse ido à Líbia prestar qualquer tipo de favor ao presidente do BES, mas a agenda de trabalho de Ricardo Salgado dá-nos uma ideia diferente.
A 24 de janeiro e a 14 de fevereiro de 2012, antecipando a visita ministerial, o banqueiro e o governante terão jantado juntos. E numa escuta telefónica intercetada pela Polícia Judiciária, o presidente do BES informou o seu sócio líbio no Aman Bank, Mokhtar Eshili, que tinha “um compromisso com o governo português” e que o ministro dos Negócios Estrangeiros “já foi à Líbia” e “vai outra vez esta semana”.
“O governo português”, concluiu Ricardo Salgado, estava “comprometido em manter uma boa relação com o governo líbio”.
Numa Líbia em absoluta transfiguração, o presidente do BES também se viu forçado a rearranjar as suas peças no novo e complexo tabuleiro do jogo que então recomeçava.
Da mesma forma que usufruiu das boas graças da política externa portuguesa junto de Mouammar Kadhafi, o banqueiro tinha agora necessidade de se abeirar da recente elite governativa em Trípoli. Tema que não terá passado à margem do jantar que Ricardo Salgado ofereceu ao embaixador da Líbia em Lisboa (na Sala Mediterrâneo do Hotel Marriot, segundo a sua agenda), a 27 de fevereiro de 2012.
Mas o potencial de influência de Ali Ibrahim Emdored, que resistiu à frente da embaixada líbia em Lisboa a mais de uma década de guerras e a sucessivos governos no seu país (2009-2013), aparentava ser curto para as ambições de Ricardo Salgado.
O banqueiro queria chegar ao topo do poder líbio para condicionar eventuais constrangimentos ao funcionamento do Aman Bank. É o que se depreende da leitura da vasta correspondência eletrónica entre as cúpulas do BES a que acedemos.
Num email enviado à administração do Banco Espírito Santo a 4 de junho de 2012, o advogado líbio do Aman Bank reivindicava a intercedência direta do ministro dos Negócios Estrangeiros português junto das autoridades líbias. Paulo Portas aceitou o desafio. “Em tese, é natural que o BES tenha alertado o MNE; e que o MNE tenha feito o que devia e lhe competia”, disse-nos.
Paulo Portas , no entanto, passou por cima da questão do eventual compromisso que Ricardo Salgado afirmou ter estabelecido com a administração portuguesa em relação à Líbia. “O governo português, na pessoa do ministro dos Negócios Estrangeiros, tem vindo a interceder telefonicamente e formalmente junto do TNC [Conselho Nacional de Transição], do Governo Líbio e do CBL [Banco Central da Líbia], com total conhecimento e reporte à CE do BES”. Estas palavras foram retiradas de uma exposição dirigida a 11 de junho de 2012 por Rui Guerra, que esteve na administração do Aman Bank entre 2010 e 2012, a Rui Silveira, administrador do BES.
Paulo Portas garantiu-nos ter mantido com Ricardo Salgado uma “relação normal”.

Tudo muda para que tudo fique igual

Com a momentânea acalmia da situação sociopolítica na Líbia e em plena fase de consolidação das alterações ditadas pelo novo regime, Ricardo Salgado acreditava que o Aman Bank estava “em boa posição para aproveitar as oportunidades de crescimento do país”, de acordo com o relatório e contas do BES de 2011.
Logo no início do ano seguinte, a 11 de janeiro 2012, o banqueiro convocou para a hora do almoço um encontro, mais um, com Fernando Costa Freire.
O resultado dessa conversa vem expresso, passados apenas cinco dias, em formato de ata da comissão executiva do BES: “O departamento de recursos humanos solicitou autorização para proceder ao pagamento das faturas que em 2012 venham a ser apresentadas respeitantes aos contratos celebrados para prestações de serviços do Dr. Fernando Costa Freire e do Dr. Adel Dajani, no âmbito da atividade desenvolvida na Líbia, nos montantes mensais de €20.833 e 26 €808, respetivamente”. Foi o primeiro pecado capital de Ricardo Salgado no projeto do Aman Bank.
Enquanto Farhat Bengdara esteve no comando do Banco Central da Líbia (e ao serviço de Ricardo Salgado), o Aman Bank pôde organizar-se à imagem e semelhança do dono. Mas agora, no início de 2012, o novo regulador pedia o mínimo dos mínimos às instituições financeiras do país: o cumprimento do Manual de Governança para o Setor Bancário, um decreto publicado em 2010, no preciso ano em que o BES consolidou a sua posição na banca líbia. Foi então que a estrutura operacional do BES em Lisboa se deu conta das fortes omissões na governação e da ausência generalizada de controlo na sua subsidiária magrebina.
As conclusões do “relatório de análise às lacunas de governança do Aman Bank” que a divisão internacional do BES pediu à Ernst & Young, e às quais acedemos, são demolidoras. Desde que o BES assumiu os destinos do banco líbio, o conselho de administração do Aman Bank funcionou sem qualquer tipo de filtro. Sem comités de governança, de auditoria, de gestão de risco, de nomeação ou de bónus.
A nível regulamentar, outro desastre: nunca até então havia sido implementado o próprio estatuto do conselho de administração, não existia código de conduta e muito menos foram definidas diretrizes de conflito de interesses. Só mesmo Ricardo Salgado e o seu exército privativo de gestores conheciam o funcionamento da máquina e o que verdadeiramente se passava em Trípoli.
Em Lisboa, os diferentes departamentos e direções do BES ficaram em estado de choque com o inventário do modelo de governo do banco líbio. Aliás, até à data da realização do “1.º Steering [comissão de organização] do Projeto Líbia – Aman Bank”, que sucedeu apenas a 17 de fevereiro de 2012, a participação portuguesa na Líbia era tida pelos quadros do BES como uma “excentricidade” de Ricardo Salgado, que pouco ou nada pesava nas contas do grupo.
Numa troca de emails entre os dois administradores mais chegados ao presidente do BES, Rui Silveira revelava a Morais Pires que desconhecia inclusivamente “a composição dos órgãos de administração e fiscalização do Aman Bank”.
Silveira sabia, no entanto, que era fulcral “avaliar-se a independência dos atuais membros do board” — Fernando Costa Freire e Adel Dajani. Os dois pontas de lança que Ricardo Salgado tinham assinado sucessivos contratos com o BES desde agosto de 2010. E a comissão executiva do BES até havia estabelecido os seus salários mensais para 2012.
Na assembleia geral do Aman Bank, realizada em Trípoli a 25 de abril de 2012, ficou inclusivamente decidido que Freire e Dajani participariam em todos os quatro comités de controlo que urgia serem criados, em conformidade com as normas do Banco Central da Líbia: gestão de risco, auditoria, governança e compensação. No referido organigrama, ambos foram nomeados para o conselho de administração do Aman Bank, enquanto membros independentes.
Consultámos o decreto 20/2010, de 15 de julho, do Banco Central da Líbia sobre a regulação dos membros independentes. Fernando Costa Freire e Adel Dajani reprovariam em cinco das sete limitações impostas pelo BCL.
Num email dirigido a Paula Ferreira, do departamento Internacional do BES, a 4 de maio de 2012, Rui Silveira ordenou que se cessasse “os pagamentos efetuados às sociedades detidas pelos Sr. Adel Dajani e Dr. Costa Freire, sob pena de estes deixarem de ser independentes”, e que se revogasse quaisquer contratos de prestação de serviços com eles.
Já antes, Rui Silveira tinha admitido que “todos eles” conservavam “business relations com o Aman Bank e/ou com o BES”. Mas que nesta nova fase do banco deveriam “celebrar os contratos que quiserem com sociedades terceiras”. Para efeitos de avaliação da sua independência, prossegue o administrador do BES, “deverá ser-lhes exigido declaração que não recebem qualquer remuneração do BES”.
Com mais um golpe de ilusão, estava garantida a continuidade dos sapadores de Ricardo Salgado no epicentro do negócio Aman Bank. Mas para que a magia surtisse um efeito concreto, acrescentava Rui Silveira, era da maior importância que o processo fosse “rigoroso” e “blindado” (as aspas são do próprio) perante as entidades supervisoras na Líbia e em Portugal.
Ricardo Salgado deixava, por agora, apenas uma ponta solta: Mokhtar Eshili, o velho amigo de Mouammar Kadhafi e do seu cunhado, o implacável chefe dos serviços secretos líbios, Abdullah Senussi.

No preciso dia (2 de maio de 2012) em que o presidente do BES enviou para a Líbia um novo coordenador para as áreas de risco e compliance, Luís Lourenço, o Conselho Nacional de Transição faz publicar a Lei N.º 36: uma lista com 338 empresas e pessoas próximas de Kadhafi, cujos bens e propriedades foram arrestados. Entre os quais, Eshili.
“A Líbia deve ter milhões de habitantes”, discorreu Rui Silveira num email dirigido a Rui Guerra a 12 de maio, “qual a razão que levou o CNT a incluir o Sr. Mokhtar Eshili entre as pessoas singulares e coletivas alvo das medidas de coação/apreensão?”.
A resposta era simples. Eshili foi um dos banqueiros de maior confiança de Kadhafi e as novas autoridades líbias estavam a tomar as primeiras iniciativas para recuperar a fortuna do antigo líder. O fundador do Aman Bank, caracterizado como um “homem perigoso” pela nossa fonte na agência de recuperação de fundos desviados ilegalmente da Líbia, estava no centro do turbilhão.
A 24 de maio de 2012, o Aman Bank entrava na lista das entidades arrestadas. As campainhas de alarme tocaram na sede do BES, em Lisboa. Nesse mesmo dia, como se constata em ata do Banco Espírito Santo, Ricardo Salgado estabelece contacto telefónico com o regulador líbio, tendo-lhe sido “reafirmada total confiança”.
Afastado momentaneamente Eshili, abriam-se as portas do Aman Bank aos novos interesses que estabeleciam na Líbia. Ricardo Salgado, que fora obrigado a integrar na direção do banco três quadros de confiança do governador líbio, estendia a passadeira a Siddiq Kabir. A 17 de julho de 2012, o Aman Bank foi retirado da “lista negra” e voltou a operar “normalmente”. Mokhtar Eshili também foi reabilitado pelo novo regime, tal como aconteceu com a grande maioria dos prosélitos de Kadhafi.

Aos primeiros dias de outubro de 2012, segundo a agenda do banqueiro, Salgado, Eshili e Kabir, este último a convite de Paulo Portas, terão estado juntos em Portugal. O governador do banco central veio a Lisboa tratar dos fundos que Kadhafi tinha investido na Caixa Geral de Depósitos. Dinheiro que Salgado e o seu sócio Eshili nunca desistiram de alcançar.
“Depois da morte de Khadafi”, afirma a nossa fonte na Líbia, “foram os novos senhores no poder que passaram a usar o Aman Bank para lavar dinheiro”.

O leopardo deixa a sua pele

No final de 2012, pela primeira vez em quatro décadas a Líbia celebrou nas ruas o seu Dia da Independência. Já em 2013, cumpridas as festas natalícias, Ricardo Salgado escreveu na sua agenda que, a 24 de janeiro, regressaria à Sala Mediterrâneo do Hotel Marriot para “celebrar a independência” com o embaixador líbio em Lisboa, Ali Ibrahim Emdored.
Ricardo Salgado não terá tido grandes razões para festejar. Em Portugal, começava a ser ouvido no processo-crime Monte Branco, sobre fraude fiscal e branqueamento de capitais, e as irregularidades na gestão do BES/GES não tardaram a enxamear o espectro mediático nacional.
Na Líbia, a instabilidade política e tribal inviabilizava as operações do Aman Bank. O jantar no Marriott assinalava o aparente princípio do fim. O banqueiro deixou cair o Project Lawrence e passou a chamar à operação líbia “Projeto Lockerbie”, aludindo ao atentado, moralmente atribuído a Khadafi, contra o voo da companhia aérea norte-americana PanAm, que em dezembro de 1988 matou 270 pessoas.
O relatório de atividades e resultados do BES/GES referente ao mês de maio, e ao exercício do primeiro trimestre de 2014, inscreve 77 mil euros em consultorias para o desenvolvimento do “Projeto Lockerbie” e mais de 430 mil euros em aconselhamentos sobre o futuro do Aman Bank.
No mesmo documento volta a constar a Edeluc, a quem são atribuídos 40 mil euros, na categoria de “projetos internacionais”. Fernando Costa Freire, que ainda era membro do conselho de administração do banco líbio, tornou a ferir de morte a sua “independência”.
Na entrevista que nos concedeu por escrito, Costa Freire assegurou que nunca foi “quadro do BES nem do GES mas, naturalmente, o trabalho que desenvolvia era remunerado”. “Não tive nunca qualquer intervenção na atividade do dia a dia do banco”, garantiu-nos.
O seu nome consta na agenda de Ricardo Salgado em 11 diferentes ocasiões durante o período de maior turbulência no Aman Bank. A 14 de outubro de 2013, o presidente do BES anota: “F. Costa Freire e conta primo Khadafi?”.

“Não conheço, nem nunca conheci ou tive contacto com qualquer membro da família de Kadhafi”, garantiu-nos Fernando Costa Freire. Uma investigação publicada pelo jornal online Maghreb Confidential, hoje denominado Africa Inteligence, assegura que o primo de Kadhafi em causa era Ahmed Kaddafedam. O BES fez um desmentido e pediu a “retratação” do jornal.
Adel Dajani também transmitiu ao Expresso que não tinha “qualquer conhecimento” sobre as relações de Salgado com a antiga elite de Mouammar Kadhafi, nem com a utilização do Aman Bank como veículo para extrair dinheiro ilicitamente do seu país. O banqueiro líbio acrescenta que apenas fez “parte da equipa profissional de consultores, incluindo advogados e gestores internacionais que constituíam o grupo de due diligence que assessorava o chefe da Divisão Internacional do BES”. “Dada a falta de concorrência bancária na Líbia”, esclareceu-nos, a aquisição do Aman Bank até “foi estratégica”.
Ana Gomes conheceu Adel Dajani em Trípoli, na casa de Isabel Brilhante Pedroso, diplomata que sucedeu a Lopes Aleixo e que foi a segunda e última embaixadora de Portugal na Líbia.
“Pareceu-me um financeiro muito urbano”, disse ao Expresso Ana Gomes, então relatora do Parlamento Europeu para a Líbia. Dajani possuía uma “conversa muito educada e a sua perspetiva era que não havia problema nenhum com o Aman Bank”.
Numa das várias missões que a levaram a território líbio, Ana Gomes também “veio a saber” que Fernando Costa Freire era “responsável pela ligação” a Ricardo Salgado e que “estava permanentemente a viajar em jato privado entre Lisboa e Trípoli”.
No decurso das suas diferentes inquirições, que afirma terem sido sempre reportadas ao governo português, Ana Gomes disse-nos ter percebido que o Aman Bank “não era relevante em termos líbios, mas era um banco muito importante para o BES, possivelmente porque era [um veículo] para os esquemas de branqueamento que o BES precisava manter e que lhe assegurava ligações com outros países do mundo árabe”.

O homem deixa a sua reputação

A partir de fevereiro de 2014, Costa Freire e Adel Dajani deixaram de constar na agenda de Ricardo Salgado. E a 25 de Junho de 2014, por proposta da responsável da direção internacional do BES, Paula Ferreira Borges, Freire e Dajani foram substituídos no conselho de administração do Aman Bank por Bruno Catarino e Hélder Carvalho.
Em ata da comissão executiva do BES consta que os contratos anteriormente celebrados com Freire e Dajani, “enquanto especialistas para consultoria e prospeção de negócios na África e Médio Oriente”, foram rescindidos, tendo sido “negociado um valor compensatório até ao máximo de 270.000€ por pessoa, excluindo prémios”.
Ricardo Salgado tinha a corda ao pescoço. O império Espírito Santo desabava, pedra atrás de pedra, em todas as suas geografias. E, porventura, também na Líbia.
Na manhã de 17 de janeiro de 2014, o presidente do BES chamou ao seu gabinete Mokhtar Eshili, Amílcar Morais Pires e Francisco Santos, assessor para o desenvolvimento internacional, para prepararem o caminho a dar ao Aman Bank. Na ata da comissão executiva do BES de 25 de junho de 2014, percebe-se que desse encontro de janeiro saíra uma “proposta visando a contratação da Oliver Wyman para assessoria na avaliação de oportunidades de venda da participação detida pelo BES no Aman Bank”.
Mokhtar Eshili, que era suposto ser a parte compradora interessada, estava também a atuar na penumbra como conselheiro do comité que se propunha vender a posição do BES na sucursal líbia.
No prospeto do road show para a oferta pública de venda do Aman Bank, preparado pelo advogado António Soares (acusado de associação criminosa e de corrupção no processo-crime sobre o universo BES/GES), era publicitado que a gestão do banco tinha “regras de confidencialidade” e que a lei líbia impunha grandes “restrições” ao sistema bancário. O que não era propriamente um agradável cartão de visita para qualquer eventual comprador.
Segundo o relatório e contas do BES de 2014, falharam todas as tentativas de venda do banco. Em Lisboa, os resultados consolidados do GBES, em maio de 2014, davam conta que o Aman Bank estava entre os “devedores mais significativos” do grupo: 31 milhões de euros. Em Trípoli, na mesma data, foram detetados roubos de caixa de 3,5 milhões de euros e uma fraude que custou mais de 2,6 milhões de euros ao Aman Bank. O braço líbio do BES estava a saque. Em Lisboa e em Trípoli.
A 16 de julho, abandonaram a Líbia os últimos expatriados do BES em serviço no Aman Bank. A sua permanência era insustentável. Só entre maio de 2013 e maio de 2014, o Banco Espírito Santo pagou mais de 675 mil euros por sete habitações no luxuoso Complexo Palm City, em Trípoli, para albergar os seus funcionários.
Consideradas “lixo”, as ações do BES no Aman Bank foram, entretanto, parar ao “banco mau”, por deliberação da administração do Banco de Portugal, de 11 de agosto de 2014. Mas foi o “banco bom”, o Novo Banco, que indicou, 10 dias depois do anúncio da medida de resolução, os administradores para a gestão interina da instituição financeira líbia: Francisco Santos, Paula Ferreira Borges, Guilherme Morais Sarmento, Bruno Catarino e Hélder Carvalho.
Eram todos ex-quadros de relevo e de confiança no falecido BES de Ricardo Salgado. Francisco Santos até participou na última reunião com Eshili. Bruno Catarino e Hélder Carvalho foram escolhas do presidente do BES para substituir Fernando Costa Freire e Adel Dajani na administração do Aman Bank, onde já constava um companheiro de longa data, Guilherme Morais Sarmento.
A 2 de março de 2015, Luís Máximo dos Santos, presidente do “banco mau”, vendeu a participação de 40% que o BES detinha no Aman Bank por 3,9 milhões de euros. Um décimo do valor que Ricardo Salgado tinha investido inicialmente na Líbia. Entidade compradora das ações: Freslake Limited. Uma empresa que não deixou rasto na Internet e que foi criada (e logo extinta) nas Ilhas Virgens Britânicas, como conseguimos confirmar de forma documental.
Representada pela advogada britânica Holly Hirst, quadro da multinacional Hogan Lovells, a Freslake Limited comprou o Aman Bank sem que a origem nem a idoneidade da empresa adquirente fosse questionada. Responderam-nos do Banco de Portugal que “não havia conhecimento de que decorressem investigações relacionadas com a venda ou com as partes envolvidas”.
O regulador bancário “considerou que a venda cumpria o objetivo de maximização do valor que viria a integrar a massa insolvente do BES, pelo que não se opôs à concretização” do negócio. O nome do governador do Banco de Portugal aparece 65 vezes grafado na agenda de trabalho do presidente do BES. “Nunca tive qualquer relacionamento pessoal com o Dr. Ricardo Salgado, nem antes nem depois de assumir as responsabilidades de governador”, respondeu-nos Carlos Costa.
Nem o Banco de Portugal, nem o Ministério Público e sequer a Assembleia da República se interessaram por um banco que Ricardo Salgado planeou desde o primeiro instante para ser inverificável, invisível e insignificante, na aparência.
Apenas Miguel Tiago, numa breve e inconclusiva troca de palavras com Paulo Portas durante a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) ao BES levantou a “lebre” Aman Bank. “Não sei por que razão os outros partidos não colocaram esta questão, isso ultrapassa-me”, confidenciou ao Expresso o ex-deputado comunista: “devem ter corrido milhares de milhões de euros por aqueles canais (...) nem podemos imaginar quanto dinheiro terá passado por ali”.
Paulo Portas, por seu lado, declarou na CPI ao BES que o Estado português não teve nada a ver com o caso, uma vez que o Aman Bank era supervisionado pelo Banco Central da Líbia. A tal entidade cujo antigo governador, Farhat Bengdara, era avençado do BES e cujo sucessor, Siddiq Kabir, era íntimo de Mokhtar Eshili e do seu parceiro português, Ricardo Salgado.
Falámos com um ex-administrador do Aman Bank e também estabelecemos contacto com o antigo sócio de Ricardo Salgado na Líbia. O primeiro garantiu-nos que a Freslake Limited, a empresa que comprou a posição do BES ao desbarato, é criação e propriedade de Mokhtar Eshili.
Eshili confirmou-nos que “o Aman Bank é agora um banco 100% líbio” e que “todos os acionistas são líbios”, não estando “autorizado” a dizer-nos “mais nada”. Embora se saiba que o banqueiro líbio está neste momento “à procura de um novo parceiro internacional”. E que pelo menos três antigos funcionários do BES (António Cardoso, César Ferreira e Jorge Góis) continuam a ter cargos de governança no banco líbio. Só falta o quadro de Pieter Bruegel pendurado numa parede de um 15.º andar da baixa lisboeta, a partir de onde Ricardo Salgado comandava as suas operações, para que a história se repita. Como uma “festa de casamento”.